UOL Notícias Internacional
 

24/05/2010

Filha da extrema-direita francesa se prepara para a liderança

The New York Times
Steven Erlanger
Maia de la Baume contribuiu com a reportagem em Nanterre e Paris
Nanterre (França)
  • O líder de extrema-direita francês, Jean-Marie Le Pen, ao lado da filha, Marine Le Pen, que se preparara para assumir a liderança do partido

    O líder de extrema-direita francês, Jean-Marie Le Pen, ao lado da filha, Marine Le Pen, que se preparara para assumir a liderança do partido

Marine Le Pen tentou o que podia para fugir de seu pai e da política, diz ela, oprimida pela infâmia de sua herança, que a seguia por onde fosse.

Mas agora espera-se que ela suceda Jean-Marie Le Pen como líder da Frente Nacional, o persistente partido de extrema direita que prega a pureza e o excepcionalismo francês, opondo-se à imigração e à União Europeia, e que ela pretende trazer para a idade da mídia. Cada vez mais, ela é o rosto do partido nos debates da televisão e em campanha nacional.

É impressionante ver como o destino pode zombar da gente às vezes”, disse ela numa longa entrevista na nova sede do partido, estabelecida incongruentemente num subúrbio parisiense comandando pelos comunistas. “Eu me encontrei ali, na política, e a maior parte da minha vida tentei escapar disso.”

Ela acredita que agora tem um destino, talvez até um tão importante quanto o do emblema do partido, Joana D'Arc, escolhida por Le Pen como símbolo da santidade francesa e resistência aos invasores. Com seu pai, 81, pronto para se aposentar no começo do ano que vem, Le Pen, 41, pretende carregar a bandeira da Frente Nacional pelo século 21, lutando com uma nova variedade de inimigos – incluindo o Islã – que supostamente ameaçam a França sagrada.

 

É difícil ver Marine Le Pen como uma vítima, mas a Frente Nacional prospera explorando a sensação de vítimas de seus eleitores, que veem um povo nobre esmagado por forças supranacionais, empobrecido pela globalização e ocupado por imigrantes, muitos deles muçulmanos.

 

Mas sua própria infância, diz ela, foi uma miséria. Mais nova das três filhas de um político muito criticado que não hesitava em provocar a xenofobia, a ansiedade e o antissemitismo, Marine com frequência se sentia numa espécie de ostracismo. 

 

Seus professores de esquerda a desprezavam; ela queria seguir a carreira de advogada, mas diz que o ódio generalizado que as pessoas nutriam por seu pai interferiu. “Ninguém queria ter uma sócia chamada Marine Le Pen – era simplesmente visto como um suicídio profissional”, ela escreveu em sua autobiografia de 2006, “A Contre Flots” [“Contra a Correnteza”]. “As coisas nunca eram insignificantes. Nunca foram fáceis. Nós continuávamos sendo as filhas de Le Pen, e as pessoas costumavam fazer com que nós nos sentíssemos culpadas, sempre.”

 

Mas hoje ela fala de sua decisão de assumir o papel de seu pai como uma espécie de destino, ou às vezes como um tipo de doença contagiosa.

 

A política é um vírus do qual nunca nos recuperamos”, diz ela. “Ele pode ficar dormente, mas no fim das contas ele sempre volta, e a única forma de curá-lo é nunca pegá-lo.”

 

Ela diz que cresceu com essa doença. “Meu pai me passou esse vírus, essa paixão pelos outros. Eu nasci e fui criada com a política, comia política, dormia política. Tentei escapar disso porque queria ter meu próprio trabalho, mas no final era a única coisa que me entusiasmava.”

 

E que também quase a matou. Em 1976, quando ela tinha oito anos, a casa de sua família explodiu. O acontecimento a deixou aterrorizada, diz ela. “Na época, não havia nenhum tipo de socorro psicológico. A casa foi bombardeada, e quando isso aconteceu, eu de repente percebi o perigo que pairava sobre mim, sobre meu pai, sobre minha família.”

 

Outro choque foi quando seus pais se divorciaram oito anos depois, quando sua mãe, Pierrette, mudou-se para os Estados Unidos com o biógrafo de seu pai e exigiu pensão. “Que ela vá limpar casas”, disse Le Pen, e então Pierrette Le Pen posou para a Playboy, de avental e segurando não uma bandeira, mas um esfregão. Marine Le Pen disse que o ensaio de sua mãe teve “o efeito de um rolo compressor” sobre ela, e a briga de seus pais foi como “uma descida ao inferno”.

