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14/05/2010

Ambientalistas lançam dúvidas sobre o volume de petróleo que vaza no Golfo do México

The New York Times
Justin Gillis
  • Material químico laranja pode ser visto no Golfo do México, uma das maneiras usadas para combater a mancha de petróleo

    Material químico laranja pode ser visto no Golfo do México, uma das maneiras usadas para combater a mancha de petróleo

Há duas semanas, o governo apresentou uma estimativa arredondada do tamanho de vazamento de petróleo no Golfo do México: 5 mil barris por dia. Repetido incessantemente pelo noticiário, ela se tornou um dado aceito. 

Mas cientistas e grupos ambientais estão questionando seriamente a estimativa, declarando que o vazamento deve ser bem maior. Eles também criticaram a BP por se recusar a usar técnicas científicas reconhecidas que apresentariam números mais precisos. 

As críticas aumentaram na quinta-feira, um dia após a divulgação de um vídeo mostrando uma imensa coluna preta de petróleo jorrando do poço quebrado em uma taxa aparentemente alta. A BP alegou repetidamente que medir o jorro seria impossível. 

O número de 5 mil barris por dia foi produzido às pressas pelos cientistas do governo em Seattle. Ele parece ter sido calculado usando um método que é especificamente não recomendado para grandes vazamentos de petróleo. 

Ian R. MacDonald, um oceanógrafo da Universidade Estadual da Flórida que é especialista na análise de manchas de óleo, disse que fez seus próprios cálculos brutos usando imagens por satélite. Eles sugeriram que o vazamento poderia “facilmente ser quatro ou cinco vezes” maior do que a estimativa do governo, ele disse.

“O governo tem a responsabilidade de apresentar bons números”, disse MacDonald. “Se isso estiver além de sua capacidade técnica, o mundo todo está pronto para ajudar.” 

Os cientistas disseram que o tamanho do vazamento está diretamente relacionado ao tamanho dos danos no oceano e no litoral, de forma que seu cálculo preciso é importante por esse motivo. 

A BP disse repetidamente que sua maior prioridade é interromper o vazamento, não medi-lo. “Não há como medi-lo”, disse Kent Wells, um vice-presidente sênior da BP, em um briefing recente. 

Mas por décadas, especialistas têm utilizado uma técnica que é quase sob medida para o problema. Com equipamento submarino que lembra os aparelhos de ultrassom nos consultórios médicos, eles medem o taxa de vazão de água quente das chaminés no fundo do oceano. Os cientistas dizem que esse equipamento poderia ser ajustado para permitir uma medição precisa do petróleo e gás que estão jorrando do poço. 

Richard Camilli e Andy Bowen, do Instituto Oceanográfico Woods Hole em Massachusetts, que realizam rotineiramente essas medições, conversaram extensamente com a BP na semana passada, disse Bowen. Eles voariam para o golfo para conduzir as medições de volume. 

Mas eles foram contatados no final da semana passada e instruídos a não ir, por volta do mesmo tempo em que a BP decidiu baixar uma grande contenção de metal para tentar capturar o vazamento. Essa manobra fracassou. Eles não foram convidados de novo. 

“O governo e a BP estão no comando, logo eu tenho que respeitar seu julgamento”, disse Camilli. 

A BP não respondeu na quinta-feira à pergunta sobre o motivo de Camilli e Bowen terem sido instruídos a não irem. Falando de modo geral sobre a política da empresa para medição do vazamento, um porta-voz, David Nicholas, disse que “a estimativa da vazão não afeta nem a direção e nem a escala de nossa resposta, que é a maior na história”. 

MacDonald e outros cientistas disseram que a agência do governo que monitora os oceanos, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), tem sido lenta em montar o esforço de pesquisa necessário para analisar o vazamento e avaliar seus efeitos. Sylvia Earle, uma ex-cientista chefe da NOAA e talvez a oceanógrafa mais conhecida do país, disse que ela também está preocupada com o ritmo da resposta científica. 

