UOL Notícias Internacional
 

27/04/2010

Riqueza e tradição puxam Qatar na direção de escolhas prejudiciais à saúde

The New York Times
Michael Slackman*
Em Doha (Qatar)
  • Jovens do Qatar comem em um fastfood na cidade de Doha. A pequena nação do Golfo Pérsico está entre os líderes do mundo em casos de obesidade e diabetes

    Jovens do Qatar comem em um fastfood na cidade de Doha. A pequena nação do Golfo Pérsico está entre os líderes do mundo em casos de obesidade e diabetes

Para um país pequeno, um dedo de areia apontado do lado oriental da Península Árabe para o Golfo Pérsico, Qatar é uma terra de grandes números. 

Ele tem o segundo maior produto interno bruto per capita do mundo e a terceira maior reserva comprovada de gás natural do mundo. Mas também ocupa posição elevada em categorias menos invejáveis, como a maior prevalência de obesidade, diabete e desordens genéticas do mundo, segundo especialistas em saúde locais e internacionais. 

Os qatarianos nativos, que somam apenas cerca de 250 mil em uma nação de 1,6 milhão, estão sofrendo sérios problemas de saúde relacionados diretamente a um estilo de vida privilegiado, pago pela riqueza de petróleo do país, assim como uma determinação em manter as tradições sociais, como os jovens se casarem com primos. 

“Nós estamos falando sobre obesidade séria”, disse o dr. Justin Grantham, um especialista do hospital de medicina esportiva e ortopédica do Qatar, envolvido em um programa piloto de vida saudável. “As consequências para a saúde a longo prazo serão significativas.” 

Como outros países ricos em petróleo, o Qatar saltou décadas de desenvolvimento em curto prazo, trocando a vida fisicamente exigente do deserto pelo conforto do ar condicionado, de serviçais e fast food. 

Mas ao mesmo tempo que abraçaram as conveniências modernas, os qatarianos também lutaram para proteger sua identidade cultural das forças da globalização. Para muitos aqui, isso inclui a manutenção da prática do casamento dentro da família, mesmo quando isso previsivelmente produz desordens genéticas, como cegueira e vários problemas mentais. “É realmente difícil romper as tradições”, disse o dr. Hatem el Shanti, um pediatra e geneticista clínico que dirige um centro de testes genéticos em Doha, a capital. “É uma tradição passada de uma geração para outra.” 

Os qatarianos vivem em um país não maior do que o Estado de Connecticut, onde são minoria entre os mais de um milhão de trabalhadores estrangeiros atraídos pelos empregos locais. Mas seus problemas não são exclusivos. 

Kuait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, todos compartilham problemas semelhantes com obesidade, diabete e desordens genéticas, todos sofrendo os efeitos colaterais de um estilo de vida financiado pelo petróleo e um desejo de manter as tradições. 

Mas, mesmo nesta região, o Qatar se destaca. 

Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Obesidade, o Qatar está em sexto lugar em prevalência de obesidade e possui a maior taxa de obesidade entre meninos na região do Oriente Médio e Norte da África. Um artigo recente no jornal qatariano “Al Watan” disse que os especialistas em saúde locais previram que, em cinco anos, 73% das mulheres qatarianas e 69% dos homens seriam classificados como obesos. 

A obesidade é considerada o fator mais importante no desenvolvimento da diabete e é um dos principais contribuidores para muitos outros males, como hipertensão. A Federação Internacional de Diabete classifica o Qatar em quinto lugar globalmente em termos de proporção de pessoas com idades entre 20 e 79 anos com diabete. 

A March of Dimes Foundation, uma caridade americana voltada à eliminação dos defeitos de nascença, listou o Qatar como 16º globalmente em incidência de defeitos de nascença por 1.000 nascimentos vivos. A principal causa do problema no Qatar são os casamentos consanguíneos, dizem os especialistas daqui. A Arábia Saudita ficou em segundo lugar globalmente. 

