UOL Notícias Internacional
 

15/05/2010

O longo caminho de um suspeito até o atentado no Times Square

The New York Times
Andrea Elliott
  • Faisal Shahzad, 30, foi preso tentando embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes, dois dias depois da tentativa de atentado

    Faisal Shahzad, 30, foi preso tentando embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes, dois dias depois da tentativa de atentado

Pouco depois da meia-noite de 25 de fevereiro de 2006, Faisal Shahzad enviou uma longa mensagem de e-mail para um grupo de amigos. Os problemas dos muçulmanos pesavam sobre ele – as guerras no Iraque e Afeganistão, o dilema dos palestinos, a publicação de charges criticando o profeta Maomé na Dinamarca.

Shahzad não sabia como responder a isso. Ele compreendia que o Islã proíbe a morte de inocentes, escreveu. Mas, para aqueles que insistem apenas no “protesto pacífico”, ele deixava uma questão: “Vocês podem me dizer como salvar os oprimidos? E como lutar contra os foguetes lançados sobre nós e contra a matança de muçulmanos?”

“Todos sabem como o país muçulmano se curva à pressão do ocidente. Todos sabem o tipo de humilhação que enfrentamos no mundo inteiro.”

Mas em certa medida, Shahzad – um imigrante paquistanês que tinha então 26 anos de idade – parecia estar indo bem no ocidente. Ele trabalhava como analista financeiro na empresa de cosméticos Elizabeth Arden. Ele havia acabado de receber seu “green card”, transformando-se num residente legal dos EUA. Ele tinha uma casa nova em Shelton, Connecticut. Sua mulher paquistanesa-norte-americana logo ficaria grávida de seu primeiro filho.

 


Quatro anos depois, Shahzad foi acusado de colocar um carro bomba no Times Square numa agradável noite de primavera. Depois de sua prisão dois dias mais tarde, em 3 de maio, enquanto tentava fugir para Dubai, os poucos detalhes que vieram a tona sobre sua vida revelaram uma história bastante comum sobre a radicalização no ocidente: sua raiva contra o país que adotou para viver parece ter crescido junto com suas dificuldades pessoais. Ele havia perdido sua casa no ano anterior, ao mesmo tempo que mostrava sinais de uma profunda alienação infundida pela religião.

Mas as raízes da militância de Shahzad parecem ter surgido muito antes, de acordo com entrevistas com seus parentes, amigos, colegas de classe e do trabalho, vizinhos, oficiais do governo e também mensagens de e-mail escritas por Shahzad e obtidas pelo The New York Times. Sua briga com a política estrangeira norte-americana cresceu depois do 11 de setembro, embora desfrutasse da cultura expansiva e promissora dos EUA. Ele equilibrava essas emoções conflitantes com uma agilidade comum entre seus amigos imigrantes paquistaneses.

À medida que Shahzad se tornou mais religioso, o que começou por volta de 2006, ele também passou a rejeitar o Paquistão de sua juventude, lembram seus amigos, distanciando-se do mundo liberal e elitizado de seu pai, Bahar ul-Haq, um vice-marechal aposentado da Força Aérea paquistanesa.

E embora tivesse dificuldades para pagar suas contas nos últimos anos, não está claro se seus problemas financeiros tiveram um papel significativo em sua radicalização. Ele ainda tinha sua casa e um emprego de tempo integral quando começou a dizer para seus amigos que queria ir embora dos Estados Unidos.

Em abril de 2009, mesmo mês em que Shahzad recebeu a cidadania norte-americana, ele enviou a seus amigos uma mensagem de e-mail que revelava sua militância ideológica. Ele criticava as visões de um político paquistanês moderado, escrevendo: “Aposto que no que diz respeito a defender as terras, a opinião dele seria a de que nós devemos usar o diálogo”. O político havia “adotado o jargão ocidental”, chamando os mujahedeen, ou guerrilheiros estrangeiros, de “extremistas”, escreveu Shahzad, e pediu que os destinatários da mensagem encontrassem “um xeque de verdade para entender o Alcorão”.

