UOL Notícias Internacional
 

29/05/2010

Centro religioso islâmico próximo ao Marco Zero provoca polêmica nos EUA

The New York Times
Clyde Haberman
Em Nova York (EUA)
  • Local que pode se tornar um grande centro islâmico, próximo ao Marco Zero, nos EUA

    Local que pode se tornar um grande centro islâmico, próximo ao Marco Zero, nos EUA

Desde muito antes do ataque terrorista islamita de 11 de setembro de 2001, uma mesquita encontrava-se situada na região de West Broadway, em TriBeCa, a doze quarteirões do World Trade Center. Ninguém jamais parece ter se importado com o fato de ela estar naquele local.

Agora, assumindo que ele seja capaz de obter o dinheiro e superar alguns dos obstáculos burocráticos remanescentes, o guia espiritual daquela mesquita pretende construir um centro comunitário islâmico de vários andares, que incluiria um espaço para orações, em Park Place, a dois quarteirões daquele local que é rotineiramente chamado de Marco Zero.

Os brados de protesto contra este projeto tem sido altos e insistentes por parte de certos setores e indivíduos. Entre eles estão aqueles que perderam parentes em 11 de setembro de 2001, e que definem o local em que ficava o World Trade Center como “sagrado”. Para essas pessoas, a construção de um centro islâmico tão perto do Marco Zero seria um sacrilégio.

Pelo menos agora, sob o aspecto geográfico, nós sabemos onde tem início a indignação. Esse ponto fica em algum lugar situado entre 12 e dois quarteirões de distância do Marco Zero. O local exato, porém, continua sendo um mistério. Por exemplo, será que não haveria problema se o centro islâmico, denominado Cordoba House, ficasse a quatro quarteirões do Marco Zero? Ou isso ainda seria muito perto? E o que dizer de uma distância de oito quarteirões?

A intenção aqui não é apelar para a gozação. Mas a questão de determinar o que se constitui em respeito apropriado aos mortos de 11 de setembro de 2001 nunca foi simples. Para alguns, a única forma de abordagem desse problema é a religião, e isso coloca todo mundo em um terreno constitucional escorregadio.

Ao que se sabe, ninguém até hoje protestou contra o fato de haver uma casa de striptease na Murray Street, na West Broadway, a uma distância de três quarteirões do Marco Zero. Um dia desses um homem podia ser visto na esquina daquela rua fornecendo entradas gratuitas a cavalheiros entusiasmados.

Na Church Street, na esquina próxima ao local em que se situaria a Cordoba House, há uma loja que vende vídeos pornográficos e uma grande variedade de brinquedos sexuais. E algumas portas a leste do planejado centro islâmico, existe um escritório do Off-Track Betting. Um dia desses, em frente ao local, havia vários homens que teriam sido descritos no meu velho bairro do Bronx como jogadores degenerados.

Uma casa de striptease, uma loja de material pornográfico e uma casa de jogos operada pelo governo. Ninguém organizou manifestações para denunciar essas atividades como um desrespeito à memória dos homens e mulheres que morreram a apenas algumas centenas de metros desses lugares.

Mas, para alguns, um centro islâmico é algo que toca em uma ferida. Em uma audiência conturbada no Departamento Comunitário de Manhattan 1, ocorrida na noite da última terça-feira, antes que fosse concedida a aprovação à Cordoba House, um manifestante empunhava um cartaz que dizia: “Onde está a sensibilidade em relação às famílias do 11 de setembro?”.

Uma corolário dessa questão, no entanto, poderia ser: que famílias? Elas estão muito longe de se constituir em um bloco monolítico.

Alguns parentes das vítimas do 11 de setembro veem qualquer coisa de caráter muçulmano perto do Marco Zero como um bofetada no rosto. Outros não se importam nem um pouco com isso. E há ainda aqueles que compartilham a opinião de Donna Marsh O'Connor, que faz parte do comitê diretor de um grupo chamado Famílas do 11 de Setembro por Amanhãs Pacíficos. Ela disse que a construção de um centro cultural que, segundo o seu fundador, o imame Feisal Abdul Rauf, será dedicado à tolerância entre as diferentes fés religiosas, seria o “jeito norte-americano” de agir.

As autoridades de Nova York, embora manifestem sensibilidade em relação aos sentimentos das famílias insatisfeitas, já deixaram claro há muito tempo que estas famílias não terão poder de veto sobre a maneira como a cidade constrói e reconstrói. Autoridades da prefeitura e de outros órgãos endossaram a Cordoba House, especialmente por causa do imame Feisal, um sufista que cultivou relações com outras religiões e que condenou a violência dos islamitas fanáticos. Ele até hoje não deu nenhum motivo para que alguém duvidasse da sua sinceridade.

O aumento da indignação com o projeto parece às vezes aumentar de forma diretamente proporcional à distância do Marco Zero. Um colunista do tablóide “Washington Examiner” rotulou recentemente a iniciativa de “o segundo ataque ao World Trade Center”. Colunistas e editorialistas de tablóides de Nova York que raramente se deixam tomar por manifestações de otimismo ingênuo descreveram tais denúncias como “histeria”.

Um parente de uma vítima do 11 de setembro observou tristemente nesta semana que o centro islâmico atrairia manifestações barulhentas para uma área traumatizada da cidade que, segundo ele, deveria se constituir em uma zona de tranquilidade. Se este for de fato o caso, cabe aos manifestantes decidir o nível de barulho que eles desejam fazer sob o espectro do World Trade Center.

Mas eles tem o direito de protestar. Isto está garantido na Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, a mesma emenda que garante a liberdade de religião, e que não possui nenhum asterisco alertando, “* exceto o islamismo”. E essa é a mesma emenda que permite que uma casa de striptease e uma loja de materiais pornográficos existam a dois quarteirões de um local sagrado.

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    14h29

    0,73
    3,169
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h32

    -0,74
    68.087,73
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host