 

Mas dificilmente ela é a primeira pessoa a transformar os infortúnios e isolamento da infância em política, e ela fala de uma forma assertiva e eloquente, marcadamente diferente do estilo mais informal de seu pai.

Alta, loira e fotogênica, ela é a “vice-presidente excecutiva para treinamento, comunicação e propaganda do partido”; e é integrante eleita do Parlamento Europeu desde 2004. Duas vezes divorciada, ela tem três filhos: uma menina de quase 12 anos, e gêmeos de onze, um menino e uma menina. Quando tem um relacionamento, é reservada em relação à sua vida privada.

Ela demonstra respeito pelo pai, referindo-se a ele como “o presidente” ou por seu nome completo. Para Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, seu pai é um impedimento para os esforços dela de mudar o partido. “É um fardo, e ela provavelmente não conseguirá se livrar disso antes que ele morra”, disse Camus.

Ela não compartilha do antissemitismo do pai, nem nega o Holocausto, diz Camus. Mas assim como Gianfranco Fini da Itália, que abandonou o neofascismo, em algum momento ela terá que fazer um discurso rompendo com “todos os neonazistas nos extremos da Frente Nacional”, diz ele.

Ela de fato quer ter um papel na política francesa”, diz Camus. “Já foi dito que Le Pen gosta de ser uma forasteira com atenção da mídia, mas eu acho que na verdade ela é diferente. Ela quer um dia fazer parte de uma coalizão da direita conservadora francesa.”

 

Ela faz parte de uma geração mais nova que não conheceu a 2ª Guerra Mundial ou as guerras coloniais em que seu pai lutou. “Ela encarna uma geração mais jovem; ela quer 'deringardiser' o partido”, ou torná-lo menos cafona, diz Nonna Mayer, cientista política do Centro Nacional Francês para a Pesquisa Científica. “Ela não incorpora a mesma extrema-direita que seu pai”, disse Mayer ao jornal “Liberation”, mas atrai um eleitor mais tradicional, que se sente prejudicado pela globalização e o declínio da indústria.

 

O presidente Nicolas Sarkozy tentou absorver os eleitores da Frente Nacional como único candidato da direita, tomando medidas duras contra o véu muçulmano, por exemplo, e restringindo a imigração. Nesse sentido, diz Simon Serfaty, acadêmico europeu do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos em Washington, “a Frente Nacional corrompe os partidos maiores” e os força a tenderem para a direita.Mayer acha que o partido perdeu parte de seu apoio recentemente. Mas Camus diz que “eles não vai sumir”, observando que muitos eleitores que votaram em Sarkozy em 2007 voltaram para a Frente Nacional nas eleições regionais.

 

Le Pen compartilha das mesmas crenças fundamentais que seu pai. A imigração deve ser interrompida e a cidadania não deve ser automática para aqueles que nascem no país, disse ela, propondo uma “política de desencorajamento; precisamos deter as pessoas que querem imigrar.” Ela favorece uma política de benefício “primeiro para os franceses”.

 

A França errou terrivelmente ao tentar integrar os imigrantes em vez de assimilá-los, diz ela. “Quando você vai ver os franceses descendentes de imigrantes nos subúrbios e pergunta: 'Você é francês?', eles respondem: 'Não, sou muçulmano', e isso é um problema.”

 

Os estrangeiros precisam “se misturar com a comunidade nacional porque somos uma civilização antiga”, diz Le Pen.

 

Houve uma retraimento às identidades não francesas porque nós esvaziamos a nacionalidade francesa de seu conteúdo”, diz ela. “Então como alguém pode ter orgulho? Passamos nossa vida inteira dizendo: 'Somos bastardos, colonizadores, escravocratas'.”

 

Quanto à União Europeia, ela prevê que, “assim como o império soviético de antigamente, este império da UE entrará em colapso”.

 

Questionada sobre suas esperanças para seus filhos, Le Pen amoleceu por um momento, mas apenas por um momento, e então fez um discurso. “Quero que eles herdem um país com uma herança cultural intocada, para conquistar o que todo mundo quer: ter uma família, viver com segurança, construir um patrimônio, ter um emprego que os permitirá viver decentemente e transmitir seu próprio legado.”

 

A França ofereceu muito à civilização, diz ela, soando muito como Sarkozy. “Há algo especial a respeito da França”, disse. “Se o modelo francês desaparecer, seria uma grande perda para o mundo inteiro.”

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,22
    3,142
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,67
    70.477,63
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host