Um dos destinatários perguntou a Shahzad quais eram os xeques que ele seguia.

Escrevendo em urdu, Shahzad respondeu: “Meus xeiques estão no campo de batalha”. Alguns meses depois, ele abandonou seu emprego e foi para o Paquistão, onde, segundo autoridades, foi treinado na confecção de bombas pelo Talebã paquistanês.

Mas qual foi a combinação exata de influências – políticas, religiosas e pessoais – que levaram Shahzad à violência continua sendo um mistério, mesmo para as pessoas mais próximas.

“Todos nós sabemos essas coisas, quais são os problemas geopolíticos”, disse o sogro de Shahzad, M.A. Mian, 55. “Todos os dias sentamos em nossas salas de estar com nossos amigos e discutimos esses assuntos.”

“Mas chegar a esse extremo, isso é inacreditável”, disse ele, acrescentando: “ele tem filhos lindos. Duas crianças muito bonitas. Como pai eu não seria capaz de perder meus filhos.”

Criação militar

Faisal Shahzad cresceu de certa forma sem raízes. Ele tinha orgulho de sua herança pashtun, embora soubesse muito pouco sobre o vilarejo de seu pai, Mohib Banda, um conjunto de casas de barro cercadas por plantações de trigo e cana-de-açúcar no noroeste do Paquistão. O pai de Shahzad, Haq, entrou na Força Aérea do Paquistão como um cadete comum e cresceu na hierarquia até se tornar um piloto de guerra que se destacava nas acrobacias, tendo servido na Inglaterra e na Arábia Saudita.

Como filho de um oficial militar sênior, Shahzad foi cercado de privilégios, dispondo de motoristas, empregados e guardas armados, num mundo ilhado composto quase que exclusivamente por famílias de militares. O lar de Shahzad era uma mistura de valores rígidos e liberais; Haq, que falava inglês com sotaque britânico e bebia álcool socialmente, era severo e irritadiço com seus filhos, lembram-se amigos e ex-colegas.

Quando Shahzad entrou no colegial em meados dos anos 90, sua família havia se estabelecido em Karachi, uma cidade grande e movimentada no sul do país. Naquela época, o Paquistão havia mergulhado no caos. À medida que a instabilidade política e violência sectária tomavam conta do país, muitos paquistaneses culpavam os Estados Unidos. Depois de apoiar o ditador militar paquistanês, general Mohammad Zia ul-Haq, nos anos 80, o governo norte-americano impôs pesadas sanções em retaliação ao programa nuclear paquistanês. A economia estagnou e o antiamericanismo se espalhou.

Shahzad tornou-se maior de idade na época em que o Estado paquistanês apoiou a jihad contra o exército da Índia na região de Kashmir – um conflito que garantiu a fama aos jihadistas paquistaneses.

Não está claro se esses acontecimentos foram importantes para a formação de Shahzad. Sua escola, localizada numa base militar, ensinava o mesmo currículo rígido – com um viés xenofóbico e estudos islâmicos obrigatórios – impostos ao país inteiro por Zia.

Depois de se formar, Shahzad se inscreveu na Universidade Greenwich, uma escola de administração em Karachi conhecida por atrair alunos ricos porém fracos nos estudos, que dirigem carros elegantes e gostam de fazer festa. Mas o que lhe faltava em habilidade acadêmica, sobrava em ambição, lembram-se seus amigos; ele estava determinado a concluir sua formação nos Estados Unidos. Valendo-se de uma parceria entre sua escola e a Universidade de Bridgeport, em Connecticut, Shahzad pediu um visto de estudante.

Em 16 de janeiro de 1999, com 19 anos, Shahzad deixou o Paquistão para começar uma nova vida nos EUA.