Apesar de todos esses desafios, e apesar de toda essa riqueza, o Qatar tem se concentrado no tratamento das doenças em vez da prevenção. 

Todo mundo aqui aponta para o estilo de vida e para a tradição para explicar as crises de saúde da nação. Apesar de já ter sido tabu falar sobre os problemas envolvidos no casamento entre parentes, o assunto agora é tratado abertamente. Há alguma discussão sobre exames genéticos pré-nupciais, ou testes genéticos feitos após o parto. Mas a tradição é tão forte que ninguém menciona a perspectiva de coibi-la. 

“Não dá para lidar com esse assunto”, disse Moza al Malki, uma terapeuta familiar e escritora. “Há algumas famílias grandes, clãs, onde não se casa fora da família. Eles não permitiriam.” 

A questão da obesidade parece trombar no mesmo muro da tradição, disseram especialistas em saúde daqui. 

“Se você não come, é considerado uma vergonha, e se você sai da casa de alguém sem comer, é uma vergonha”, disse Abdulla al Naimi, 25 anos, que se refere a si mesmo como “rechonchudo”, mas está notadamente acima do peso. “Metade da minha família tem diabete”, disse Al Naimi. “Minha mãe tem diabete. Três primos mais jovens do que eu têm diabete. Eu como demais e não faço exercício.” 

Ele também é casado com uma prima em primeiro grau. 

E Al Naimi por acaso é o diretor do projeto Estilo de Vida Saudável, um esforço nascente para tentar a mudança do foco do tratamento para a prevenção. O projeto está ligado à Fundação Qatar, fundada pelo emir do Qatar, o xeque Hamad bin Khalifa al Thani. Al Naimi não vê ironia nisso, porque em termos qatarianos, seu peso e sua escolha de uma parente como esposa são a norma, ele disse. 

Ele reconhece que mudar as atitudes será um processo lento, na melhor das hipóteses. “Nós estamos tentando mudar os hábitos das pessoas, apenas para que comecem a caminhar”, ele disse, reconhecendo que ele mesmo nunca encontra tempo para se exercitar. 

Caminhar não é popular no calor do Qatar. As temperaturas médias em junho e julho são de muito úmidos 41ºC, e Doha, como muitas cidades na região, não é construída para pedestres. 

Para piorar, as pessoas daqui dizem que todas as suas ocasiões sociais são definidas pela comida. As refeições tradicionais geralmente incluem arroz, manteiga clarificada e cordeiro. Como as pessoas frequentemente compartilham grandes pratos comunitários, praticamente não há como monitorar o tamanho das porções, disseram pessoas aqui. 

“Não dá para nos reunirmos e não comermos”, disse uma mulher qatariana de 22 anos que é membro da família real Thani. Ela pediu para que seu nome não fosse usado, para evitar embaraçar seus parentes próximos. 

Ela disse que sua família é típica. Dos sete filhos, cinco têm problemas de peso. Um irmão chegou a 120 quilos aos 19 anos. Um irmão mais novo, que tem 10, pesa 56 quilos e está ganhando peso tão rápido que as calças que ela lhe deu dois meses atrás não servem mais. 

Segundo ela, um estudante qatariano típico não toma café da manhã, então come um lanche e almoça na escola. Quando os estudantes voltam para casa, eles almoçam de novo, geralmente uma refeição pesada de arroz e cordeiro. Posteriormente, eles lancham bolo e chá. E então fazem outra refeição à noite, frequentemente fast food entregue em casa. 

“Eu almoço, então visito uma amiga; eu estou satisfeita, mas eles colocam uma mesa diante de você e ficam trazendo comida”, ela disse. “Eu não poderia comer, mas seria um insulto.” 

Outro problema ainda maior é a atitude, disse Nelda Nader, uma dietista daqui. “Para a maioria”, ela disse, “é realmente normal ser obeso”. 

*Mona el Naggar contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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