UOL Notícias Internacional
 

23/05/2010

Sistema de "pague o que quiser" deixa clientes perplexos nos EUA

The New York Times
Stephanie Strom e Malcolm Gay
Em Clayton, Montana (EUA)
  • Café pede que os clientes peguem o que precisam, deixando uma compensação justa

    Café pede que os clientes peguem o que precisam, deixando uma compensação justa

O experimento mais recente do país de restaurantes em que as pessoas pagam o quanto querem aconteceu no último fim de semana quando um café gerenciado pela Panera Bread, uma das redes de restaurantes que mais cresce no país, começou a recusar pagamentos de clientes nesse afluente subúrbio de St. Louis e pedir educadamente que eles, em vez disso, “peguem o que precisam, deixando uma compensação justa” em caixas de madeira e acrílico.

Havia uma fila na porta no pico do horário de almoço – uma multidão de funcionários do governo, profissionais de diversas áreas e curiosos que pareciam entusiasmados, e até mesmo confusos, com o empreendimento. Seria uma fila do sopão para os ricos? Uma nova obra de caridade?

Nenhum dos dois, logo descobriram. Trata-se de um entre uma dúzia de estabelecimentos em todo o país que oferecem comida de graça ou a preços baixos para os que precisam e tentam se sustentar com o dinheiro que seus clientes pagantes colocam na caixa.

Alguns dizem que é uma tendência quente, outros que é uma ilusão, mas a ideia de deixar que os clientes escolham o quanto querem pagar por suas refeições tem ganhado adesão na última década como consequência do crescimento do movimento em torno dos alimentos orgânicos e a chegada dos empreendedores sociais – aqueles que acreditam que lucrar e fazer o bem não são coisas mutuamente excludentes.

A intenção é que esses restaurantes recebam dinheiro suficiente para cobrir suas despesas. Se sobra dinheiro, os restaurantes que adotam o conceito dizem que planejam usá-lo para ajudar pessoas necessitadas alimentando-as ou oferecendo empregos.

Esses restaurantes não são obras de caridade no sentido tradicional, embora dependam do apoio de organizações sem fins lucrativos. A Panera, por exemplo, oferece apoio financeiro e de outras naturezas, como a doação de alimentos, para sua nova loja conceitual aqui.

Ron Shaich, presidente da Panera e cofundador da rede, diz que se “virmos que as pessoas estão burlando o sistema, vamos dizer: “Por que você não se torna um voluntário?”. 

"É um teste da natureza humana”, diz Shaich. “A verdadeira questão é se a comunidade pode sustentá-lo”

No restaurante na quarta-feira, alguns clientes não pagaram nada e se comprometeram a trabalhar como voluntários mais tarde, embora todos estivessem confusos sobre o que iriam fazer.

Lynn Richardson, 30, que trabalha para um promotor muscial, pagou cerca de 50 centavos a mais do que os US$ 5,48 sugeridos por sua sopa de batatas e soda diet.

David Eisenbraun e Melanie Holland, dois estudantes universitários que faziam um intervalo em seu trabalho de campo para almoçar com a mãe dela, deixaram US$ 15 na caixa para pagar por suas refeições – embora o preço sugerido fosse US$ 24,95. Eles também se perguntaram o quanto “caritativo” é de fato o negócio.

“Não tenho a mínima ideia de para onde vai o dinheiro”, diz Eisenbraun, que também se perguntou sobre a motivação da companhia: “Eles estão fazendo isso para ganhar divulgação?”

Esse tipo de ceticismo, aliado a uma quantidade considerável de trapaça, quase acabou com o conceito em outros lugares. O telefone do Java Street café em Kettering, Ohio, que adotou a estratégia de “pague o que quiser” no ano passado, foi desligado, e o café parecer ter fechado.

E o Tierra Sana em Queens faliu – embora oferecesse aos seus clientes a opção de “pague o que quiser” apenas um dia por semana.

O Terra Bite Lounge, um café em Kirkland, Washington, funcionou como um restaurante “pague o que quiser” durante cerca de um ano. Mas Ervin Peretz, seu dono e principal designer técnico do Google, disse que o café agora cobra pelas refeições. Ele disse que abandonou o modelo em parte por causa de problemas relacionados à sua localização – ele fica num bairro popular cheio de adolescentes famintos.

Fundado em 2003, o One World Everybody Eats em Salt Lake City é um dos mais antigos restaurantes “pague o que quiser”, e assim como Peretz, seus gerentes acharam o conceito um tanto desafiador. Agora ele é administrado por um grupo sem fins lucrativos e sugere aos clientes pagarem uma pequena quantia, de cerca de US$ 4 por uma entrada com carne ou frango.

“Eu costumava deixar que as pessoas colocassem o dinheiro numa cesta e pegassem seu próprio troco, mas passei a usar uma caixa fechada”, diz Denise Cerreta, fundadora do café. “Você aprende a cortar as pessoas que tirarão vantagem do conceito.”

Cerca de 15 a 20 das quase 60 refeições que o restaurante serve por dia são doadas para clientes necessitados, alguns dos quais lavam janelas, varrem o chão ou desmontam caixas de papelão por uma hora ou mais em troca. “Eles saem daqui com a barriga cheia e sentindo que trabalharam por aquela refeição, e essa é a ideia”, diz Giovanni Bouderbala, cozinheiro chefe e diretor do restaurante.

O One World Everybody Eats já ajudou donos de restaurantes em Denver, Spokane, em Washington, Highland Park, em Nova Jersey, e Arlington, no Texas, a incorporarem o conceito de “pague o que quiser”, e Cerreta aconselhou a Panera em seu café.

Daniel Honkomp, 21, e Andrew Eason, 20, ambos desempregados, vêm para o café para se voluntariar. “Se eu tivesse alguma coisa para doar, eu o faria, mas só posso doar o meu trabalho”, disse Eason.

Ele acrescentou: “Você não precisa pagar, mas se tiver um bom coração e ganhar dinheiro, tentará pagar a quantia justa."

Tradução: Eloise De Vylder

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