Mas Jane Lubchenco, a administradora da NOAA, disse em uma entrevista na quinta-feira: “Nossa resposta foi instantânea e sustentada. Nós gostaríamos de dispor de mais ativos. Nós gostaríamos de fazer mais. Nós estamos fazendo tudo o que podemos fisicamente”. 

A questão de quão rápido o poço está vazando é obscura desde o início. Por vários dias após a explosão da plataforma de petróleo Deepwater Horizon em 21 de abril, o governo e a BP alegavam que o poço no leito do oceano estava vazando cerca de 1.000 barris por dia. 

Uma pequena organização chamada SkyTruth, que usa imagens por satélite para monitorar problemas ambientais, publicou uma estimativa em 27 de abril, sugerindo que a vazão era de pelo menos 5 mil barris por dia e provavelmente várias vezes mais do que isso. 

No dia seguinte, o governo –apesar das objeções públicas da BP– elevou sua estimativa para 5 mil barris por dia. Um barril tem 159 litros, de forma que estimativa representa 795 mil litros por dia. 

A BP posteriormente reconheceu para o Congresso que no pior caso, se o vazamento acelerasse, seria de 60 mil barris por dia, uma vazão que despejaria uma mancha do tamanho do vazamento do Exxon Valdez no golfo a cada quatro dias. O presidente-executivo da BP, Tony Hayward, estimou que o reservatório acessado pelo poço fora de controle contém pelo menos 50 milhões de barris de petróleo. 

A estimativa de 5 mil barris por dia foi produzida em Seattle por uma unidade da NOAA que responde a vazamentos de petróleo. Ela foi calculada com um protocolo conhecido como convenção de Bonn, que pede a medição da extensão da mancha de petróleo, usando sua cor para avaliar a espessura do petróleo sobre a água, e então multiplicando. 

Mas Alun Lewis, um consultor britânico de vazamento de petróleo e que é uma autoridade na convenção de Bonn, disse que o método é especificamente não recomendado para análise de grandes vazamentos como o do Golfo do México, já que a espessura é difícil demais de avaliar neste caso. 

Mesmo quando utilizado em vazamentos menores, ele disse, a aplicação correta da técnica nunca produziria uma estimativa de único ponto, como o número de 5 mil barris por dia do governo, mas sim um intervalo que seria bem amplo. 

A NOAA se recusou a fornecer informação detalhada sobre a matemática por trás da estimativa, nem respondeu às dúvidas levantadas por Lewis. 

Lewis citou um vídeo do duto de petróleo jorrando que foi divulgado na quarta-feira. Ele notou que a estimativa do governo equivaleria a uma vazão de aproximadamente 552 litros por minuto. (Uma mangueira de jardim tem vazão de aproximadamente 38 litros por minuto. 

“Qualquer um olhando para aquele vídeo provavelmente chegaria à conclusão de que provavelmente é mais”, disse Lewis. 

O governo não fez nenhuma tentativa de atualizar sua estimativa desde sua divulgação em 28 de abril. 

“Eu acho que a estimativa era e continua sendo razoável”, disse Lubchenco, a administradora da NOAA. “Dispor de uma maior precisão da vazão não ajudaria em nada. Nós estaríamos fazendo as mesmas coisas.” 

Mas grupos ambientais argumentam que a taxa de vazão é uma questão vital. Como este acidente acabou com a ilusão de que a exploração de petróleo em águas profundas é imune a vazamentos, eles disseram, este provavelmente se tornará um referencial no planejamento de uma futura resposta. 

“Se estamos subestimando sistematicamente a taxa do vazamento e projetarmos uma capacidade de resposta com base nesta estimativa errada, então na próxima vez que ocorrer um evento desta magnitude, nós estaremos condenados a fracassar de novo”, disse John Amos, o presidente da SkyTruth. “Então é realmente importante obtermos o número correto.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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