UOL Notícias Internacional
 

26/05/2010

Laços entre o governo dos EUA e a petrolífera BP são antigos e complexos

The New York Times
Helene Cooper e John M. Broder
Em Washington (EUA)
  • Mancha de óleo cresce no Golfo do México e pode chegar a outras Estados e países

    Mancha de óleo cresce no Golfo do México e pode chegar a outras Estados e países

Há três anos, o laboratório nacional então chefiado pelo dr. Steven Chu recebeu grande parte de uma verba de US$ 500 milhões, concedida pela gigante de petróleo britânica BP, para desenvolvimento de fontes de energia alternativas por meio de um novo Instituto de Biociências Energéticas.

Chu recebeu a verba do cientista-chefe da BP na época, o dr. Steven E. Koonin, um físico teórico que foi descrito de brincadeira por Chu como sendo “meu irmão gêmeo”. Koonin escolheu o Laboratório Nacional Lawrence Berkeley na Universidade da Califórnia, em Berkeley, entre outras universidades nos Estados Unidos e no Reino Unido em parte devido ao trabalho pioneiro de Chu em combustíveis alternativos.

Hoje, Chu é o secretário de Energia do presidente Barack Obama e passou a terça-feira em Houston trabalhando com representantes da BP, na tentativa de encontrar uma forma de interromper o fluxo sem pausa de petróleo do poço danificado a um quilômetro e meio de profundidade no Golfo do México.

Koonin, que seguiu Chu ao Departamento de Energia e atualmente serve como subsecretário de Energia para ciência, está afastado de qualquer assunto relacionado ao desastre devido aos seus antigos laços com a BP, disse Stephanie Mueller, uma porta-voz do Departamento de Energia.

Chu, ela disse, “nunca teve um interesse financeiro na BP”.

Mueller acrescentou: “Ninguém em seu juízo perfeito sugeriria que o dr. Chu deva favores a companhias petrolíferas, especialmente após passar a última década buscando reduzir a dependência de petróleo da América e nos conduzindo para uma economia de energia limpa”.

As relações entre Chu, Koonin e a BP ilustram a complexidade dos laços entre a empresa e o governo presentes na costa do golfo, enquanto eles lutam para lidar com um dos piores desastres ambientais do país. Assim como o Pentágono e as empresas contratadas pelos militares desenvolvem negócios simbióticos, interdependências técnicas e políticas, o governo neste caso precisa da tecnologia de prospecção de petróleo em alto-mar e equipamento de controle de poços da BP; a empresa precisa da perícia científica e logística do governo, incluindo a de Chu, um cientista ganhador do Prêmio Nobel.

Alguns críticos dizem que o governo Obama depende demais do levantamento da BP do vazamento e de suas soluções para resolvê-lo. Mas funcionários do governo dizem que a BP é legalmente responsável por selar o poço e limpar a sujeira. E reconhecem que o governo carece de know-how para lidar com o problema por conta própria.

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Apesar de não haver evidência de que Chu ou Koonin tenham representado os pontos de vista da BP nas deliberações internas ou buscado influenciar as políticas do governo de modo a beneficiar a BP, o simples fato de sua história compartilhada causou manifestações de preocupação por parte de ambientalistas e outros críticos da resposta da Casa Branca ao vazamento.

“O fato de Steven Chu ter escolhido Steve Koonin, o cientista-chefe da BP, para ser seu subsecretário poderia predispô-los a pensar que talvez pudessem negociar com a BP, que poderiam ser como parceiros na limpeza do petróleo”, disse Jennifer Washburn, autora de um futuro relatório para o Centro para o Progresso Americano chamado “O Grande Petróleo vai para a Faculdade”, que examina o empreendimento BP-Berkeley. “Isso torna mais provável que vejam a BP como uma parceira legítima na operação de limpeza.”

“Infelizmente”, acrescentou Washburn, “o que as pessoas estão questionando, de forma justificada, é se o governo tem sido brando demais com a BP”.

