UOL Notícias Internacional
 

25/05/2010

EUA ordenam maior uso de ações secretas no exterior

The New York Times
Mark Mazzetti
Em Washington (EUA)
  • O general Stanley McChrystal, comandante das forças dos EUA e dos aliados no Afeganistão, em reunião com Barack Obama, na Casa Branca, em Washington, EUA

    O general Stanley McChrystal, comandante das forças dos EUA e dos aliados no Afeganistão, em reunião com Barack Obama, na Casa Branca, em Washington, EUA

Um alto comandante militar americano no Oriente Médio ordenou uma grande expansão da atividade militar clandestina, em um esforço para atrapalhar ou deter grupos militantes e ameaças no Irã, Arábia Saudita, Somália e outros países na região, segundo funcionários da Defesa e documentos militares. 

A diretriz secreta, assinada em setembro pelo general David H. Petraeus, autoriza o envio de tropas das Operações Especiais Americanas tanto a países amigos quanto a países hostis no Oriente Médio, Ásia Central e no Chifre da África para coletar inteligência a desenvolver laços com as forças locais. Funcionários disseram que a ordem também permite reconhecimento que poderia preparar o caminho para possíveis ataques militares no Irã, em caso de escalada das tensões em torno das ambições nucleares do país. 

Apesar do governo Bush ter aprovado algumas atividades militares clandestinas longe de zonas de guerra, a nova ordem visa tornar esses esforços mais sistemáticos e a longo prazo, disseram os funcionários. Suas metas são a criação de redes que possam “penetrar, deter, derrotar ou destruir” a Al Qaeda e outros grupos militantes, assim como “preparar o ambiente” para futuros ataques por forças militares americanas ou locais, diz o documento. A ordem, entretanto, não parece autorizar ataques ofensivos em quaisquer países específicos. 

Ao ampliar suas atividades secretas, as forças armadas americanas também buscaram nos últimos anos quebrar sua dependência da Agência Central de Inteligência (CIA) e outras agências de espionagem para obtenção de informação em países sem uma presença militar americana significativa. 

A ordem de Petraeus visa usar pequenas equipes de soldados americanos para preencher as lacunas de inteligência a respeito de organizações terroristas e outras ameaças no Oriente Médio e além, especialmente grupos emergentes tramando ataques contra os Estados Unidos. 

Mas algumas autoridades do Pentágono temem os riscos desse papel expandido. As atividades autorizadas poderiam criar tensões nos relacionamentos com governos amigos como os da Arábia Saudita e Iêmen, ou incitar a raiva de nações hostis como o Irã e a Síria. Muitos militares também estão preocupados que assim que os soldados americanos assumirem papéis distantes do combate tradicional, eles correriam o risco de serem tratados como espiões caso sejam capturados, perdendo assim as proteções da Convenção de Genebra concedidas aos prisioneiros militares. 

As operações precisas que a diretriz autoriza não são claras, assim como não se sabe o que os militares fizeram para dar seguimento à ordem. O documento, cuja cópia foi vista pelo “The New York Times”, fornece poucos detalhes a respeito das missões em andamento ou operações de coleta de inteligência. 

Vários funcionários do governo que descreveram o que motivou a ordem falaram apenas sob a condição de anonimato, porque o documento é confidencial. Porta-vozes da Casa Branca e do Pentágono se recusaram a comentar. O “Times”, em resposta às preocupações com a segurança dos soldados levantadas por um oficial do Comando Central americano, o quartel-general dirigido por Petraeus, omitiu alguns detalhes sobre como as tropas poderiam ser posicionadas em certos países. 

A diretriz de sete páginas parece autorizar operações específicas no Irã, mais provavelmente para reunir inteligência sobre o programa nuclear do país ou identificar grupos dissidentes que poderiam ser úteis em uma futura ofensiva militar. O governo Obama insiste que, por ora, ele está comprometido em penalizar o Irã por suas atividades nucleares apenas com sanções diplomáticas e econômicas. Todavia, o Pentágono precisa elaborar planos de guerra detalhados com antecedência, caso Obama autorize um ataque. 

