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08/05/2010

Cientistas tentam mapear os caminhos da criatividade no cérebro humano

The New York Times
Patricia Cohen
  • Muitas áreas diferentes do cérebro estão envolvidas no ato de conceber de uma solução criativa

    Muitas áreas diferentes do cérebro estão envolvidas no ato de conceber de uma solução criativa

Pegue um cronômetro e ajuste para um minuto. Agora liste quantos usos criativos para um tijolo você puder imaginar. Vá.

A pergunta faz parte de um teste clássico para criatividade, uma qualidade que os cientistas estão tentando pela primeira vez rastrear no cérebro.

Eles esperam determinar precisamente que substâncias bioquímicas, impulsos elétricos e regiões foram utilizados quando, digamos, Picasso pintou “Guernica” ou Louise Nevelson criou suas esculturas de madeira. Usando tecnologia de imagem por ressonância magnética, pesquisadores estão monitorando o que se passa dentro do cérebro de uma pessoa quando ele ou ela realiza um trabalho criativo.

Mas as imagens dos sinais acendendo nos lóbulos frontais levaram os cientistas a reexaminarem a própria forma como a criatividade é medida em um laboratório.

“Criatividade é quase como pornografia –você sabe quando a vê”, disse Rex Jung, da Rede de Pesquisa da Mente da Universidade do Novo México, em Albuquerque. Jung disse que sua equipe estava realizando a primeira pesquisa sistemática da neurologia geral do processo criativo, incluindo seu relacionamento com a personalidade e com a inteligência.

Como muitos pesquisadores ao longo dos últimos 30 anos, Jung empregava uma definição comum de criatividade: a habilidade de combinar novidade e utilidade em um contexto social em particular.

Mas à medida que o estudo da criatividade expandiu para incluir a neurologia do cérebro, alguns cientistas passaram a questionar se esta definição padrão e os testes para ela ainda faziam sentido. John Kounios, um psicólogo da Universidade Drexel, argumenta que o padrão “perdeu sua validade”.

“Criatividade é um conceito complexo; não é uma coisa só”, ele disse, acrescentando que os pesquisadores do cérebro precisavam decompor um processo muito complicado em seus componentes. Kounios, que estuda a base neural da intuição, define criatividade como a habilidade de reestruturar o entendimento de uma situação de uma forma não óbvia.

Todo mundo concorda que não existe uma medida única de criatividade. Apesar dos testes de QI, que são controversos, ainda serem considerados um teste confiável de pelo menos certo tipo de inteligência, não há um equivalente para criatividade –nenhum quociente de criatividade, ou QC.

O laboratório de Jung utilizada uma combinação de medidas para servir como substituta para a criatividade. Um é o Questionário de Realização em Criatividade, que pede às pessoas que relatem sua própria aptidão em 10 campos, incluindo artes visuais, música, redação criativa, arquitetura, humor e descoberta científica.

Outro é um teste para “pensamento divergente”, uma medida clássica desenvolvida pelo psicólogo pioneiro J.P. Guilford. Aqui é pedido a uma pessoa que apresente funções “novas e úteis” para um objeto familiar, como um tijolo, um lápis ou uma folha de papel.

A equipe de Jung também apresenta situações estranhas aos sujeitos. Imagine quais seriam as implicações das pessoas poderem mudar instantaneamente de sexo, ou das nuvens terem cordas?

Em outra avaliação, é pedido ao sujeito que desenhe o sabor do chocolate ou escreva uma legenda para um cartum humorístico, como no concurso semanal da revista “The New Yorker”. “O humor é uma parte importante da criatividade”, disse Jung.

As respostas são usadas para gerar o que Jung chama de “Índice Composto de Criatividade”.

Os testes de Jung são baseados naqueles criados por Robert J. Sternberg, um dos proeminentes pesquisadores de inteligência do país e o homem parcialmente responsável pela definição padrão. Sternberg utiliza testes semelhantes na Universidade Tufts, onde ele investiga como as pessoas desenvolvem e dominam habilidades. Ele explicou que sua equipe pediu a sujeitos que pensassem no que teria acontecido se, digamos, Rosa Parks tivesse cedido seu assento para uma mulher branca quando aquele motorista de ônibus de Birmingham lhe disse para ir se sentar no fundo, ou se Hitler tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Ele também poderia apresentar uma manchete imaginária, tipo “O Fim da MTV”.

