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24/05/2010

Cresce a dependência dos EUA frente ao petróleo canadense

The New York Times
Reportagem de Clifford Krauss, em Alberta (Canadá), e Elisabeth Rosenthal, em Nova York (EUA)
  • Funcionário da empresa Suncor com amostra de óleo extraído das areias do Canadá. Extração não-convencional produz óleo de solo arenoso

    Funcionário da empresa Suncor com amostra de óleo extraído das areias do Canadá. Extração não-convencional produz óleo de solo arenoso

Debaixo das florestas subárticas do oeste do Canadá, nas profundezas do solo sob as turfeiras e os rebanhos de caribous selvagens, fica uma das principais fontes do petróleo exportado para os Estados Unidos. 

Aqui não há chance de ocorrer a explosão ou um vazamento em águas profundas como o da plataforma da BP que está poluindo o Golfo do México. Mas o petróleo extraído das areias de alcatrão do Canadá apresenta outros problemas ambientais, como os açudes de resíduos, emissão de gases de efeito estufa e a destruição das florestas boreais. 

Além disso, os críticos alertam que os órgãos de regulamentação norte-americanos abriram mão de uma antiga norma de segurança para os oleodutos que transportam o petróleo bruto sintético do Canadá até as refinarias nos Estados Unidos e não exigiram nenhum plano de emergência para vazamentos, o que eles próprios reconhecem ser uma possibilidade. 

As areias petrolíferas estão sendo melhor examinadas pelo governo Obama, que está avaliando o pedido de uma companhia canadense para construir um novo oleoduto subterrâneo de 3.200 quilômetros de extensão que iria de Alberta até a costa do Golfo do Texas e aumentaria significativamente o acesso dos EUA ao petróleo. Para tomar essa decisão, o que deve acontecer até o final do ano, as autoridades federais estão colocando na balança as preocupações ambientais e a necessidade de garantir um fornecimento confiável para ajudar a satisfazer a insaciável sede de petróleo do país. 

O acidente no golfo acrescenta mais um fator de complexidade. Os órgãos reguladores e o Congresso estão reavaliando os limites para a perfuração na costa depois da catástrofe do Deepwater Horizon, o que aumenta a pressão para importar mais petróleo do Canadá. Ao mesmo tempo, a consciência política em relação aos riscos cresceu. 

As areias petrolíferas do Canadá devem se tornar a principal fonte de importação de petróleo para os EUA este ano; ultrapassando as importações convencionais de petróleo canadense e quase se equiparando à soma das importações da Arábia Saudita e Kuwait, de acordo com a empresa de consultoria IHT Cambridge Energy Research Associates. 

Num novo relatório, ela prevê que a produção das areias petrolíferas poderá representar até 36% das importações de petróleo dos EUA em 2030. “A incerteza e a redução das permissões para perfuração no golfo ressaltam a crescente importância das areias petrolíferas canadenses, que durante a última década deixaram de ser uma fonte de energia secundária e assumiram uma grande importância estratégica”, diz Daniel Yergin, historiador do petróleo e presidente da IHS CERA. “Pensando no futuro, a importância delas deve ficar ainda maior”. 

Na semana passada, uma legião de diplomatas canadenses aproveitaram uma viagem a Washington para promover as areias petrolíferas como uma alternativa segura em relação à extração em águas profundas, uma vez que os vazamentos seriam mais facilmente detectados e controlados. 

Numa entrevista, o premiê de Alberta, Ed Stelmach, disse que não está tentando capitalizar o desastre do golfo, mas simplesmente promover “o que temos a oferecer, ou seja, segurança de fornecimento” e um “governo confiável e estável”. 

Do ponto de vista do fornecimento, há muitos argumentos para recomendar as areias petrolíferas, também conhecidas como areias de alcatrão. O Canadá tem 178 bilhões de barris de reservas de petróleo comprovadas, praticamente todas localizadas em areias petrolíferas. Apenas a Arábia Saudita tem mais reservas de petróleo comprovadas. 