Atraído pelo sucesso

As ruas largas e sombreadas que levam à Universidade de Bridgeport parecem muito distantes de Karachi. O campus tranquilo e bem cuidado fica de frente para um trecho pacato de Long Island Sound, onde balsas passam à distância.

Quando Shahzad começou a frequentar as aulas em janeiro de 1999, mais de um terço dos alunos da escola eram estrangeiros – 15 deles do Paquistão. Shahzad se destacou. Ele tinha um ar de quem veio de uma família privilegiada, parecia distante e, às vezes, esnobe.

Enquanto os estudantes paquistaneses costumavam ficar juntos a maior parte do tempo, jogando críquete e coletando refeições gratuitas na mesquita do campus, Shahzad tinha um círculo mais amplo de amigos e um calendário social mais concorrido. Ele adorava mulheres, lembra-se um ex-colega de classe, e bebia bastante, sem dar vexame. “Ele não mostrava muito interesse pelo Islã.”

Embora Shahzad parecesse disposto a construir uma vida nos EUA, sua raiva contra o país surgiu cedo. Um amigo se lembra de entrar no apartamento de Shahzad poucos dias depois dos ataques terroristas de 11 de setembro e encontrá-lo olhando fixamente para uma gravação que mostrava os aviões atingindo as torres gêmeas.

“Eles mereceram”, disse Shahzad de acordo com um amigo paquistanês-norte-americano. Segundo esse amigo, Shahzad dizia que os países ocidentais haviam conspirado para maltratar os muçulmanos. “Ele simplesmente perdia as estribeiras”, disse o amigo, acrescentando que não dava muita importância para as explosões de Shahzad, considerando-as um resultado de seu intenso orgulho pashtun.

No final de 2001, Shahzad parecia concentrado em seu futuro nos EUA. Tendo se formado em sistemas de informação e programas para computadores na Universidade de Bridgeport, ele trabalhava na Elizabeth Arden em Stambord. No ano seguinte, Shahzad começou a fazer um curso noturno na escola de administração da Universidade de Bridgeport.

Em julho de 2004, Shahzad comprou um sobrado cinza em Shelton, um bairro tranquilo cheio de jardins floridos e casas antigas esparsas. Ele estava se preparando para casar. Seus pais concordaram com uma noiva adequada: Huma Mian, de 23 anos, de Boulder, Colorado, que havia se formado recentemente em contabilidade, e cujo pai paquistanês era um importante economista e engenheiro da indústria do petróleo.

Em 25 de dezembro de 2004, eles fizeram um casamento suntuoso em Peshawar, a terra da família de Shahzad.

Os dias de solteiro de Shahzad haviam ficado para trás, lembra-se o antigo colega de classe. Ele estava pronto para assentar.

 


Nova religiosidade

Dois anos depois, quando Shahzad escreveu a mensagem de e-mail dizendo a seus amigos que os muçulmanos deveriam se defender das “forças estrangeiras infiéis”, ele parecia levar uma vida suburbana estável. Naquele mês de junho, ele foi contratado como analista para o Affinion Group, uma empresa de marketing financeiro em Norwalk, e disse a um amigo que seu salário anual havia subido para US$ 70 mil. Dois meses depois, ele havia terminado seu mestrado em administração. Sua mulher engravidou.

A única coisa que parecia diferente para os amigos e a família de Shahzad era sua nova religiosidade. Ele não bebia mais, rezava cinco vezes por dia, parava em mesquitas em Stamford, Norwalk e Bridgeport. Alguns de seus amigos não ficaram surpresos; muitos imigrantes paquistaneses passam por fases em que se dedicam mais à vida espiritual. O que o diferenciava, entretanto, não era sua devoção ao Islã, mas o viés religioso pelo qual ele havia começado a interpretar os acontecimentos do mundo, disseram seus amigos.

Sua mensagem de e-mail de 2006 deixavam transparecer alguns argumentos encontrados nos fóruns de militantes na internet: que o ocidente está em guerra contra o Islã, e os muçulmanos estão sendo humilhados porque se desviaram de seu dever religioso de revidar.