“O Departamento de Defesa não pode ser pego desprevenido”, disse um funcionário do Pentágono com conhecimento da ordem de Petraeus. 

A diretriz, a Ordem Executiva de Força Tarefa Conjunta de Guerra Não Convencional, assinada em 30 de setembro, também pode ter ajudado a estabelecer as bases para o aumento da atividade militar americana no Iêmen, que teve início três meses depois. 

As tropas das Operações Especiais começaram a trabalhar com as forças armadas do Iêmen para tentar desmontar a Al Qaeda na Península Arábica, uma afiliada da rede terrorista de Osama Bin Laden com sede no Iêmen. O Pentágono também realizou ataques com mísseis a partir de navios da Marinha contra supostos esconderijos de militantes e planeja gastar mais de US$ 155 milhões equipando as tropas iemenitas com veículos blindados, helicópteros e armamento leve. 

Os funcionários disseram que muitos altos comandantes, Petraeus entre eles, defendem uma interpretação expansiva do papel dos militares ao redor do mundo, argumentando que as tropas precisam atuar além do Iraque e do Afeganistão para melhor combater os grupos militantes. 

A ordem, que um funcionário disse ter sido elaborada em coordenação estreita com o almirante Eric T. Olson, o oficial encarregado pelo Comando das Operações Especiais dos Estados Unidos, pede por atividades clandestinas que “não podem ou não serão realizadas” por operações militares convencionais ou “atividades interagências”, uma referência às agências de espionagem americanas. 

Apesar da CIA e do Pentágono estarem frequentemente em atrito a respeito da expansão da atividade militar clandestina, mais recentemente a respeito da coleta de inteligência por parte de empresas contratadas pelo Pantágono no Paquistão e no Afeganistão, não parece haver uma disputa significativa a respeito da ordem de setembro. 

Um porta-voz da CIA se recusou a confirmar a existência da ordem de Petraeus, mas disse que a agência de espionagem e o Pentágono tinham um “relacionamento estreito” e operações geralmente coordenadas em campo. 

“Há trabalho mais que suficiente para realizar”, disse o porta-voz, Paul Gimigliano. “A verdadeira chave é a coordenação. Isso geralmente funciona bem e se aparecem problemas, eles são resolvidos.”

Durante o governo Bush, o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, endossou as operações militares clandestinas, argumentando que as tropas das Operações Especiais poderiam ser tão eficazes quanto os espiões tradicionais, se não mais. 

Diferente das ações secretas realizadas pela CIA, essa atividade clandestina não exige aprovação pelo presidente ou relatórios regulares ao Congresso, apesar de funcionários do Pentágono terem dito que qualquer ação significativa é aprovada pelo Conselho de Segurança Nacional. Tropas das Operações Especiais já foram enviadas a um pequeno número de países para realização de missões de vigilância limitada e reconhecimento, incluindo operações para obtenção de inteligência sobre pistas de pouso, pontes e praias que poderiam ser necessárias para uma ofensiva. 

Algumas das iniciativas de Rumsfeld foram controversas e enfrentaram resistência por parte de membros do Departamento de Estado e da CIA, que viam as tropas como uma tentativa velada do Pentágono de exercer influência fora das zonas de guerra. Em 2004, um dos primeiros grupos enviados ao exterior foi retirado do Paraguai após matar um ladrão empunhando um revólver, que os atacou enquanto desciam de um táxi. 

Uma ordem do Pentágono daquele ano deu aos militares a autoridade para ataques ofensivos em mais de uma dúzia de países, e os soldados das Operações Especiais os executaram na Síria, Paquistão e Somália. 

Por sua vez, a ordem de setembro de Petraeus se concentra na coleta de inteligência –por soldados americanos, empresários estrangeiros, acadêmicos e outros– para identificar militantes e fornecer “consciência da situação”, ao forjar laços com os grupos locais. 

*Thom Shanker e Eric Schmitt contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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