Os Estados Unidos produzem cerca de 5 milhões de barris de petróleo por dia e importa outros 10 milhões. O Canadá responde por cerca de 1,9 milhão de barris dessas importações diárias, cerca de metade deles provenientes das areias petrolíferas. 

“Se você precisa de petróleo bruto para alimentar sua economia, é melhor pensar no Canadá”, diz Chris Seasons, presidente da unidade canadense da Devon Energy, uma companhia de petróleo com sede em Oklahoma City. A Devon já está produzindo 35 mil barris por dia a partir das areias petrolíferas em torno de Conklin. Ela espera expandir sua produção para 200 mil barris por dia em 2020, em parte por meio de um segundo projeto em parceria com a BP. Isso seria quase equivalente ao que os EUA importam do Kuwait. 

Para aumentar o fornecimento de petróleo bruto das areias canadenses, a TransCanada está construindo o sistema de oleoduto Keystone. Dois oleodutos Keystone foram aprovados, e o primeiro levará petróleo para Illinois em junho. Um oleoduto bem mais longo até o Texas, chamado Keystone XL, está sob avaliação federal. Se for totalmente desenvolvido de acordo com a proposta, o sistema permitirá ao Canadá exportar mais 1,1 milhão de barris de petróleo por dia. 

Num mundo em que tantas nações produtoras de petróleo são instáveis, distantes ou hostis aos Estados Unidos, as areias canadenses têm um apelo político muito grande. 

“É inegável que dispor de um grande fornecimento de petróleo bruto através de um oleoduto de um país vizinho e amigável é algo extremamente valioso para a segurança energética dos Estados Unidos”, diz David L. Goldwyn, coordenador de assuntos internacionais de energia no Departamento de Estado. O departamento deve decidir este ano se aprovará o Keystone XL. 

O fato de a China poder se tornar um mercado consumidor alternativo do petróleo canadense complica os cálculos. Já existem planos para construir oleodutos de Alberta até a costa oeste do Canadá para enviar carregamentos de petróleo para a Ásia. Embora possa levar uma década até que sejam construídos por causa das regulamentações relativas às terras, o premiê de Alberta, Stelmach, voou para a China na sexta-feira numa missão de comércio em Xangai, Beijing e Harbin. Ele disse que uma de suas mensagens foi: “Nós temos energia.” 

Quaisquer que sejam as vantagens, a produção de petróleo a partir das areias petrolíferas implicam sérios problemas e riscos ambientais. 

A maioria dos grandes locais de produção são imensos poços de escavação, acompanhados de açudes de detritos tão tóxicos que as companhias procuram afastar as aves com espantalhos e canhões de propano. 

Extrair petróleo das areias produz muito mais gases de efeito estufa do que a perfuração, dizem grupos ambientais, e o processo requer três barris de água para cada barril de petróleo produzido, para separar a terra. Hoje, os açudes de resíduos já cobrem 130 quilômetros quadrados de terra ao longo do rio Athabasca. 

As minas também estão abrindo buracos na maior floresta intacta do mundo, que atua de forma crucial na absorção de dióxido de carbono e é um ponto de parada para milhões de aves migratórias. 

Os defensores das areias petrolíferas admitem que o processo de extração gera poluição. Mas dizem que os novos projetos estão usando tecnologias mais eficientes. 

Por exemplo, em vez da mineração de superfície, o projeto Devon injeta vapor em alta pressão no reservatório para fazer com que as areias petrolíferas aquecidas sejam bombeadas para fora da terra sob forma de fluido, o que degrada menos a floresta. A Shell também está experimentando maneiras de capturar parte das emissões de carbono, e outras companhias tentam usar solventes para aquecer o vapor de forma mais eficiente. 

Alguns analistas argumentam que as importações das areias petrolíferas substituirão o petróleo convencional de lugares como a Venezuela e o México, onde o petróleo pesado exige tanta refinação que produz uma quantidade semelhante de emissões de gases de efeito estufa. Para os Estados Unidos, “no contexto geral das coisas, o impacto real das emissões é muito pequeno”, diz Michael A. Levi, membro sênior do Conselho de Relações Exteriores. 

