UOL Notícias Internacional
 

03/05/2010

O mundo "virtual" está mudando as amizades "reais" dos jovens?

The New York Times
Hilary Stout

“Ei, você é um idiota”, disse a garota com um sorriso para o menino. “Eu só queria que você soubesse.”

“Obrigado!” disse o menino.

“Tô brincando”, disse a garota com outro sorriso. “Você só é meio idiota, mas fora isso, você é bem normal –às vezes.”

Ambos riram.

“Vejo você amanhã”, disse o menino.

“Ok, até lá”, disse a garota.

É uma conversa típica de adolescente, uma familiar por gerações. Exceto que esta tem um toque distinto de 2010. Ela ocorreu no Facebook. Os sorrisos eram dois pontos com parênteses. Os risos eram típicos ha has. “OK” era apenas “K” e tudo era abreviado.

As crianças costumavam conversar de fato com seus amigos. Essas horas gastas ao telefone de casa ou passadas com os amigos do bairro após a escola desapareceram há muito tempo. Mas agora, mesmo conversar em celulares ou via e-mail (por meio do qual ao menos é possível conversar em parágrafos) está fora de moda. Para os adolescentes e pré-adolescentes de hoje, o dar e receber da amizade parece ser conduzido cada vez mais em fragmentos abreviados de textos de celular e mensagens instantâneas, ou em espaços públicos como os murais do Facebook e quadros de recado do My Space. (Andy Wilson, o menino de 11 anos envolvido na conversa acima, tem 418 amigos no Facebook.)

Na semana passada, o Centro Pew de Pesquisa apontou que metade dos adolescentes americanos –definidos no estudo como sendo de idades de 12 a 17 anos– envia 50 ou mais mensagens de texto por dia, e que um terço envia mais de 100 por dia. Dois terços dos autores de textos pesquisados pelo Projeto Vida Americana e Internet do centro disseram que enviam mensagens aos seus amigos uma vez por dia, mas apenas 33% disseram que conversam face a face com seus amigos diariamente. Os resultados surgem poucos meses após a Fundação Kaiser para a Família ter divulgado que os americanos com idades ente 8 e 18 anos passam em média 7,5 horas por dia usando algum tipo de aparelho eletrônico, de telefones inteligentes a tocadores de MP3 e computadores –um número que surpreendeu muitos adultos, mesmo aqueles que mantêm seus BlackBerrys ao alcance da mão durante a maior parte do tempo.

Até hoje, grande parte da preocupação com todo este uso de tecnologia tem se concentrado nas implicações para o desenvolvimento intelectual das crianças. A preocupação com as repercussões sociais tem se concentrado no lado sombrio das interações online, como o “ciberbullying” (agressões pela Internet) ou mensagens de texto sexualmente explícitas. Mas psicólogos e outros especialistas estão começando a olhar um fenômeno menos sensacional, mas potencialmente mais profundo: se a tecnologia pode estar mudando a própria natureza das amizades das crianças.

“Em geral, as preocupações com o ciberbullying e as mensagens sexuais ofuscaram uma análise dos verdadeiros nuances de como a tecnologia está afetando as propriedades da amizade”, disse Jeffrey G. Parker, um professor associado de psicologia da Universidade do Alabama, que estuda as amizades das crianças desde os anos 80. “Nós estamos apenas começando a olhar essas mudanças sutis.”

A pergunta na mente dos pesquisadores é se todas essas mensagens de texto, mensagens instantâneas e redes sociais online permitem que as crianças se tornem mais ligadas e forneçam mais apoio aos seus amigos –ou se a qualidade de suas interações está diminuindo devido à falta de intimidade e do dar e receber emocional do tempo passado face a face, tradicional.

Ainda é cedo demais para saber a resposta. Escrevendo na “The Future of Children”, uma revista produzida por meio de uma colaboração entre a Instituição Brookings e o Centro Woodrow Wilson da Universidade de Princeton, Kaveri Subrahmanyam e Patricia M. Greenfield, psicólogas da Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles, e da UCLA, respectivamente, notaram: “A evidência qualitativa inicial é de que a facilidade da comunicação eletrônica pode estar deixando os adolescentes menos interessados na comunicação face a face com seus amigos. Mais pesquisa é necessária para ver quão disseminado é esse fenômeno e o que causa à qualidade emocional de um relacionamento.”.

Mas a pergunta é importante, acreditam as pessoas que estudam relacionamentos, porque amizades estreitas de infância ajudam as crianças a desenvolver confiança em pessoas fora de suas famílias e, consequentemente, ajudam a estabelecer a base para relacionamentos adultos saudáveis. “Esses bons relacionamentos estreitos, nós não podemos permitir que desapareçam. Eles são essenciais para permitir que as crianças desenvolvam estabilidade e para permitir que brinquem com suas emoções, expressem suas emoções, todas as funções de apoio que acompanham os relacionamentos adultos”, disse Parker.

“Estas são coisas sobre as quais falamos o tempo todo”, disse Lori Evans, uma psicóloga do Centro de Estudo Infantil da Universidade de Nova York. “Nós ainda não dispomos de um grande corpo de pesquisa para confirmar o que pensamos clinicamente que está acontecendo.”

O que ela e muitos outros que trabalham com crianças veem são conversas que são muito mais superficiais e públicas do que no passado. “Quando éramos mais jovens, nós passávamos horas ao telefone com uma pessoa”, disse Evans.

Hoje, as mensagens instantâneas frequentemente são as conversas em grupo. E, ela disse, “o Facebook não é uma conversa”.

