UOL Notícias Internacional
 

07/06/2010

Candidatos dos EUA enfrentam saia justa por declarações ambíguas

The New York Times
Adam Nagourney
Washington (EUA)
  • O candidato republica Mark Foley, do Estado de Illinois

    O candidato republica Mark Foley, do Estado de Illinois

Aconteceu mais uma vez. Outro candidato ao governo está penando para explicar declarações ambíguas que deu sobre seu passado no serviço militar. Desta vez, é o representante Mark Kirk, republicano de Illinois que concorre ao Senado, que está pedindo desculpas pelas declarações ambíguas que deu sobre, entre outras coisas, o fato de ter servido na primeira guerra do Iraque e em Kosovo.

“Eu simplesmente lembrei das coisas de forma equivocada”, disse ele, numa observação que repercutiu na primeira página do “The Chicago Sun-Times” na sexta-feira. Há poucas semanas, foi Richard Blumenthal, o promotor geral de Connecticut e candidato democrata para o Senado, que tentou explicar declarações ambíguas que sugeriam que ele havia servido no Vietnã.

Esse tipo de comportamento político não é novidade. Ao longo dos anos, uma lista enorme de políticos de ambos os partidos – John Kerry, Al Gore, Tom Harkin, George W. Bush, Bill Clinton e David Duke, para citar alguns – tiveram de responder ao que seus oponentes retrataram como exagero ou coisa pior em relação ao seu serviço militar (ou suas tentativas de evitá-lo). Alguns desses candidatos e muitos outros também foram confrontados por declarações não totalmente verdeiras em relação a diversos outros assuntos.

Mas a intensidade das últimas disputas proporcionam um insight em relação a como a cena política norte-americana mudou. Uma característica comum dos políticos em busca de votos – a tendência a se vangloriar – bateu de frente com uma nova e agressiva cultura que os submete ao escrutínio por parte de oponentes, blogueiros, da mídia oficial e dos cidadãos comuns.

Além disso, as regras do que é aceitável ficaram obscuras desde a época em que Bruce F. Caputo, candidato republicano ao Senado de Nova York contra Daniel Patrick Moynihan, foi obrigado a retirar sua candidatura quando foi revelado que ele havia mentido sobre ter sido recrutado para o Vietnã. (Essa informação vazou por meio de um assessor político sênior do senador Moynihan, Tim Russert.)

A questão mais importante para Blumenthal e Kirk é o quanto eles estão se queimaram. Como ambos estão descobrindo, dizem os analistas, a questão em muitos casos não é tanto se eles de fato serviram no Vietnã ou no Iraque, mas a credibilidade e o caráter do candidato.

Kirk admitiu uma série de erros e discrepâncias relacionadas ao seu serviço militar. Na semana passada, ele reconheceu que seu site oficial da Câmara informou incorretamente em 2005 que ele havia servido na “Operação Liberdade ao Iraque” quando na verdade ele serviu dentro dos EUA. O problema foi descoberto naquele ano e corrigido, para informar que ele havia servido “durante” a invasão do Iraque.

Kirk disse várias vezes que serviu no Iraque – e sua campanha esclareceu que ele serviu durante dois meses em 2000 na Operação Northern Watch, que reforçou a zona anti-aérea iraquiana. Ele também serviu duas vezes no Afeganistão.

“Durante a última geração, deixamos de rotular ou identificar as pessoas com um partido e as disputas dizem muito mais respeito ao caráter das pessoas: será que os eleitores confiam nelas?”, diz Chris Lehane, consultor democrata que aconselhou Gore quando ele foi questionado por ter exagerado o fato de ter servido o exército quando concorreu à presidência em 2000. “Esta é uma das razões pela qual os exageros se tornaram uma peça central das campanhas. É uma forma de saber se você pode confiar em alguma coisa. É algo que os pesquisadores da oposição, oponentes, jornalistas podem pegar e questionar.”

“Existe muito mais investigação do que no passado, não importa o que digam sobre os jornais estarem morrendo”, diz Lehane.

As pesquisas sugerem que Blumenthal não caiu desde que as questões foram levantadas num artigo do “The New York Times”. Mas Kirk foi obrigado a fazer uma turnê de desculpas esta semana para lidar com as questões sobre a credibilidade do que ele disse em relação ao seu histórico militar. Autoridades de ambos os partidos disseram que se o questionamento continuar, poderá prejudicar as perspectivas de Kirk, oficial de inteligência na Reserva Naval e congressista que já foi eleito cinco vezes, em sua disputa contra Alexi Giannoulias, um democrata que parecia vulnerável por causa de seus laços com o setor bancário.

Os candidatos tendem a embelezar as coisas de seu passado (desde o histórico acadêmico ao conjugal), mas o serviço militar sempre foi uma área particularmente tentadora para o exagero. Ter uma carreira militar distinta é uma carta poderosa na manga, desde George Washington.

“Mais da metade de nossos candidatos à presidência tiveram algum tipo de serviço militar”, disse Jeremy M. Teigen, professor de ciência política no Ramapo College em Nova Jersey, que está escrevendo um livro sobre as credenciais militares e campanhas políticas. “E um número nem tão pequeno deles tem enfatizado isso de forma estratégica.”

O escrutínio intensivo da mídia de hoje é um alerta para que os candidatos tomem cuidado com o que afirmam, e também os deixa vulneráveis à descoberta de qualquer mentira do passado, uma vez que é muito fácil pesquisar as antigas aparições e registros e divulgá-los. Nuances – como a definição da palavra “servir” - podem ser problemáticas, como descobriu Blumenthal.

“O grau de dificuldade do exagero político de qualquer tipo está diretamente relacionado com a facilidade de pesquisa e a proliferação das fontes”, diz Bob Kerrey, veterano do Vietnã e ex-senador de Nebraska que concorreu à presidência em 1992. “É muito mais fácil encontrar alguma coisa que eu tenha dito quando estava tentando convencer as pessoas de que eu era mais alto que Bill Clinton do que seria hoje.”

“Antigamente – ou seja, da última vez que eu fiz campanha em 1994 –, se eu tivesse algo quente sobre meu oponente, se eu tivesse algo verdadeiramente picante, eu teria ido para os bares onde os jornalistas se encontravam e tentaria fazer com que eles publicassem”, diz Kerrey. “Agora não mais. Bastaria publicar no YouTube. É mais rápido. E melhor para o meu fígado.”

Lehane, que é conhecido por seus talentos em dirigir operações para reunir informações desfavoráveis sobre as aparições de oponentes de campanha – no jargão, isso é conhecido como “investigar” - diz que descobrir o que um candidato diz e faz é muito mais fácil agora.

“Em 1992, quando você queria investigar um candidato você tinha que enviar pessoas para a rua com gravadores, e tentar registrar algo que pudesse usar”, diz ele. “Era difícil fazer com que as pessoas chegassem perto o suficiente. Parece que eles [os candidatos] conseguiam mentir muito mais do que conseguem hoje.”

Tradução: Eloise De Vylder

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