UOL Notícias Internacional
 

24/05/2010

Uma fronteira, muitos lados: a polêmica sobre a lei de imigração no Arizona (EUA)

The New York Times
Anna Deavere Smith, atriz e dramaturga, é professora da Universidade de Nova York
  • O presidente dos EUA, Barack Obama, recebe o presidente do México, Felipe Calderón, na Casa Branca, sede do governo norte-americano

    O presidente dos EUA, Barack Obama, recebe o presidente do México, Felipe Calderón, na Casa Branca, sede do governo norte-americano

O presidente Barack Obama, numa aparição ao lado do presidente do México Felipe Calderón na quarta-feira, denunciou a nova lei do Arizona sobre a imigração ilegal como “uma expressão mal dirigida da frustração em relação ao nosso falido sistema de imigração”. Embora a lei seja nova, a frustração com certeza não o é.

Há dois anos, antes da última eleição presidencial, entrevistei pessoas que viviam e moravam em Phoenix e na fronteira entre o Arizona e o México, e muito do que eu ouvi se traduz fortemente no debate sobre a lei do Arizona. Mesmo na época, quando eu visitei escritórios, salas de estar ou mesas de piquenique, as palavras eram dramáticas. A cadência inflamada e rítmica sugeria um movimento social. Suspeito que os entrevistados estivessem ensaiando o discurso que agora estamos ouvindo em todo o país.

Eis alguns trechos dessas conversas:

Patricia Vroom, conselheira-chefe da agência de Imigração e Controle Alfandegário do Arizona:

O Arizona não odeia as pessoas pardas. Acho que na verdade estamos falando muito mais de uma tensão que acontece mais ou menos assim: “Ei, espere um pouco, achei que esta fosse a minha terra, o que vocês estão fazendo entrando na minha propriedade e achando que podem tomá-la?”

Há literalmente milhares e milhares de pessoas – quero dizer, em determinado momento, a Patrulha de Fronteira, a divisão de Tucson, prenderia 20 mil pessoas por semana. Já voei sobre a fronteira de helicóptero várias vezes e o lixo que é deixado pelas pessoas que entram ilegalmente, você não pode imaginar. Num leito de rio, uma área onde as pessoas deviam ter passado a noite, elas tinham deixado sacos plásticos, mochilas, sapatos e garrafas de água – porque elas normalmente carregam esses galões de água com elas. Havia sacolas plásticas, havia fraldas.

Há muito gado pastando livremente em muitas dessas áreas, e com frequência descobrimos que esses animais morreram com um grande estresse porque engoliram uma dessas sacolas plásticas e isso fica preso no trato digestivo e eles agonizam até a morte.

Quer dizer, você está lá no alto de helicóptero e simplesmente vê enxames de pessoas às vezes – 150 um lugar, e depois você vê outro grupo de 15 ou 16 e depois e voa mais um pouco e vê a Patrulha de Fronteira rodeando outras cinco ou seis pessoas.

Os carteis de drogas também estão muito envolvidos no tráfico humano. É terrível, uma terrível vitimização de pessoas que são – o que permitiram que fossem traficadas porque não sabem no que estão entrando.

Miguel Calvillo, que cruzou a fronteira:

Meu pai mora aqui desde 1985. E um dia ele nos disse que gostaria que nós viéssemos para que ficássemos todos juntos.

Nos anos 90 era muito fácil cruzar a fronteira. Nós atravessamos perto de onde o oficial de imigração checava os passaportes. Ali do lado havia um grande buraco na cerca. Era muito engraçado porque ele só olhava para o lado e dizia: “Não, não, não, voltem.” E as pessoas esperavam até que ele se distraísse para atravessar. Mas fomos parados dali a dez minutos. Então tivemos que voltar para casa, e eu estava ansioso porque na verdade não queria ir para casa porque eu tinha uma namorada. E então duas semanas depois tentamos de novo e conseguimos.

Na segunda fez nós não atravessamos pelo buraco; nós pulamos a cerca.