Nas visitas à família, Shahzad começou a entrar em choque com seu pai.

Haq conhecia o Islã político há muito tempo, e achava problemática a evolução do filho, lembraram amigos em entrevistas. A preocupação teve consequências conflitantes.

No final de 2008, Shahzad parecia oscilar entre o contentamento e a frustração. Ele mimava seus dois filhos pequenos, até mesmo trocando as fraldas, para surpresa de seus parentes mais machistas. Mas sentia que os muçulmanos norte-americanos passaram a ser tratados de forma diferente depois do 11 de setembro, disse um colega de classe.

Em 2008, Shahzad deu uma indicação clara de que estava se tornando um militante. Durante uma visita ao Paquistão, ele pediu a permissão de seu pai para lutar no Afeganistão, lembram-se amigos do pai e um parente. Haq negou o pedido e fez um apelo a seus amigos para ajudarem-no a lidar com o filho, disseram.

No ano seguinte aconteceu uma virada. De volta a Connecticut, Shahzad disse ao amigo de origem paquistanesa que estava pronto para deixar os Estados Unidos. Ele achava estressante pagar a hipoteca de sua casa com apenas um salário, embora tivesse proibido sua mulher de trabalhar, disse o Dr. Saud Anwar, médico de Connecticut que tem alguns amigos em comum com Shahzad.

Era mais o orgulho do que a falta de opções que parecia incomodar Shahzad, que, assim como sua mulher, vinha de uma família abastada. Em abril, quando Shahzad se tornou um cidadão norte-americano, começou a falar em procurar emprego no Oriente Médio para que ele e sua mulher pudessem viver entre muçulmanos, lembra o colega de classe.

Foi naquele mesmo mês que ele mandou a mensagem de e-mail para seus amigos dizendo que seus “xeques estavam no campo de batalha”. (Anwar forneceu trechos desse e-mail, que ele obteve com um amigo de Shahzad, para o Times e o FBI.)

Volta ao Paquistão

Durante os meses seguintes, o casamento de Shahzad parecia estar com problemas; Shahzad estava pressionando sua mulher para usar o hijab [véu], disse Anwar. Ele também insistia que a família voltasse ao Paquistão enquanto ele procuraria um emprego no Oriente Médio; sua mulher queria que ele encontrasse um emprego antes de eles se mudarem, lembra um parente próximo.

Em 2 de junho, Shahzad ligou para sua mulher do Aeroporto Kennedy. Ele disse que estava indo para o Paquistão, e que ela deveria escolher se queria segui-lo, disse o parente. Mian se recusou. No final daquele mês, ela fez as malas e se mudou com os filhos para Dhahran, na Arábia Saudita, onde viviam seus pais.

Durante os meses seguintes, Shahzad ficou com seus pais em Peshawar. Ele parou de pagar a hipoteca e o banco tomou sua casa em Connecticut em setembro.

Em dezembro, ele saiu da casa dos pais dizendo que voltaria em alguns dias, lembra o parente. Ele nunca voltou.

Naquele momento, de acordo com investigadores do FBI, Shahzad havia se colocado em curso para atacar o Times Square.

Quando ele voltou aos Estados Unidos em 3 de fevereiro, alugou um pequeno apartamento. Seus movimentos durante os meses seguintes permanecem em grande parte um mistério.

Na semana passada, seu senhorio, Stanislaw Chomiak, andou pelo apartamento de Shahzad, mostrando o quarto em que ele estava montando uma réplica de uma mesquita em madeira. Ele olhou em volta, como que buscando por pistas. Shahzad tinha sido simpático, agradável – um inquilino perfeito. Ele havia até mesmo coberto as bocas do fogão com alumínio para não sujá-lo.

“É difícil encontrar um cara como esse!”, disse o senhorio. “Um cara legal e veja só o que acontece.”

Tradução: Eloise De Vylder

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