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22/05/2010

O que é melhor: confiar no outro ou desconfiar do outro?

The New York Times
Alina Tugend

Muitos de nós já enfrentaram esta situação em algum momento: um estranho se aproxima e nos diz que está visitando a cidade e perdeu todo seu dinheiro e documentos, ou que foram roubados. Ele apenas precisa de mais US$ 20 para comprar uma passagem de ônibus/consertar seu carro/pagar um quarto de hotel.

O estranho parece ansioso. Parece que a história dele pode ser verdadeira. Mas se dermos os US$ 20, estaremos fazendo papel de trouxa? Por outro lado, se estivesse em uma situação semelhante, eu não gostaria que alguém me desse uma ajuda? Eu estou sendo cínica demais?

Com base na minha experiência, essas situações geralmente são golpes. Eu já vi a mesma pessoa contando a mesma história, na mesma esquina, duas semanas depois de tê-la ouvido. Ou ele estava ludibriando as pessoas ou era uma alma terrivelmente sem sorte.

Mas o cabo-de-guerra entre cinismo e credulidade é constante. Nós confiamos muito pouco nas pessoas? Demais? Há evidência em ambos os lados. Segundo o Centro Pew de Pesquisa para Pessoas e Imprensa, a confiança pública no governo federal se encontra em um dos níveis mais baixos do último meio século.

Por outro lado, nós ainda estamos nos conformando com o preço de nossa credulidade após Bernard Madoff e um dos maiores esquemas de pirâmide de todos os tempos.

A verdade é que credulidade e cinismo não são opostos, mas dois lados da mesma moeda.

“Eu acho que as pessoas cínicas são extremamente crédulas”, disse Stephen Greenspan, professor emérito de psicologia educacional na Universidade de Connecticut e autor de “Annals of Gullibility” (Praeger, 2008). “Elas são crédulas diante de ideias que reforçam seu ponto de vista.”

Agora, credulidade não é algo novo. Veja Adão, Eva e a serpente.

Mas não é preciso voltar até o Jardim do Éden. Nós conhecemos muitas pessoas que compraram casas que não poderiam pagar porque queriam acreditar no mito de que os preços dos imóveis nunca cairiam.

Greenspan disse que perdeu algum dinheiro quando investiu, por meio de um terceiro, com Madoff. Ele temia, ele disse, que pareceria tolo se não investisse no que parecia ser uma boa oportunidade, e ele desdenhou o alerta de um amigo como cinismo automático.

Então a resposta é não confiar em ninguém? Presumir que o pensamento de todos é cada um por si?

Longe disso. “Ninguém quer viver em um mundo sem confiança”, disse David Dunning, um professor de psicologia da Universidade de Cornell. Na verdade, ele disse, há uma notável correlação positiva entre os países onde as pessoas têm maior confiança –de que contratos serão honrados, de que as leis funcionarão– e crescimento econômico.

Dunning conduziu experimentos que mostram que nós frequentemente superestimamos o cinismo dos outros –de que “quando as pessoas estão avaliando se devem confiar na gentileza de estranhos, elas suspeitam que esses estranhos provarão ser mais egoístas do que são de fato”.

Nos experimentos, uma pessoa recebe dinheiro que pode ser guardado ou entregue para um estranho aleatório e anônimo. Se a pessoa entregar o dinheiro para o estranho, a quantidade de dinheiro é quadruplicada (US$ 5 se tornam US$ 20). O estranho que recebeu o dinheiro pode então devolver metade para a pessoa que emprestou ou ficar com tudo.

Ao serem perguntados antes do jogo, os primeiros disseram acreditar que aqueles para os quais dariam o dinheiro devolveriam metade do dinheiro apenas em 45% a 60% das vezes. Mas, na verdade, isso aconteceu em 80% a 90% dos casos.

Os números foram bastante consistentes em experimentos nos Estados Unidos, Alemanha e Holanda.

Um dos problemas, disse Dunning, é que as pessoas lembram de quando sua confiança foi abusada, e então se tornam mais cínicas. É mais difícil extrair uma lição do oposto –há poucas vezes em que descobrimos que alguém em quem não confiamos era, na verdade, digno de confiança.

Mas, curiosamente, a pesquisa de Dunning descobriu que os participantes em seu experimento apresentavam maior probabilidade de depositar sua fé em outras pessoas do que o contrário. Quando o experimento envolveu um jogo de sorte, apenas 30% se mostraram dispostos a correr o risco –metade do número dos dispostos a acreditar que um estranho dividiria o dinheiro.

Ao serem perguntados por que confiaram em outras pessoas mais do que na sorte, “nossos sujeitos não tinham muito entendimento do motivo para agirem dessa forma”, disse Dunning.

Também parece que as pessoas de fato confiam mais do que dizem. Nos experimentos, menos de 40% previram que dariam o dinheiro a um estranho. Mas na verdade, cerca de 60% deram o dinheiro.

Isto é o oposto da maioria dos experimentos psicológicos, nos quais as pessoas tendem a fazer com que se pareçam melhor no papel do que se comportam na vida real, disse Dunning. “Isto contradiz todos os outros tipos de estudo que fiz no meu laboratório nos últimos 15 anos.”

Trazer à tona por que e como as pessoas confiam é claramente uma tarefa complicada. Mas é importante destacar que confiar não é o mesmo que ser crédulo.

“A credulidade não é uma função de alta confiança, é uma função de alta confiança onde há sinais óbvios de que não se deve confiar em alguém”, disse Greenspan. “Logo, é uma confiança tola.”

Um estudo japonês apontou que ao contrário do saber comum, aqueles que confiam mais eram mais perspicazes em interações sociais potencialmente arriscadas do que os desconfiados. Isso pode acontecer porque aqueles que temem a traição evitam muitas situações, limitando assim sua capacidade de aprender e interpretar os sinais sociais. Eles não sabem como determinar em quem confiar e em quem não, assim desconfiam de todos.

O que basicamente é a definição de cínico.

O cinismo torna um mundo imprevisível mais previsível, escreveu Marcia Angell em seu livro “Science on Trial” (W.W. Norton, 1996), e “oferece a ilusão de entendimento”. Angell, uma professora acadêmica sênior da Escola de Medicina de Harvard, disse que tanto o cinismo quanto a credulidade produzem “uma inclinação para o pensamento mágico e suspensão da lógica”.

A escolha, entretanto, não é simplesmente entre cinismo e credulidade. O meio-termo é o ceticismo –alguém que não aceita as coisas na base da fé, mas busca mais informação, disse Paul Mihailidis, um professor assistente de estudos de mídia e relações públicas da Universidade Hofstra.

“Um cínico não confia e vai embora”, ele disse. “Um cético não confia e continua fazendo perguntas.”

O risco é tentar ensinar ceticismo e acabar com cinismo, o que pode acontecer, disse Mihailidis, quando ensina aos estudantes como funciona a mídia. Um estudo envolvendo alunos da Universidade de Maryland que estudavam sobre a mídia apontou que eram mais capazes de entender, avaliar e analisar mensagens da mídia, mas que também eram mais cínicos e negativos a respeito do papel da mídia na sociedade civil –o que não era a meta.

“Não basta ensinar aos estudantes como a mensagem é distorcida”, disse Mihailidis. “Nós precisamos ensinar como nos tornarmos cidadãos mais engajados e ativos.”

A meta é, o máximo possível, questionar e aprender. Todavia, todos nós, a certa altura, seremos enganados ou desconfiaremos erroneamente de uma pessoa honesta. Mas isso não nos torna cínicos ou tolos. Isso apenas nos torna humanos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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