UOL Notícias Internacional
 

28/05/2010

Obama reorienta doutrina de segurança nacional dos EUA

The New York Times
David E. Sanger e Peter Baker
Em Washington (EUA)
  • Obama se reúne com militares americanos no Afeganistão

    Obama se reúne com militares americanos no Afeganistão

A primeira doutrina formal de segurança nacional do presidente Barack Obama descreve uma era em que os Estados Unidos terão que aprender a viver dentro de seus limites –um mundo em que duas guerras não podem ser sustentadas por muito tempo e em que potências em ascensão inevitavelmente começarão a minar alguns elementos da influência americana ao redor do globo.

Obama argumenta que os Estados Unidos são confiantes o bastante para conviver com essa realidade e que após quase uma década de organização de sua política de segurança nacional em torno do contraterrorismo, eles devem retornar a uma agenda mais ampla. “Os fardos de um século jovem não devem ser depositados apenas sobre os ombros americanos”, diz Obama na introdução da doutrina divulgada na quinta-feira. “De fato, nossos adversários gostariam de ver a América exaurir suas forças ao exceder seu poder.”

Mas este documento, exigido pelo Congresso, também deverá reacender a discussão sobre a forma como Obama redirecionou a política externa americana nos últimos 16 meses. Seus críticos –inclinados a retratá-lo como ávido demais em pedir desculpas pelos erros americanos e disposto demais a render o papel do país como única superpotência indispensável– provavelmente extrairão elementos do novo documento para reforçar seu argumento.

Mas para a equipe de Obama, é um documento que reconhece o mundo como ele é e coloca um fim a uma era de ilusão, na qual Washington confundiu projeção de poder com obtenção de resultados. “Nós não estamos menos poderosos”, disse a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, na quinta-feira na Instituição Brookings. “Nós estamos mudando de um exercício e aplicação em grande parte direta do poder americano”, ela disse, para um indireto, que exige paciência e parceiros e obtém resultados mais lentamente.

“Em um mundo como esse, a liderança americana não é menos necessária”, ela disse. “É mais. E o simples fato é de que não há problema global que possa ser resolvido sem nós.”

O documento de 52 páginas tenta misturar o idealismo das promessas de campanha de Obama com as realidades de seus confrontos com um mundo dividido e ameaçador. Ele descreve uma América “endurecida pela guerra” e “disciplinada por uma crise econômica devastadora”, e conclui que os Estados Unidos não podem sustentar guerras prolongadas tanto no Iraque quanto no Afeganistão e atender outros compromissos ao mesmo tempo.

Essa linha é apenas um dos muitos tapas sutis contra o ex-presidente George W. Bush. Enquanto o documento de Bush de 2002 dizia explicitamente que os Estados Unidos nunca permitiriam a ascensão de uma superpotência rival, Obama argumenta que os Estados Unidos não enfrentam nenhum concorrente militar real, mas que o poder global está cada vez mais difuso.

Tanto Clinton quanto o principal autor de relatório, Ben Rhodes, um vice-conselheiro de segurança nacional, argumentam que Obama reconheceu essa realidade quando pressionou o Grupo dos Oito –das maiores economias industrializadas e a Rússia– a ceder mais poder para o Grupo dos 20, que inclui potências emergentes, como China, Índia e Brasil. Apesar de Obama ter renovado o foco na guerra no Afeganistão e aumentado os ataques com aeronaves não tripuladas da CIA contra militantes no Paquistão, a doutrina rejeita o foco de Bush em contraterrorismo como princípio organizador da política de segurança. Esses esforços para “conter o extremismo violento” –Obama evita a palavra islâmico– “são apenas um elemento de nosso ambiente estratégico e não podem definir o engajamento da América com o mundo”.

Ele prossegue argumentando que “o risco mais grave para o povo americano e para a segurança mundial continua vindo das armas de destruição em massa, particularmente as armas nucleares”. Mas ele também cita as ameaças cibernéticas, a mudança climática e a dependência dos Estados Unidos de combustíveis fósseis como questões fundamentais de segurança nacional, questões que receberam pouca ou nenhuma atenção no documento de Bush, apesar do ex-presidente ter se concentrado mais nelas em seu segundo mandato.

“É um distanciamento dramático da doutrina de segurança nacional mais recente”, disse Susan E. Rice, a embaixadora na ONU.

As diferenças são mais claras na seção sobre o uso da força, que não faz menção a ataques preventivos contra países ou elementos que não sejam um Estado que possam representar uma ameaça, como Bush fez em 2002. Mas Obama não descarta explicitamente atacar primeiro.

“Apesar do uso da força às vezes ser necessário, nós esgotaremos outras opções antes de uma guerra sempre que pudermos, e pesaremos cuidadosamente os custos e riscos de uma ação contra os custos e riscos da inação”, ele diz. Quando for necessário, ele acrescenta, “nós buscaremos um maior apoio internacional”.

Os assessores de Bush diziam que eles não buscariam “permissão” para essas ações. Obama expressa essa ideia de modo mais brando, dizendo que “os Estados Unidos devem se reservar o direito de agir unilateralmente, se necessário, para defesa de nossa nação e nossos interesses, mas também buscaremos aderir aos padrões que regem o uso da força”.

Obama também define mais amplamente a segurança do que seu antecessor, argumentando, por exemplo, que a redução do déficit orçamentário é fundamental para manutenção do poder americano. Clinton concentrou grande parte de sua apresentação no Brookings nesse tema, argumentando que os comandantes e diplomatas americanos veem a dívida pública a longo prazo como uma das maiores ameaças à influência americana e à capacidade do país de projetar poder no exterior.

Ainda assim, apesar de sua rejeição consciente da era Bush, o documento reflete elementos de continuidade. Por exemplo, ele não desaprova o uso da lei de segredos de Estado para reter informação dos tribunais em casos de terrorismo, apesar de defender seu uso prudente e limitado. Também insiste que “nós manteremos a superioridade militar que protegeu nosso país e escorou a segurança mundial por décadas”.

Ele não torna a disseminação da democracia uma prioridade como fez Bush, mas abraça a meta de forma mais robusta do que é típico para Obama, um reflexo da disputa em seu governo sobre como lidar com um assunto tão associado a Bush. Obama se compromete a “acolher todos os movimentos democráticos pacíficos” e “apoiar o desenvolvimento das instituições dentro de democracias frágeis”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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