UOL Notícias Internacional
 

10/06/2010

Al Maliki, primeiro-ministro do Iraque, diz que o país precisa de um líder forte como ele

The New York Times
Anthony Shadid
Bagdá (Iraque)
  • O primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, durante entrevista coletiva na cidade de Najaf, no Iraque. Ele afirma que é o único nome indicado pelo seu partido para fazer parte do próximo governo

    O primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, durante entrevista coletiva na cidade de Najaf, no Iraque. Ele afirma que é o único nome indicado pelo seu partido para fazer parte do próximo governo

O primeiro-ministro Nouri al Maliki, lutando por seu futuro político em uma disputa confusa, que já dura meses, para formação de um novo governo aqui, alertou na quarta-feira que um fracasso em reconduzi-lo ao poder poderia levar o Iraque a um mergulho na violência e no conflito sectário que dominaram o país quando ele assumiu em 2006.

Às vezes confiante e brincalhão, ocasionalmente combativo, Al Maliki disse em uma entrevista que resistiria aos esforços para reduzir sua autoridade caso retornasse. Apenas um líder forte, ele insistiu, poderia enfrentar os desafios que aguardam um país que se prepara para a retirada militar americana e que ainda é acossado pelo que restou da insurreição.

Os comentários de Al Maliki foram desafiadores, até mesmo teimosos, e ressaltaram uma das questões mais importantes na crise que se seguiu após as históricas eleições parlamentares do Iraque, em março, e as consequentes negociações prolongadas para formação do próximo governo: em um país com histórico de ditadura, quanto poder o primeiro-ministro deve ter?
 


“Eu não serei um primeiro-ministro com função de guarda de trânsito –‘Vocês podem ir agora’, ‘Vocês podem vir’”, disse Al Maliki em seu gabinete, onde ele chefia um governo interino. “Ou serei um primeiro-ministro, de acordo com a Constituição, ou não.”

Destituir o primeiro-ministro de poderes, ele disse, “levaria a um enfraquecimento do controle sobre o país, e os responsáveis seriam culpados pelo seu colapso”.

A especulação em torno do retorno de Al Maliki, que completa 60 anos neste mês, manteria qualquer apostador de Las Vegas ocupado. Sua notável ascensão de uma relativa obscuridade, com uma mistura de impetuosidade e decisão, lhe assegurou apoio popular e uniu grande parte da classe política contra ele.

As 89 cadeiras que ele conquistou entre as 325 do Parlamento ficaram aquém das estimativas de seus assessores. Superados por uma coalizão secular e sunita liderada por Ayad Allawi, um ex-primeiro-ministro, ele e seus aliados passaram semanas tentando mudar sem sucesso os resultados, por meio de recontagens, contestações na Justiça e campanhas para desqualificar os candidatos vencedores.

Mas a política iraquiana atualmente é como uma casa de espelhos de parque de diversão, onde ninguém realmente acredita em ninguém, muito menos confia. Promessas são feitas nos termos mais vagos. “Não há nenhum tabu” é o mais próximo que alguém costuma chegar de um compromisso. O próprio mandato de Al Maliki – e a bagagem que cada um de seus rivais carrega– leva diplomatas e até mesmo seus detratores a sugerirem que um segundo mandato continua sendo bastante possível.

“Eu espero que sim”, disse Al Maliki sobre permanecer no poder.

 

O novo Parlamento se reunirá na segunda-feira, em uma sessão que será em grande parte simbólica, enquanto as coalizões de Al Maliki e Allawi disputam sobre quem tem o direito de formar o próximo governo. Allawi insiste que é ele, como maior recebedor de votos na eleição. Mas Al Maliki citou um parecer de tribunal, que daria esse direito a uma aliança formada com uma coalizão rival xiita, em maio. Juntas, elas ficam a apenas quatro cadeiras de uma maioria.

