UOL Notícias Internacional
 

04/05/2010

Sunitas ficam frustrados com perda da força no Iraque

The New York Times
Tim Arango
Em Fallujah (Iraque)

O xeque Aiffan Saadoun al Aiffan atravessou um trecho queimado de terra cultivável, levantou sua espingarda e disparou uma vez. Um pássaro caiu no chão. 

“Atirando na Al Qaeda”, ele disse, explicando como aperfeiçoou sua mira, lutando ao lado das forças americanas. Mas aqueles tempos de contrainsurreição, quando líderes tribais como ele trocaram de lado no que passou a ser conhecido como Despertar Sunita, estão dando lugar a uma nova ordem política no Iraque. 

As recentes eleições parlamentares foram um duro golpe contra o Despertar, que é considerado não apenas um movimento para pacificar as áreas rebeldes, mas uma força política potencial para reempossar os sunitas. 

Isso não aconteceu. Nesta eleição, o Despertar não apresentou uma frente organizada, e com tamanha divisão e disputas, o sonho do poder político nacional morreu. Aiffan estava entre os líderes proeminentes do Despertar derrotados na eleição. 

Agora, sob ameaça dos insurgentes que antes combatiam e diante de um governo que eles dizem que não manteve sua promessa de arrumar emprego para os combatentes, o Despertar parece ser uma força em declínio, enquanto procura uma forma de se agarrar a qualquer vestígio de poder que pode. Alguns se perguntam se este é o início do fim do movimento. 

As ramificações poderiam ser sérias. A mais preocupante seria um aumento da violência, caso os combatentes do Despertar desencantados se tornassem insurgentes de novo. A aceitação ou não por Aiffan e outros da derrota eleitoral é uma dúvida que poderá determinar quão pacificamente o poder mudará de mãos aqui.

Enquanto diminui o papel dos Estados Unidos no Iraque, a dissolução do Despertar, um esforço de contrainsurreição que deu dinheiro e empregos para combatentes que estavam alinhados com os insurgentes, poderia ameaçar o legado que muitos consideram como talvez sendo o maior sucesso tático dos Estados Unidos nesta guerra. 

Nas semanas que se passaram desde a eleição de 7 de março, os combatentes enfrentaram uma série de assassinatos, incluindo o massacre de mais de duas dúzias de parentes de membros do Despertar, o que o governo disse ter sido uma retaliação por parte da Al Qaeda na Mesopotâmia, a força insurgente cujos dois principais líderes, um egípcio e um iraquiano, foram recentemente mortos. 

Em 20 de abril, homens armados invadiram a casa de um membro do Despertar em Tarmiya, ao norte de Bagdá, matando seus três filhos adolescentes, sua filha e sua esposa. 

Agora os líderes do Despertar estão começando a se perguntar a respeito do que deu errado em seu esforço por poder político, até mesmo se há conserto. 

Em uma reunião recente na casa em Bagdá do xeque Hamid al Hais, um líder tribal de Ramadi, a capital da província de Anbar, os líderes do Despertar expressaram sua frustração para um representante do governo, que no ano passado assumiu a responsabilidade pelos grupos locais que antes era das forças americanas. 

“Nós não recebemos o que merecíamos pelos nossos sacrifícios”, disse Abu Wahaj, um membro do Despertar de Bagdá. “No momento o governo me contratou como varredor de rua.” 

“Nós chamamos os americanos de ocupantes?” ele acrescentou. “Eles são mais honrados do que nosso povo.” 

O Despertar foi e continua sendo um empreendimento centrado nos sunitas. A desconfiança por parte do governo liderado pelos xiitas permanece, e mesmo quando os membros vão receber seus salários, eles dizem, eles são menosprezados como membros da Al Qaeda. Os temores são tão profundos que os homens hesitaram em aceitar uma oferta de encontro com um assessor do primeiro-ministro Nouri al Maliki, que está encarregado dos assuntos de reconciliação sectária. 

“Eu não posso ir lá, porque temo pela segurança do meu povo”, disse Wahaj. “Honestamente, eu não confio no governo.” 

A eleição também representou uma derrota para os xeques tribais associados ao Despertar, também conhecidos como Filhos do Iraque, nesta região onde ele começou e em Bagdá. 

Em vez de explorarem suas realizações como um partido unido, os membros do Despertar concorreram por conta própria. Com poucas exceções, eles também não apoiaram o ex-primeiro-ministro interino, Ayad Allawi, o xiita secular que surpreendentemente se tornou um porta-estandarte para os sunitas. Sua coalizão também conquistou o maior número de cadeiras na eleição. 

Foi uma derrota amarga para o Despertar. 

Al Maliki, que está tentando se manter no poder após uma eleição cujos resultados ainda estão sendo contestados, se encontrou recentemente com um grupo de líderes tribais em meio à crecente preocupação com um retorno da violência sectária. Em um discurso que foi transmitido pela televisão, ele disse: “Todos nós sabemos que este fenômeno abençoado começou em Anbar. Sempre que as forças patrióticas e as tribos combinam forças em nome da segurança nacional, a vitória ocorre”. 

O primeiro-ministro disse que traria mais membros dos Filhos do Iraque para o aparato de inteligência do país, apesar de ter reconhecido o atraso em oferecer aos homens posições permanentes no governo. “Eles sabem muito sobre células dormentes”, ele disse. “Esta é nossa única forma de colocar um fim à violência.” 

Em Anbar, alguns dizem que os ganhos de segurança já estão diminuindo. 

“As pessoas que se sacrificaram antes e que estavam realizando um bom trabalho, não receberam o que mereciam –um bom emprego no governo”, disse Aiffan, que acrescentou que alguns membros desiludidos renovaram seus laços com a Al Qaeda. 

O terreno acidentado desta parte da província de Anbar, local das maiores tragédias e sucessos dos Estados Unidos nesta guerra, exibe as cicatrizes de batalha. Um micro-ônibus perfurado de balas jazia em meio ao mato alto, ao lado de um canal de irrigação, enquanto Aiffan cuidava de seus patos e ovelhas. Mais soldados americanos morreram aqui do que em qualquer outra província do Iraque. 

Com a saída das tropas de combate americanas prevista para agosto, os sentimentos de ressentimento e abandono prevalecem entre os líderes tribais que já foram os maiores amigos dos americanos no Iraque. 

“Porque os Estados Unidos sabem muito bem que a última eleição foi uma fraude e agora há explosões em Bagdá, e os Estados Unidos estão quietos a respeito desses eventos”, disse Aiffan. “Eles não cumpriram suas promessas no Vietnã, na Alemanha ou no Iraque.” 

Quando os historiadores julgarem a guerra americana aqui, a decisão de aliança com o movimento Despertar provavelmente será considerada como uma das mais importantes. 

“Eu acho que não estaríamos onde estamos agora sem o que foi feito com os Filhos do Iraque e o Despertar”, disse o general Stephen R. Lanza. “Eu acho que teve um efeito chave, no qual todos os sunitas passaram a recuar e não abraçar mais a ideologia da Al Qaeda.” 

Mas há uma preocupação com tudo isso ser perdido e parte dos quase 90 mil membros do Despertar, ex-combatentes, escapar do controle do governo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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