Uma das preocupações é de que, diferente de seus pais –muitos dos quais lembram de ter relacionamentos de infância intensos com algum colega com os quais passavam grande parte do tempo e contavam todos seus segredos– os jovens de hoje podem estar perdendo as experiências que os ajudarão a desenvolver empatia, compreender os nuances emocionais e ler as dicas sociais, como expressões faciais e linguagem corporal. Com as obsessões tecnológicas das crianças começando cada vez mais cedo –até mesmo crianças da pré-escola brincam lado a lado em laptops quando se encontram– seus cérebros podem acabar se adaptando e essas habilidades desaparecerão ainda mais, acreditam alguns pesquisadores.

Gary Small, um neurocientista e professor de psiquiatria da UCLA que é autor de “iBrain: Surviving the Technological Alteration of the Modern Mind”, acredita que os chamados “nativos digitais”, um termo para a geração que cresceu usando computadores, já têm maior dificuldade em ler os sinais sociais. “Apesar dos nativos digitais jovens serem muito bons em habilidades técnicas, eles são fracos em habilidade de contato humano face a face”, ele disse.

Outros que estudam amizades argumentam que a tecnologia está aproximando ainda mais as crianças. Elizabeth Hartley-Brewer, autora de um livro publicado no ano passado, chamado “Making Friends: A Guide to Understanding and Nurturing Your Child’s Friendships”, acredita que a tecnologia permite que elas permanecem conectadas aos seus amigos de forma ininterrupta. “Eu acho que é possível dizer que a mídia eletrônica está ajudando as crianças a permanecerem mais tempo em contato.”

E alguns pais concordam. Beth Cafferty, uma professor colegial de espanhol em Hasbrouck Heights, Nova Jersey, estima que sua filha de 15 anos envie centenas de textos por dia. “Eu acredito que eles estão mais próximos, porque permanecem em contato uns com os outros –qualquer coisa que me venha a mente, eu digo por texto imediatamente”, ela disse.

Mas Laura Shumaker, uma mãe de três filhos nos subúrbios da Área da Baía, notou recentemente que seu filho de 17 anos, John, “estava mantendo tanto contato com os amigos pelo Facebook que se tornou mais retraído e arisco em relação a contatos face a face”.

Recentemente, quando ele mencionou que era aniversário de um amigo, “eu disse, ‘ótimo, você vai telefonar para ele para desejar um feliz aniversário?’ Ele disse: ‘Não, eu só vou postar na página dele’” no Facebook, onde os amigos podem postar mensagens para que os outros vejam. Shumaker disse que desde então começou a encorajar seu filho a se envolver em mais atividades em grupo após a escola, e ficou satisfeita quando ele ingressou recentemente em um grupo de canto.

Para algumas crianças, a tecnologia é apenas uma facilitadora para uma vida social ativa. Em uma sexta-feira recente, Hannah Kliot, uma colegial de 15 anos em Manhattan, que tinha até então 1.150 amigos no Facebook, enviou um punhado de textos após a escola fazendo planos para encontrar alguns amigos posteriormente em uma festa. No dia seguinte, ela jogou duas partidas de softball, enviando textos nos intervalos sobre os planos de ir a um concerto no fim de semana seguinte.

Hannah diz que emprega as mensagens de texto para fazer planos e divulgar as coisas que considera engraçadas ou interessantes. Mas ela também as utiliza para conversar com os amigos que podem estar chateados com algo –e, nesses casos, em seguida ela opta por uma conversa real. “Eu certamente converso, mas eu acho que a nova forma de conversar com alguém é por vídeo chat, porque você pode ver as pessoas de fato”, ela disse. “De vez em quando eu falo ao telefone, mas isso é considerado, talvez, uma coisa meio antiga.”

A mãe de Hannah, Joana Vicente, que é conhecida por enviar mensagens de texto para seus filhos de sua cama, após as 23 horas, para dizer para eles se desconectarem, às vezes se surpreende com a forma como Hannah e seu irmão de 14 anos, Anton, se comunicam. “Às vezes eles participam de cinco conversas ao mesmo tempo” por meio de mensagens instantâneas, textos ou vídeo chats, ela disse. “Minha filha, com a velocidade da luz, passa de uma para outra. Eu penso: ‘Meu Deus, isso é uma conversa?’”

Alguns pesquisadores acreditam que a natureza impessoal das mensagens de texto e comunicações online pode facilitar para que crianças tímidas se conectem com outros. Robert Wilson é pai de Andy Wilson, o estudante de 11 anos de Atlanta que foi provocado de forma afável no Facebook. (Wilson citou o diálogo acima para ilustrar a natureza brincalhona e inócua da maioria das conversas de seu filho no Facebook.) Andy é bastante atlético e social, mas seu irmão, Evan, que tem 14 anos, é mais tímido e introvertido. Após ver Andy se conectar com tantas pessoas diferentes no Facebook, Wilson sugeriu que Evan criasse sua conta e experimentasse. Outro dia ele ficou satisfeito ao encontrar Evan conversando por meio do Facebook com uma garota de sua antiga escola.

“Eu acho que o Facebook, em grande parte, tem sido benéfico para meus filhos”, disse Wilson. “Para Evan, a principal razão é o fato de ajudá-lo a sair de sua concha e desenvolver habilidades sociais que ele não estava aprendendo, porque é tímido demais. Eu não poderia empurrá-lo para fora de casa e mandar encontrar alguém."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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