Mas essa nova aliança parece instável. As duas ainda nem mesmo conseguiram concordar em um nome para sua união, e Al Maliki pareceu reconhecer na quarta-feira que há problemas. Ele disse que as negociações ainda estavam em andamento com o que ele descreveu como “alguns elementos” da lista xiita rival, e sinalizou sua disposição de chegar a um acordo separado com a facção que por muito tempo se opôs mais veementemente a ele – os seguidores de Muktada al Sadr, um clérigo populista cujos candidatos ficaram em segundo lugar, atrás apenas dos de Al Maliki, entre os eleitores xiitas. “Passos estão sendo dados para se chegar a um acordo com os sadristas”, ele disse.

As conversações são complexas até mesmo para os padrões do Iraque, com sua mistura característica de íntimas e inflamáveis, onde as barganhas exibem uma tendência notável ao impasse. Rivais exteriormente amistosos costumam se conhecer há décadas, tendo compartilhado tempo no exílio.

Mas o que estão negociando provavelmente tenha valor mais alto do que em qualquer momento desde a derrubada de Saddam Hussein pelos Estados Unidos, em 2003. As questões variam do destino da cidade disputada de Kirkuk até o próprio poder do primeiro-ministro e de seu Gabinete.

Alguns políticos sugeriram que aprovariam a continuidade de Al Maliki apenas se ele concordasse em ceder parte do poder do primeiro-ministro para seu Gabinete. Al Maliki já se queixou no passado de que seu posto já carecia de autoridade –devido a um Gabinete que responde aos partidos individuais e não a ele. Na entrevista, ele rejeitou mais restrições, sugerindo que qualquer concessão seria difícil.

“Todo país precisa de um líder forte, mas especificamente o Iraque, por causa de todos os seus problemas, desafios e por não ser estável”, disse Al Maliki, com seu tom ficando mais incisivo. “Se ele não for firme, ele se transformará em uma pena ao vento.”

Circunspecto, com um aspecto austero, Al Maliki conquistou apoio não por seu carisma, frequentemente ausente, mas pelo que o Iraque não é mais – um país atolado em uma guerra sectária, com partes de seu território governadas por insurgentes e sua capital perigosa demais para ser percorrida à noite. Seus admiradores respeitam seu modo decidido, crucial para lidar com os desafios do Iraque, segundo eles.
“Se o Estado for liderado por um líder fraco, os velhos tempos voltarão, eu temo”, ele disse.

Mas a disposição de Al Maliki de testar os limites de sua autoridade, ao acumular poder em suas mãos e enviar os militares contra as milícias e até mesmo contra seus próprios rivais, enfureceu muitos. Seus críticos argumentam que ele é excessivamente isolado por um pequeno círculo de assessores, propenso a suspeita e dado a tratar as disputas como sendo pessoais. Sua animosidade em relação a Massoud Barzani, o presidente curdo, é conhecida; ele não se encontra com Allawi há anos.

Na entrevista, ele falou de forma sombria sobre as intenções dos países vizinhos; eles estão interferindo em todos os partidos, exceto o dele, ele disse. Arábia Saudita, Síria, Jordânia, Turquia e Irã, todos fazem fronteira com o Iraque, apesar de Al Maliki ter se recusado a apontar qualquer um deles. (Os Estados Unidos, ele disse, “são mais como observadores do que alguém interferindo neste processo”.)

Apesar do que alguns consideraram como demagogia de Al Maliki, ao incitar os sentimentos antibaathistas antes da eleição, ele culpou seus rivais sunitas e seculares por explorarem o sectarismo, encorajados, segundo ele, por esses mesmos países estrangeiros.

Mas em um momento franco, ele reconheceu sua própria decepção com a eleição e com um país onde as escolhas políticas ainda são ditadas pela identidade.

“Nós pensávamos ter conseguido erradicar bem mais o sectarismo do que realmente conseguimos”, disse Al Maliki. Lamentavelmente, ele disse, a eleição fez o Iraque voltar ao início.
 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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