UOL Notícias Internacional
 

18/05/2010

Novo acordo com o Irã complica negociação de sanções na ONU

The New York Times
Michael Slackman*
No Cairo (Egito)

O Irã anunciou na segunda-feira (17) um acordo para envio de parte de seu combustível nuclear para a Turquia, em um acordo que poderia oferecer uma solução a curto prazo para seu impasse nuclear com o Ocidente, ou provar ser uma tática visando minar os esforços para imposição de novas sanções contra Teerã.

O acordo, negociado pela Turquia e pelo Brasil, pede ao Irã que envie 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido para a Turquia, onde ele seria armazenado. Em troca, após um ano, o Irã teria o direito de receber 240 quilos de material enriquecido a 20% da Rússia e da França.

Os termos são semelhantes ao acordo com o Ocidente de outubro passado, que fracassou quando o Irã voltou atrás. Mas está longe de claro se o governo Obama o aceitará agora –em parte porque o Irã continuou enriquecendo urânio, aumentando seus estoques.

Em outubro, os 1.200 quilos que o Irã supostamente deveria enviar para fora do país representavam aproximadamente dois terços de seu estoque de combustível nuclear –o suficiente para assegurar que não teria material nuclear suficiente para produzir uma arma.

Mas agora, a mesma quantidade representa uma proporção menor de seu estoque declarado.

Segundo um diplomata ocidental que falou sob a condição de anonimato, por não estar autorizado a falar com os repórteres sobre o assunto, acredita-se que a quantidade de urânio pouco enriquecido que o Irã está disposto a enviar para a Turquia represente pouco mais da metade de seu estoque atual.

“A situação mudou”, disse o diplomata.

O acordo poderia minar as chances do governo Obama de conseguir uma aprovação internacional para medidas punitivas contra o Irã. China e Rússia, que estavam altamente relutantes em impor sanções contra um grande parceiro comercial, poderiam usar o anúncio para colocar um fim às discussões sobre medidas adicionais, como uma quarta rodada de sanções.

Washington está buscando sanções adicionais porque o Irã se recusou a suspender o enriquecimento de urânio ou a responder as dúvidas dos inspetores internacionais sobre as evidências que sugerem a pesquisa de possíveis desenhos de armas e experiências semelhantes. Os inspetores também foram impedidos de visitar muitos locais que pediram para examinar.

O presidente Barack Obama agora enfrenta uma opção complicada. Se rejeitar este acordo, pareceria que ele está rejeitando um acordo semelhante ao que estava disposto a assinar oito meses atrás. Mas se ele o aceitar, muitas das questões urgentes que ele disse que estariam resolvidas com o Irã nos próximos meses –principalmente a suspeita do trabalho em armas– ficariam adiadas por um ano ou mais. Muitas autoridades americanas acreditam que o Irã é a meta mais urgente. 

As autoridades iranianas, entretanto, aplaudiram o acordo como um avanço. Elas disseram pela televisão estatal que o próximo passo seria acertar os termos para a troca com o chamado Grupo de Viena –a descrição pelo Irã de um grupo informal composto pelos Estados Unidos, França, Rússia e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a agência da ONU de fiscalização nuclear com sede em Viena.

As autoridades iranianas disseram que enviariam uma carta formal para a AIEA, em uma semana, confirmando o acordo.

“Isto mostra que o Irã não está buscando armas nucleares e sim tecnologia nuclear pacífica”, disse Ramin Mehmanparast, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, em uma coletiva de imprensa televisionada na segunda-feira. “Essas interações devem substituir a abordagem de confronto.”

Diplomatas em Viena disseram que a AIEA não foi formalmente notificada sobre o acordo noticiado. Mas o fato de Teerã ter aceito uma troca fora de seu próprio território é potencialmente significativa.

O anúncio, que parece voltado a atender às exigências internacionais, ocorre no momento em que o Irã enfrenta crescentes pressões políticas e econômicas internas.

Apesar do acordo ter sido considerado um passo positivo pelos especialistas regionais, também há ceticismo sobre se seria real ou uma tática para transferir a culpa pelo conflito ao Ocidente, minando ao mesmo tempo a perspectiva do Conselho de Segurança da ONU de impor novas sanções, o que parecia possível nas próximas semanas.