E daí quando chegamos na cidade eu disse: “Meu Deus!”. Eu estava nos Estados Unidos, sabe, olhando para os prédios e tudo mais. Então fomos para o apartamento. Eu esperava uma casa grande com móveis bons, mas era totalmente diferente. Lá estavam meu pai, minha mãe, meu irmão mais velho, um amigo da família, outro irmão mais velho, eu e minha irmã mais nova morando numa quitinete. Quando eu era criança costumava ler as cartas que meu pai mandava para minha mãe, então a gente sonha e imagina coisas. Eu imaginava que eles estavam morando numa casa grande. Nós éramos pequenos e sonhávamos em finalmente reunir toda a família.

Na verdade, meu pai nos abandonou por outra mulher poucos meses depois de nos trazer para cá. Embora ele tenha nos deixado, ele continuou nos ajudando com os documentos. Ele enviou os requerimentos para legalizar nossa estadia e quando se casou com a outra mulher, isso acelerou o processo porque ela era cidadã dos EUA.

Roxana Bacon, advogada, Phoenix (hoje promotora-chefe dos Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA em Washington):

Quando você pensa sobre o tipo de retórica do ódio, assume que todos que estão fazendo suas malas estão indo para o norte. Não é esse o caso, e as pessoas que decidem imigrar são de fato pessoas que se parecem muito com os ideias norte-americanos. Elas são ambiciosas. São bastante autoconfiantes. Elas assumem riscos. São pessoas fortes e corajosas. Elas são motivadas porque querem proteger suas famílias, que estão à beira de se desfazer porque na verdade não há como fazer dinheiro no país em que estão. Esta é a maioria, e existe também uma nova camada social – de pessoas bem sucedidas, profissionais capazes que se deslocam, principalmente nos campos da ciência e da engenharia.

Nosso setor de habitação, de serviços, de jardinagem, o setor do paisagismo, e muitos outros – dependem do trabalho dos mexicanos há décadas. Nenhuma dessas pessoas se qualificam para um visto de emprego. Então quando aqueles que promovem o ódio dizem: “Por que eles não podem esperar na fila? Por que eles não arrumam um visto?” - não há como conseguir um visto! Não há fila para esperar! E é por isso que todo mundo que conhece essa área da lei diz que sem uma reforma ampla da imigração não vamos conseguir resolver nenhum desses problemas de verdade.

Joe Arpaio, xerife de Maricopa County:

Sou o xerife eleito. Eu não respondo a nenhum governador, nenhuma legislatura, nenhum prefeito ou conselho municipal. Eu respondo diretamente ao povo. E, lembre-se, eu já me aposentei – 32 anos como agente da lei. Não preciso desse trabalho. Não estou fazendo currículo para ser governador. Eu poderia ter sido governador duas vezes. Todo mundo sabe disso. Eu simplesmente tenho uma ligação especial com as pessoas a quem eu sirvo. A única razão pela qual eu trabalho 15 horas por dia, sete dias por semana – e não sou um cara jovem – é porque sou motivado pelas pessoas.

E quando eu sigo uma política, faço com força total, não pela metade. É controverso, mas isso não me incomoda; se as pessoas não gostam, que votem em outra pessoa este ano.

Phil Gordon, prefeito de Phoenix:

Nós olhamos para o passado e nos arrependemos muito da reputação que as ações do xerife e de outras pessoas deram a essa comunidade, reputação que ela não merece. É a voz de poucos indivíduos. O xerife pode ir para qualquer cidade que quiser com seus oficiais designados e com os homens que ele escolhe, com a desculpa de suprimir o crime. Ele fez isso em Phoenix várias vezes, fez isso num subúrbio chamado Guadalupe, todas comunidades predominantemente hispânicas, de classe baixa e pobre. Ele dá uma entrevista coletiva, traz cachorros, helicópteros, equipes da SWAT, patrulhas montadas, e diz que numa sentença que irá atrás dos imigrantes ilegais, e na outra diz que não, que está apenas indo atrás de criminosos.