Mas os grupos ambientalistas não dão o braço a torcer. “Usar a energia das areias petrolíferas é simplesmente incongruente com as promessas climáticas e ambientais que o governo Obama fez”, diz Susan Casey-Lefkowitz, que se dedica ao assunto no Conselho de Defesa de Recursos Naturais. 

Os oleodutos de alta pressão que transportam o petróleo geram outras preocupações ambientais e de segurança que têm sido enfatizadas pelos fazendeiros locais outros oponentes durante o período de audiências públicas do Departamento de Estado sobre os impactos da proposta de expansão do oleoduto. 

Uma grande questão é se a TransCanada deveria ter permissão para usar uma tubulação mais fina no Keystone XL do que a normalmente exigida nos Estados Unidos. 

A Administração de Segurança de Oleodutos e Materiais Perigosos do Departamento de Transporte, que supervisiona os oleodutos, concedeu esse tipo de permissão para a TransCanada no caso dos dois primeiros oleodutos Keystone. A TransCanada diz que a tubulação mais fina foi aprovada no Canadá há décadas e não oferece nenhum risco adicional. 

Mas Cesar de Leon, ex-vice-diretor da Administração de Segurança de Oleodutos que hoje é consultor independente na área, diz que o padrão de tubulações mais finas só é apropriado se elas forem monitoradas exaustivamente para evitar o desgaste e a deterioração. Embora a Administração de Segurança tenha exigido esse monitoramento nos oleodutos Keystone, ela “não tinha pessoal suficiente para fiscalizá-lo”, diz ele. 

Num relatório sobre as práticas de permissão da agência, o inspetor geral do Departamento de Transporte descobriu que, em muitos casos, a agência havia falhado em checar os registros de segurança das empresas requerentes e não havia verificado se os termos das permissões estavam sendo seguidos. 

Funcionários da Administração de Segurança não responderam aos pedidos de entrevista. Mas num depoimento em escrito para um comitê da Câmara dos Representantes em abril, a nova administradora da agência, Cynthia L. Quarterman, reconheceu problemas e prometeu melhorar. “Como vocês sabem”, diz ela, “nós herdamos um programa que foi negligenciado durante quase uma década e estava seriamente desorientado.” 

O senador Jon Tester, republicano de Montana, disse que toda essa situação é alarmante e reminiscente das permissões que eram rotineiramente concedidas aos poços de petróleo oceânicos, incluindo o poço da BP que está vazando no golfo. “Acho que é minha responsabilidade como político dizer 'alto lá'”, diz Tester.

Em outro sinal de preocupação por parte dos políticos, a Comissão de Serviços Públicos de South Dakota rejeitou em 29 de abril o pedido da TransCanada para ser liberada da exigência de notificar os donos de terras afetados sobre derramamentos de menos de cinco barris.

O derramamento do golfo influenciou as audiências públicas sobre o projeto Keystone na semana passada em Murdo, South Dakota, e em York, Nebraska.

Algumas pessoas que moram no caminho pelo qual passaria o oleoduto reclamaram que ninguém pediu que a TransCanada fizesse um plano de emergência em caso de vazamento, embora o projeto da nova tubulação atravesse território pristino, incluindo o Aquífero de Ogallala, que fornece água para uma grande extensão da região agrícola do país e onde até mesmo um pequeno derramamento pode ter grandes consequência.

Outros exigiram que seja usado aço mais grosso na tubulação. E alguns perguntaram como o desgaste do oleoduto será monitorado.

Na audiência em York em 10 de maio, Jim Condon, engenheiro de Lincoln, Nebraska, disse que a quantidade de petróleo que está vazando do poço da BP é apenas uma pequena fração do que passaria pelo oleoduto Keystone XL. “Uma ruptura do oleoduto seria um problema imenso”, diz ele.

Tradução: Eloise De Vylder

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