“O Irã tem uma história de fechar acordos e então voltar atrás”, disse Emad Gad, um especialista em relações internacionais do Centro Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos, no Cairo. “Ele deixa a situação ficar realmente tensa e então chega a um acordo. Esta é uma característica genuína da natureza da política iraniana.”

Coincidindo com a pressão por novas sanções, em 12 de junho será o aniversário da contestada eleição presidencial do Irã do ano passado, que levou a meses de protestos e conflito. O Irã também está enfrentando sérias pressões econômicas de inflação, perda de investimento estrangeiro e a perspectiva de suspensão dos subsídios aos commodities, o que significaria preços mais altos e, talvez, tensões sociais renovadas.

“Com acordos como este ou anúncios como este, é preciso se manter um pouco cético, ao menos inicialmente, porque muitos no passado provaram ser uma oportunidade virtual em vez de uma mais substancial”, disse Michael Axworthy, o ex-diplomata britânico e especialista em Irã que leciona na Universidade de Exeter.

Parece haver motivos para ceticismo. Em Teerã, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores disse para uma pessoa presente na coletiva de imprensa que, por exemplo, o Irã não suspenderia seu programa para enriquecer urânio a 20% –o que o deixa mais próximo de material para armas.

O Irã diz que seu programa nuclear é pacífico, enquanto o Ocidente o acusa de visar a produção de armas. Essas acusações foram amplificadas com o aperfeiçoamento e testes por parte do Irã de sua capacidade de mísseis de longo alcance.

Os termos deste acordo parecem semelhantes aos termos gerais do acordo negociado em Genebra no ano passado. Aquele acordo fracassou quando o Irã pareceu recuar de seu compromisso de enviar seu combustível para um terceiro país.

O Irã insistiu inicialmente que qualquer troca fosse conduzida em seu território, uma exigência rejeitada pelo Ocidente. O envio de grande parte de seu combustível para fora do Irã adiaria pelo menos por algum tempo sua capacidade de produção de uma arma nuclear, período durante o qual mais negociações a longo prazo poderiam ocorrer.

O acordo de Genebra também pedia pelo envio de 1.200 quilos de urânio enriquecido a 3,5% para a Rússia, onde ele seria mais enriquecido, a 20%, e então enviado a Paris, onde seria convertido em barras de combustível para o reator médico do Irã. Na época ele foi considerado aceitável em Washington, porque representava o que acreditava ser grande parte do estoque iraniano.

O acordo de Genebra fracassou devido a uma intensa pressão política no Irã, quando quase todas as facções políticas o criticaram como significando que o Irã estava abrindo mão de seu direito à energia nuclear. A equipe de negociação do Irã argumentou da última vez –e novamente na segunda-feira– que o acordo é do interesse do Irã, porque confirma na prática o direito do Irã de enriquecer urânio.

“Com o apoio do Irã, foi emitida hoje uma declaração que reconheceu oficialmente o direito do Irã ao uso pacífico da energia nuclear, especialmente o enriquecimento de urânio”, disse Ali-Akbar Salehi, chefe da Organização de Energia Nuclear do Irã, na televisão estatal.

Os termos do acordo foram acertados em uma encontro de cúpula envolvendo o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad; o ministro das Relações Exteriores, Manouchehr Mottaki; Saeed Jalili, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã; o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, informou a agência de notícias estatal “IRNA”.

Se bem-sucedido, o acordo confirmaria a contínua ascensão da Turquia e do Brasil como forças globais. A Turquia, em particular, voltou nos últimos meses a se envolver com o Oriente Médio, buscando preencher um vácuo de liderança lá.

Ferai Tinc, um analista político que escreve para o jornal turco “Milliyet”, disse: “Ancara nem apoia o Irã e nem defende a violência e sanções contra ele, mas defende fortemente a promoção de uma solução diplomática”. 

*William Yong, em Teerã (Irã); Mona el Naggar, no Cairo (Egito); Alexei Barrionuevo, em São Paulo (Brasil); Sebnem Arsu, em Istambul (Turquia); David E. Sanger, em Washington (EUA); em Alan Cowell, em Londres (Inglaterra), contribuíram com reportagem adicional.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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