Seu combate ao crime se resume a operações cujo alvo são indivíduos de pele parda. Parar e prender indivíduos durante uma blitz, só porque jogaram lixo, buzinaram muito alto, por terem faróis quebrados, por dirigirem uma bicicleta sem luz à noite, e num dos casos por dirigir um carro com pneu careca – são desculpas para parar indivíduos que então precisam provar que estão no país legalmente.

Al Garza, membro do Corpo de Defesa Civil Minuteman, próximo à fronteira do Arizona com o México:

Até certo ponto somos todos imigrantes. Então eu defendo a lei. E falo diretamente da, você sabe, sou hispânico, de descendência mexicana. Somos legalizados, e estamos legalizados a, o quê, cinco gerações.

As pessoas me chamam de “Negresco”. Isso significa que sou pardo por fora e branco por dentro. E também de “côco”.

A família Garza especialmente lutou em guerras. Meu avô na 1ª Guerra Mundial, e ele perdeu um irmão. Seu filho, meu pai, na 2ª Guerra Mundial. Ele perdeu dois irmãos. E eu lutei no Vietnã, e perdi um primo. Então nós derramamos nosso sangue pelos Estados Unidos. Tenho muito orgulho desse país. Não podemos mais permitir que a lei seja deixada de lado naquilo que importa.

O que eu acho errado em relação à imigração ilegal é o fato de que agora eles estão atravessando as fronteiras, completamente despercebidos, infringindo a primeira lei. Agora eles precisam se estabelecer através de documentos. Eles procuram empregos. Eles procuram uma casa. Eles obtém documentos fraudados.

Quando patrulhamos a fronteira, levamos na maioria das vezes uma cadeira de deitar, um guarda-chuva, repelente de mosquito, protetor solar, coisas desse tipo, água, muita água, um telefone, um rádio. Comida, coisas do tipo.

E se você tem permissão, você pode levar uma arma. O México tem armas. E eles também tem metralhadoras. Tudo o que carregamos é um revólver.

Danny Ortega, advogado, Phoenix:

Na maioria dos casos, a forma como lidamos com o ódio não é necessariamente como eu gostaria que fosse. Isso custa a morte de pessoas. Veja aquelas duas meninas da igreja do Alabama. Só quando as coisas chegam nesse ponto trágico é que as pessoas começam a olhar para os problemas para tentar descobrir algo que possa evitar que isso aconteça.

Era de se imaginar que 400 mortes no deserto em um ano, ou perto de 4 mil durante vários anos, fosse suficiente para fazer com que as pessoas pensassem no que é necessário que o país faça para apoiar os direitos humanos. Então o que é preciso? Espero que não seja nenhum ato trágico de violência sem sentido que finalmente faça as pessoas dizerem: “Espere, isso não está certo. Aquela criança ou aquele homem ou aquela mulher nunca deveriam ter morrido como resultado disso.”

Jack Harris, chefe de polícia, Phoenix:

Cerca de 100 mil latinos marcharam desde a frente à delegacia de polícia daqui até o Capitólio. Isso reúne muitos extremistas dos dois lados. Temos agentes disfarçados entre as pessoas na multidão observando o que está acontecendo. E o nível da retórica do ódio continua crescendo.

E estamos muito preocupados de que isso possa terminar como os protestos dos anos 60, quando eventualmente alguém vai passar do limite. Muitas dessas pessoas que comparecem a esses eventos estão armadas, carregando muitas armas, e muito, muito envolvidas no discurso do ódio.

As respostas não são nunca diretas. Nunca é preto e branco. Todo mundo para fora do país, todo mundo para dentro do país, essas não são respostas. A resposta está em algum lugar no meio. E tenho muita esperança de que depois das eleições, quem for presidente assuma esse tópico e nos obrigue a chegar a uma solução razoável antes que a história se repita.

Tradução: Eloise De Vylder

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