UOL Notícias Internacional
 

07/06/2010

Explorando a psique do Iraque através do prisma da Zona Verde

The New York Times
Anthony Shadid
Em Badgá (Iraque)
  • Espadas cruzadas, um monumento erguido por Saddam Hussein na Zona Verde de Bagdá

    Espadas cruzadas, um monumento erguido por Saddam Hussein na Zona Verde de Bagdá

O termo foi cunhado pelos militares norte-americanos. Mas diferente de alguns outros, como por exemplo pontos de controle de entrada – o nome ficou marcado na imaginação popular. A Zona Verde sempre pareceu dizer muita coisa, aqui e no exterior. Era o centro imperial de uma ocupação, ou a citadela de um governo parcialmente soberano – defesa ou bolha, refúgio ou irrealidade.

Muwafaq al-Taei, um arquiteto e ex-morador daqui, pensou sobre a descrição antes de decidir por conta própria.

“Um estado de espírito”, definiu al-Taei.

Os militares norte-americanos se retiraram dos nove últimos postos para os quais haviam enviado suas tropas neste trecho desordenado de território que eles demarcaram depois de derrubar Saddam Hussein em abril de 2003. A ação bastante simbólica é mais uma entre várias no mesmo ano, à medida que os Estados Unidos retiram todas os soldados, exceto 50 mil, até o final do verão.

“Outro capítulo”, disse o major general Stephen Lanza, porta-voz dos militares norte-americanos.

Mas a mudança de estado de espírito em relação à Zona Verde também revela uma característica do Iraque de hoje, onde o calor do verão é tão intenso quanto as frustrações das pessoas. O país ainda está sem governo quase três meses depois que os eleitores foram às urnas para escolher um. As pessoas ficam ansiosas enquanto os políticos falam (e falam, e falam), e a Zona Verde – por muito tempo uma ideia e não só um lugar – torna-se mais um símbolo num país que ainda não é propriamente um Estado.

“Ela sempre foi o lugar do poder de alguém”, disse al-Taei.

O faixa ao longo do rio Tigre representa autoridade desde que o rei Ghazi procurou apoio ao falar para seus súditos em sua estação de rádio no Palácio Al Zuhour, que ele construiu em 1936. Hoje existem muitos mais palácios lá, embora os antigos nomes tenham caído. Alguns ainda se referem à zona como Karradat Mariam, batizada assim por causa de um santo enterrado atrás de suas barricadas de concreto. Poucos se lembram do nome Vizinhança Legislativa, uma de suas primeiras incarnações.

Quase todo mundo a conhece pelo nome que os norte-americanos colocaram.

“Bem-vindo à Zona Verde”, diz uma placa em inglês, com tradução em árabe.

Ainda resta uma textura norte-americana ao lugar, onde os agentes da CIA bebiam no seu próprio bar com móveis de rattan e crianças iraquianas com talento para colecionadores vendiam itens de Saddam Hussein. (Relógios decorados com seu retrato estavam entre os objetos favoritos.)

Latas vazias de bebidas energéticas como Wild Tiger e TNT Liquid Dynamite sujam as ruas. Contêiners enferrujados competem por espaço com barricadas de sacos velhos cheios de areia. As placas ainda estão em inglês: “Strictly No Stopping” diziam as barreiras de cimento onipresentes.

Verde é o apelido preferido para o local, até mesmo em árabe. Isso às vezes cria confusão uma vez que outro bairro de Bagdá tem o mesmo nome.

Uma questão inevitável costuma seguir a menção do nome: “A Verde deles ou a nossa Verde?”

Mas como al-Taei observou, dirigindo através da Zona Verde recentemente, passando pelos palácios que ele ajudou a construir: “A história do Iraque está aqui.”

“Cada prédio tem uma história”, disse ele, como símbolo ou de outra forma.

Al-Taei apontou para onde um ex-primeiro-ministro tentou escapar de seus captores vestido de mulher em 1958. Ele deu uma olhada no local onde os remanescentes da monarquia foram executados um dia antes. Ele apontou para o teatro onde Hussein, consolidando seu poder em 1979, leu os nomes de supostos traidores diante de uma assembleia. Os suspeitos de conspiração foram retirados um a um de suas cadeiras.

Através da janela, ele olhava para os palácios – Bayraq, Salam e outros – ainda devastados pelo bombardeio norte-americano, na época e agora emblemas da derrubada de um governo.

“O que Saddam construiu”, disse al-Taei.

A Zona Verde continuará sendo um artefato norte-americano da ocupação, mas ainda hoje, ela carrega as marcas de Hussein. Suas iniciais em árabe continuam em relevo nas paredes de pedra, nos tijolos gravados nos arcos magistrais de entrada ou nas curvas de portões de ferro. As espadas monumentais do Arco Vitória, só agora estão sendo derrubadas. O minarete de oito lados que ele considerava seu próprio estilo ainda fica do lado de uma mesquita construída com os formatos de uma aula de geometria para crianças.

Nisso tudo, a Zona Verde talvez seja outra metáfora, além do legado do poder norte-americano. Os Estados Unidos conseguiram esmagar o governo de Hussein. Mas o que ele ajudou a construir no seu lugar continua rudimentar, cheio de ruínas do passado.

“A rua lá é escura, e só Deus pode guiá-lo”, falou um comerciante que disse se chamar Abu Hussein, numa loja do outro lado da rua da entrada da Zona Verde.

Ele quis dizer que ninguém sabe o que acontece lá dentro.

“Eles não ouviram nenhuma reclamação do povo”, diz ele, sentado diante de um ventilador que soprava o ar quente. “Nenhum oficial deu a mínima atenção para qualquer cidadão daqui.”

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Ele tinha mais queixas. Assim como al-Taei. Assim como a maioria das pessoas na rua – desde o tráfego impedido pelos checkpoints ao longo das entradas da Zona Verde até a exigência de distintivos, ou “badjat”, para entrar nas ruas da área, grandes o suficiente para uma parada militar.

Algumas das reclamações foram ouvidas em 2003, quando o verão chegou e os oficiais norte-americanos tentaram desajeitadamente acessar os problemas de blecautes, falta d'água, crime e violência, enquanto relembravam os iraquianos de que eles teriam uma amostra de liberdade.

Desta vez, as reclamações foram contra o primeiro-ministro Nuri Kamal al-Maliki e outros oficiais que moram na Zona Verde. O egoísmo foi um insulto comum; os outros foram mais duros. Ninguém esperava que eles formasse um governo logo. Especialistas sugeriram que isso pode ter que esperar até outubro.

“Se você é vizinho de al-Maliki lá, então talvez consiga encontrar um emprego”, disse Farouk Talal, 27, empregado de uma loja de telefones celulares. “Do contrário, não.”

No fim da rua, Haider Kadhem chamou a área de “outro país”.

“Somos um Iraque; você pode dizer que a Zona Verde é outro Iraque”, disse. “Um distintivo é um passaporte, e se você não tem um passaporte, não pode entrar naquele país.”

Tradução: Eloise De Vylder

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