UOL Notícias Internacional
 

30/04/2010

Recuperação econômica pode criar dores de cabeça para o Banco Central Europeu

The New York Times
Jack Ewing
  • Fachada do prédio sede da União Europeia, localizado em Bruxelas (Bélgica)

    Fachada do prédio sede da União Europeia, localizado em Bruxelas (Bélgica)

A angústia coletiva da Europa em relação à Grécia foi interrompida por algumas boas notícias na quinta-feira. O desemprego alemão caiu mais do que o esperado, enquanto os lucros aumentaram para algumas das maiores empresas alemãs. 

Ninguém vai se queixar de sinais de crescimento robusto na maior economia da Europa, que tem um produto econômico 10 vezes maior do que o da Grécia. Mas a recuperação da metade norte da zona do euro, enquanto a periferia sul afunda ainda mais em crise, cria um dilema para os autores de política monetária que poderia aumentar ainda mais as tensões já sérias dentro da Europa. 

Se o crescimento no norte da Europa prosseguir durante o restante do ano, o Banco Central Europeu (BCE), em Frankfurt, acabará enfrentando uma pressão para elevação das taxas de juros para conter a inflação. 

Mas um aumento dos juros poderia ser prejudicial para a Grécia, assim como para a Espanha, Portugal e outros países com problemas de dívida, elevando o alto custo de tomada de empréstimo tanto para os governos quanto para as empresas. 

O banco central “não pode correr o risco de uma inflação na zona do euro pelo bem desses países”, disse Zsolt Darvas, um economista da Breugel, uma organização de pesquisa em Bruxelas. “Eles terão que enfrentar taxas de juros mais altas, e será muito difícil para eles resolverem seus problemas fiscais.” 

Esta visão é aceita na Alemanha e nos países próximos dela. Outra visão é de que aliviar o sofrimento do sul da Europa deve permanecer uma maior prioridade do que conter uma futura inflação com mão pesada. 

Para o banco central, felizmente, o dia do acerto de contas provavelmente não virá até o início do ano que vem. Ainda sem sinais de que a inflação é um risco iminente, a maioria dos economistas não espera um aumento da taxa de juro referencial –atualmente em 1%– até março de 2011, segundo uma pesquisa da agência de notícias “Reuters”. 

Mas Jean-Claude Trichet, o presidente do banco central, e outros membros de seu conselho diretor enfrentam uma série de escolhas difíceis nas próximas semanas e meses. 

Um risco é o de que a perda da fé na solvência da Grécia se espalhe para Portugal e talvez para a Espanha, ameaçando outra crise bancária e forçando uma ação por parte do banco central. 

O banco central começou a reduzir gradualmente o dinheiro quase ilimitado que emprestou aos bancos europeus após o congelamento dos empréstimos interbancários em 2008. Mas alguns analistas acreditam que o banco central poderia interromper esse processo ou mesmo revertê-lo. 

O banco “poderá ter que voltar atrás e reabrir algumas de suas medidas não convencionais”, disse Nick Matthews, economista europeu sênior do Banco Real da Escócia. 

O BCE também poderia enfrentar pressão caso o Federal Reserve (Fed, o banco central) americano comece a elevar os juros. Taxas mais altas nos Estados Unidos encorajariam os investidores a converter mais ativos em dólares para obter um melhor retorno, provocando uma queda ainda maior do euro. 

Um euro mais fraco seria bom para a Grécia e para os exportadores europeus em geral, ao tornar seus produtos menos caros nos mercados estrangeiros. Mas o lado negativo é que um euro mais fraco aumentaria o custo do petróleo e de outros commodities, que geralmente são cotados em dólares. Custos mais altos de energia alimentariam a inflação, aumentando a pressão sobre o banco central para aumento dos juros. 

Por ora, esse risco parece ter diminuído após o Fed ter sinalizado na quarta-feira que não tem pressa para aumentar os juros. 

O rebaixamento da dívida grega para o status de junk (podre) pela agência de rating (classificação de crédito e risco) Standard & Poor’s, e pela Moody’s e Fitch logo depois, apresenta um problema mais imediato para o banco central. Segundo as regras do BCE, isso tornaria a dívida grega inaceitável como garantia para os empréstimos do banco central, criando sérios problemas para os bancos na Grécia que usam os títulos domésticos de sua propriedade para tomada de empréstimo. 

“O BCE não quer ser aquele que empurrará a Grécia no abismo”, disse Janet Henry, a economista-chefe europeia do HSBC. “Se a situação ficar crítica, eles vão contornar as regras.” 

Mas uma mudança nas políticas também poderia arranhar a credibilidade do banco central, disse Darvas, o economista da Breugel. O banco central já afrouxou suas exigências de garantias para ajudar a Grécia, apesar da insistência de Trichet neste ano de que o banco não ajustaria a política para países específicos. 

O banco central também mudou de curso sobre se o Fundo Monetário Internacional (FMI) deveria exercer um papel importante no resgate da Grécia. Os membros do conselho diretor do banco primeiro disseram que a Europa poderia lidar com seus próprios problemas, então mudaram de posição de forma desajeitada, ao se verem forçados a reconhecer que o FMI era indispensável. 

Apesar desses tropeços, as brigas políticas entre os líderes da União Europeia ressaltaram a importância do banco central como a instituição na zona do euro capaz de agir de modo mais decisivo em resposta a uma crise econômica. 

Alessandro Leipold, o ex-diretor do departamento europeu do FMI, especulou que o banco central poderia estender ainda mais seu mandato caso os políticos da Europa permaneçam lentos demais em concordar com os termos do pacote de resgate à Grécia. 

Por exemplo, o banco central poderia organizar um empréstimo-ponte para permitir à Grécia cumprir suas necessidades financeiras imediatas e evitar um calote, disse Leipold. “Eu desconheço as tecnicalidades, mas deve ser possível”, ele disse. Outros analistas disseram que consideram uma ação dessas improvável. 

Outra opção, segundo analistas do RBS, é de que o banco central faça compras de títulos do governo, o que o banco tem evitado. 

O banco central “defenderá a região usando todas as ferramentas à sua disposição”, disseram analistas do RBS em uma nota na segunda-feira. Enquanto o comércio global se recupera, os exportadores alemães como a Siemens, o conglomerado de eletrônicos, e a produtora de software SAP informaram fortes lucros, ajudando o desemprego corrigido sazonalmente a cair de 8% para 7,8%. 

Os economistas lembram que quando a Alemanha estava enfrentando dificuldades no meio da década, o banco central manteve os juros baixos apesar da política ter levado a economias superaquecidas na Irlanda e em outros países. Os economistas esperam que uma Alemanha ressurgente, simplesmente devido ao tamanho de sua economia, ainda estabelecerá o tom para as decisões do banco central. 

“Eles estabeleceram as políticas tendo em mente a Alemanha em vez dos países menores –onde as condições eram bem mais frouxas”, disse Henry, do HSBC. 

No próximo ano, “a Alemanha se destacará mais proeminentemente do que a periferia”, ela acrescentou. “O BCE tem seu limite de inflação em 2% e ele fará o que for necessário para conseguir isso.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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