John M. Simpson, da Consumer Watchdog, uma entidade de proteção ao consumidor, acrescentou: “Pelo que vi, a resposta do Departamento de Energia não foi rápida a este vazamento de petróleo. Isso tudo apenas ressalta que os interesses corporativos criaram, ao longo do tempo, esses relacionamentos que lhes dão um acesso injusto aos autores de políticas”.

Mueller, a porta-voz do Departamento de Energia, disse que a acusação de que o departamento reagiu lentamente ao vazamento é injusta.

“Nós temos 150 pessoas ali há semanas”, ela disse.

A revolta pública está crescendo tanto contra a BP, que diz que tentará de novo na quarta-feira fechar o vazamento usando um método chamado “top kill” (injeção de lama pesada de perfuração e cimento no poço), e contra Obama, que anunciou uma grande expansão da exploração de petróleo em alto-mar em março, antes de cuidar do que o próprio Obama chamou há duas semanas de relacionamento confortável entre os reguladores do governo e as companhias petrolíferas.

Na segunda-feira, a BP anunciou outra verba de US$ 500 milhões, desta vez para estudar o impacto do vazamento nos ambientes marinho e costeiro, com a primeira concessão destinada à Universidade Estadual da Louisiana. Um painel independente decidirá que instituições receberão o restante do dinheiro, disse a empresa em um comunicado à imprensa.

Um funcionário da Casa Branca disse na terça-feira que o Departamento de Energia “não tem jurisdição sobre o vazamento de petróleo”. Chu –que, segundo um comunicado de imprensa do Departamento de Energia, estava em Houston na terça-feira para “continuar trabalhando nas estratégias para deter o vazamento de petróleo”– é “apenas um voluntário por ser um dos cientistas mais brilhantes disponíveis”, disse o funcionário. Chu cancelou uma viagem à China para poder se concentrar na crise, disse o Departamento de Energia.

Em 12 de maio, Obama enviou Chu ao centro de comando da BP, em Houston, para se reunir com importantes engenheiros e cientistas. Após a reunião na BP, Chu disse aos repórteres que acreditava que as “as coisas parecem positivas” e que se sentia “mais tranquilo do que estava há uma semana” com o progresso no trabalho de contenção. Juntamente com o secretário do Interior, Ken Salazar, cujo departamento tem jurisdição sobre o vazamento, Chu apareceu ao lado de Obama no Jardim das Rosas no dia seguinte, enquanto Obama atacava furiosamente as três empresas envolvidas no vazamento de petróleo.

Ninguém acusou Chu ou Koonin de conflito direto de interesse ou questionou suas credenciais científicas. Antes de assumir o Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, que é financiado pelo Departamento de Energia, em 2004, Chu foi presidente do departamento de física da Universidade de Stanford e ganhou o Prêmio Nobel de física de 1997 por seu trabalho de resfriamento de átomos usando laser.

Koonin foi professor de física do Instituto de Tecnologia da Califórnia por quase três décadas e serviu de 1995 a 2004 como reitor do instituto. Ele foi contratado pela BP em 2004 como seu cientista-chefe, responsável pelo planejamento a longo prazo do portfólio de energia da empresa além do petróleo, como ela gosta de dizer. Em sua declaração de renda apresentada para assumir seu cargo no governo, ele disse possuir dezenas de milhares de ações da BP e opções, além de ter dito que estava negociando um valor justo por elas junto à empresa.

O projeto BP-Berkeley provocou protestos no campus de Berkeley quando foi apresentado em 2007, quando grupos de estudantes e alguns professores expressaram preocupação de que a aliança poderia manchar a reputação de integridade acadêmica da universidade. O nome de Chu e seu apoio ao projeto ajudaram a reduzir esses temores, disse Washburn, uma especialista em relações indústria-universidade e membro da Universidade de Nova York.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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