UOL Notícias Internacional
 

22/05/2010

Alemanha aprova pacote de ajuda ao euro

The New York Times
Nicholas Kulish
Em Berlim (Alemanha)

Chefe de governo alemã, Angela Merkel

Na sexta-feira, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, conseguiu por margem estreita a aprovação pelo Parlamento da parcela do país nos quase US$ 1 trilhão do pacote de estabilização do euro diante de uma oposição pública significativa.

Foi uma vitória desconfortavelmente apertada para Merkel. O projeto foi aprovado por uma margem de apenas sete votos, com meia dúzia de membros de sua coalizão conservadora votando contra ele. Os partidos de oposição de esquerda se recusaram a apoiar o acordo, ou se abstendo ou votando contra.

A votação respondeu a pergunta, ao menos por ora, sobre se a Alemanha está comprometida em buscar soluções europeias à crise fiscal enfrentada pelo continente. Ela ocorreu no final de uma semana que viu o surgimento de profundas divisões em torno da decisão do governo alemão de introduzir medidas unilaterais para reduzir a especulação no mercado financeiro, além de fazê-lo sem consultar seus parceiros europeus.

As ações do Ministério das Finanças alemão, incluindo uma proibição parcial da chamada venda a descoberto, visavam aplacar um público alemão farto de resgates, seja de outros países ou de instituições financeiras vistas como lucrando em cima da atual instabilidade.

Mas a crise de confiança no euro, que enfraqueceu a moeda e abalou os mercados por todo o mundo, não envolve apenas os fundamentos econômicos. Em seu coração, ela envolve a habilidade dos líderes europeus de trabalhar de modo orquestrado. E a decisão alemã de fazer as coisas sozinha reforçou a impressão negativa de uma Europa dividida em um momento delicado.

Na Alemanha, onde Merkel ainda está tentando se recuperar da derrota eleitoral de seu partido no Estado mais populoso do país neste mês, as medidas unilaterais foram vistas como um passo necessário para obter a aprovação do plano de resgate no Bundestag.

“Como consequência do debate público acalorado”, disse Ulrike Guerot, diretor do escritório em Berlim do Conselho Europeu de Relações Exteriores, “o governo alemão precisava agir para demonstrar que estamos fazendo algo contra a especulação financeira antes da votação pelo Bundestag. Foi um debate muito controverso, mas a votação já foi, de forma que acho que a Alemanha retornará para suas convicções europeias”.

A participação da Alemanha na rede de segurança poderia atingir US$ 183 bilhões, a maior dentre os países europeus. Após se encontrar em Berlim com o novo-primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, Merkel o chamou de “um dia importante para o Parlamento alemão”.

Mas foram muitas as críticas aqui. “É um dos erros mais graves de decisão na história da República Federal da Alemanha”, Hans-Werner Sinn, disse o presidente do Instituto Ifo em Munique e um economista proeminente, ao jornal “Frankfurter Allgemeine Zeitung”. “Irritações potenciais nos mercados de capital, que estariam dentro dos limites, são de menor importância em comparação ao dano que uma decisão às pressas pode causar.”

A liderança de Merkel foi questionada não apenas pelos principais políticos de oposição, mas também por membros de seu próprio bloco. Horst Seehofer, o premier estadual na Baviera e chefe da União Social Cristã, o partido irmão bávaro dos democratas cristãos de Merkel, disse ao jornal “Suddeutsche Zeitung” que poder demais foi transferido para a Europa às custas do Parlamento alemão e que outras alternativas deveriam ter sido exploradas meses antes.

“A Alemanha é a principal financiadora do plano de resgate”, disse Seehofer. “As pessoas esperam que seus representantes não cassem seus próprios direitos.”

Líderes estaduais como Seehofer, cientes do sentimento público e temerosos de sofrer politicamente como os democratas cristãos na eleição da Renânia do Norte-Vestfália, usaram o debate para se distanciarem da chanceler em apuros. “É semelhante a uma reação de pânico, abandonar o navio que está afundando”, disse Claus Leggewie, um cientista político no Instituto de Estudos Avançados em Humanidades, em Essen.

“Ela está sendo atacada regularmente”, disse Leggewie. “Angela Merkel não é alguém que realmente tem seu partido em sua mão. Ela só foi intocável enquanto fazia sucesso.”

Após anos suportando salários e aposentadorias estagnados e observando a idade para aposentadoria ser ampliada de 65 para 67 anos, os alemães estão enfurecidos com a perspectiva de pagarem as dívidas do que consideram Estados gastadores como a Grécia. Temendo a reação dos eleitores em casa, Merkel resistiu por semanas ao presidente da França, Nicolas Sarkozy, na criação de uma rede de segurança para o euro, até que os problemas da dívida ameaçaram explodir em uma crise financeira plena.

O atual debate vai além do resgate de emergência para os países endividados e chega a perguntas a respeito do futuro da integração econômica entre os países que usam o euro. O bloco não possui nem uma política fiscal comum e nem um consenso sobre como melhor equilibrar estabilidade e crescimento. Muitos membros, incluindo a França, expressaram a crença de que o medo histórico de inflação pela Alemanha levou a uma política monetária que restringe indevidamente o crescimento econômico.

“Em termos ideológicos, a Alemanha não enxerga a deflação e a França não enxerga a inflação”, disse Guerot, do Conselho Europeu de Relações Exteriores. “Trata-se de culturas econômicas, como você deseja organizar sua sociedade e sua coesão social. E é difícil encontrar o mecanismo apropriado, porque vai diretamente ao cerne de como sua sociedade está estruturada.”

James Kanter, em Bruxelas, e Stefan Pauly, em Berlim, contribuíram com reportagem

Tradução: George El Khouri Andolfato

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