Quanto a Jung, sua pesquisa produziu alguns resultados surpreendentes. Um estudo envolvendo 65 pessoas sugere que a criatividade prefere adotar um caminho mais lento e cheio de voltas do que a inteligência.

“O cérebro parece ser uma superestrada eficiente para levar você do Ponto A ao Ponto B” quando se trata de inteligência, explicou Jung. “Mas nas regiões do cérebro relacionadas à criatividade, parece haver muitas estradas secundárias com desvios interessantes, além de pequenos atalhos sinuosos.”

Apesar de inteligência e habilidade geralmente estarem associados à ativação rápida e eficiente de neurônios, os sujeitos que apresentaram mais criatividade nos testes tinham matéria branca mais fina e axônios de conexão que têm o efeito de desacelerar o tráfego nervoso no cérebro. Esta desaceleração no córtex frontal esquerdo, uma região onde as habilidades emocionais e cognitivas estão integradas, sugeriu Jung, “pode permitir a associação de ideias mais díspares, mais novidade e mais criatividade”.

Kounios disse que Jung está realizando um trabalho original e interessante, mas disse que tentar encontrar uma correlação entre criatividade e uma área única do cérebro é uma “abordagem à moda antiga”.

“A criatividade é uma coleção de processos diferentes que trabalham em diferentes áreas do cérebro”, disse Kounios, de forma que o ato criativo deve ser desmontado em pedaços minúsculos. Ele também rejeita a utilidade como parte da definição, argumentando que pode haver fracassos brilhantes e criativos –o que ele chama de erros por pouco.

No ano passado, ele e Mark Beeman, um psicólogo da Universidade do Noroeste, publicaram um artigo sobre o que ele chama de “momento Ahá!”, a intuição repentina que resolve um problema, reinterpreta uma situação ou explica uma piada. Em seu teste, eles usaram simples quebra-cabeças de palavras que poderiam ser resolvidos tanto com uma intuição criativa instantânea quanto por uma análise rápida.

Cerca da metade dos sujeitos chegava a uma solução pensando metodicamente nas possibilidades, enquanto na outra metade a resposta surgia em suas mentes.

Muitas áreas diferentes do cérebro estão envolvidas no conceber de uma solução, independente de qual processo seja usado, mas durante o momento Ahá!, há uma explosão de atividade de alta frequência no lóbulo temporal direito, disse Kounios. Além disso, ele disse, ele e Beeman não puderam prever com antecedência que processos o sujeito usaria. Eles observaram os cérebros dos solucionadores sistemáticos do problema se prepararem ao prestarem atenção atenta à tela antes das palavras aparecerem. Seus córtices visuais estavam em alto alerta.

Os cérebros daqueles que tiveram um lampejo de intuição criativa, por sua vez, se preparam automaticamente desativando a atividade no córtex visual por um instante –o equivalente a fechar seus olhos para afastar distrações, para que você possa se concentrar melhor. Neste caso, Kounios disse que o cérebro estava “eliminando a entrada de outros dados sensoriais e ampliando a razão entre sinal e ruído”, para obter a resposta do subconsciente.

Segundo Kenneth Heilman, um neurologista da Universidade da Flórida e autor de “Creativity and the Brain” (2005), a criatividade não apenas envolve chegar a algo novo, mas também desativar a resposta habitual do cérebro, ou o abandono das soluções convencionais.

O comportamento de risco ou viciante também deve ser medido, já que ambas as características têm um papel na criatividade, ele disse.

Pode haver, por exemplo, uma redução da norepinefrina, o neurotransmissor que dispara o alarme lute ou fuja. Este é o motivo para as conexões criativas frequentemente ocorrerem quando as pessoas estão mais pacíficas –relaxadas sob uma árvore, como Isaac Newton, ou em um estado de sonho, como Coleridge quando criou “Kubla Khan”.

John Gabrieli, um professor de neurociência cognitiva no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, alerta que há sempre uma distância entre o que acontece no laboratório e no mundo real: “Parece que ser criativo é algo para o qual ainda não temos um teste”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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