UOL Notícias Internacional
 

11/06/2010

EUA acreditam que sanções ao Irã têm efeito limitado

The New York Times
David E. Sanger
Washington (EUA)
  • Imagem mostra o Conselho de Segurança da ONU, que impôs nesta quarta-feira (9) novas sanções ao programa nuclear do Irã, que parte do Ocidente suspeita estar voltada para o desenvolvimento de armas atômicas

    Imagem mostra o Conselho de Segurança da ONU, que impôs nesta quarta-feira (9) novas sanções ao programa nuclear do Irã, que parte do Ocidente suspeita estar voltada para o desenvolvimento de armas atômicas

Ninguém na Casa Branca de Obama acredita que, por si só, a mais recente rodada de sanções contra as empresas dirigidas pelos militares do Irã, sua marinha mercante e suas instituições financeiras forçarão Teerã a suspender seu esforço de 20 anos para ter capacidade nuclear.

Então o que, exatamente, o presidente Barack Obama planeja fazer se, como todos esperam, essas sanções fracassarem, assim como as três anteriores?

Há um Plano B – na verdade, um Plano B, C e D – cujas partes já estão em andamento pelo Golfo Pérsico. O governo não fala muito sobre eles, pelo menos publicamente, mas eles incluem contenção militar à moda antiga, e uma operação conhecida na CIA como “Projeto Evasão de Cérebros”, para atrair para fora do Irã os talentos nucleares iranianos. Segundo todos os relatos, Obama intensificou um programa secreto da era Bush para minar a infraestrutura de armas nucleares do Irã, e tem feito um uso diplomático discreto da ameaça de Israel de empregar força militar caso a diplomacia e a pressão fracassem.

Entenda a polêmica envolvendo o programa nuclear do Irã

Especialistas acreditam que o Irã ainda não tem capacidade de fabricar sozinho as varetas de combustível necessárias para o reator de Teerã.

Mas ao perguntar aos autores e executores desses programas o que eles realmente acrescentam, a resposta inevitavelmente se resume a “não o suficiente”. Juntas, dizem as autoridades, eles podem atrasar o progresso do Irã rumo a uma arma nuclear, um programa que já se deparou com atrasos técnicos bem maiores do que qualquer um esperava. Caso a pressão aumente, o Irã poderia ser forçado a sentar à mesa de negociação, o que ele tem evitado desde que Obama chegou ao governo oferecendo um diálogo.

Mas até mesmo Obama, em sua descrição mais triste do que furiosa na quarta-feira sobre o motivo da diplomacia ainda não ter surtido em nada, reconheceu que “nós sabemos que o governo iraniano não mudará seu comportamento da noite para o dia” e descreveu como as sanções na verdade criariam “custos cada vez maiores”.

Essa avaliação soa como a combinação agora familiar de pragmatismo e paciência que Obama transformou em marca de sua política externa. Mas no caso do Irã, ele está correndo contra o relógio. Como Obama notou em abril, assim que o Irã passar de certo ponto, seria impossível saber quando ele alcançaria os passos finais para fabricação de uma arma.

Na quinta-feira, o Irã respondeu às novas sanções ameaçando esconder ainda mais seu programa nuclear da supervisão internacional, ao rever seu relacionamento com a agência de vigilância nuclear da ONU. A televisão estatal citou Alaeddin Boroujerdi, o chefe do Comitê de Segurança Nacional e Relações Exteriores no Parlamento iraniano, como tendo dito que os parlamentares se reuniriam no domingo para “buscar uma legislação visando reduzir” as relações do Irã com a Agência Internacional de Energia Atômica.

Alguns altos funcionários no Pentágono e nas agências de inteligência dizem que se perguntam se a Casa Branca realmente discutiu a questão de quão longe pode ser permitido que o Irã vá e que tipo de riscos Obama está disposto a correr além das sanções.

“Não é o tipo de pergunta que você ganha muitos pontos por fazer”, disse um alto funcionário que participou de muitos dos debates a respeito das opções de Obama, “por que assim que você traça uma linha na areia, você precisa decidir como vai agir quando os iranianos a atravessarem”.

A necessidade de confrontar essas decisões parece ter sido a mensagem por trás de um memorando secreto que o secretário de Defesa, Robert M. Gates, enviou para a Casa Branca em janeiro, na qual fez perguntas sobre as táticas e estratégias em caso da quarta rodada de sanções ser insuficiente. Apesar de Gates ter dito posteriormente que o memorando foi um esforço rotineiro de olhar à frente, alguns funcionários o interpretaram como uma forma de forçar um debate sobre as questões mais difíceis.

Sanções são ferramentas tentadoras para qualquer presidente. Elas impõem mais dor do que não fazer nada ou do que o ritual de emitir as condenações diplomáticas, mas não chegam nem perto de um confronto militar. Infelizmente, quando se trata de impedir países de terem a bomba, a história sugere que raramente são eficazes.

Washington jurou por anos que impediria a Índia e o Paquistão de ingressarem no clube nuclear e brevemente suspendeu a ajuda a eles. Atualmente ele trabalha secretamente com o Paquistão na proteção de seu arsenal e assinou um tratado com a Índia autorizando o país a comprar material nuclear.

A Coreia do Norte está há anos sob sanções e na penúria; isso não a impediu de realizar dois testes nucleares rudimentares. Apesar de alguns países terem sido persuadidos a desistirem de suas armas ou sonhos de armas –África do Sul, Líbia e Coreia do Sul entre eles– as condições eram radicalmente diferentes do que as presentes no caso do Irã.

“As sanções, como estão configuradas agora, não terão qualquer impacto apreciável sobre o Irã”, disse Rolf Mowatt-Larssen, que monitorava programas nucleares para a CIA e para o Departamento de Energia antes de se transferir para a Universidade de Harvard, há dois anos. “Elas não vão funcionar. E a realidade é que não há uma opção militar mais viável.”

Os assessores de Obama dizem que sabem que as sanções são uma ferramenta limitada e que as opções militares são as últimas e mais arriscadas, de forma que eles têm procurado por outras.

Sistemas antimísseis controlados pelos Estados Unidos estão sendo posicionados discretamente nos países árabes do Golfo Pérsico. Esta é uma contenção clássica, mas de pouca ajuda contra o programa nuclear. Apesar do Irã contar com um crescente arsenal de mísseis convencionais, os especialistas da inteligência acreditam que o país levará anos até que possa ser capaz de fazer uma arma nuclear que possa ser colocada no topo de um míssil. O temor deles é que a arma possa ser entregue ao Hamas ou ao Hizbollah por caminhão, uma ameaça contra a qual os sistemas antimísseis são inúteis.

O governo continua apoiando os grupos de oposição no Irã, mas está caminhando com cuidado por temer que pareça estar interferindo na política interna iraniana. Na quinta-feira, o senador John McCain defendeu novamente uma mudança de regime, mas foi cuidadoso ao dizer que precisaria ser “uma mudança pacífica, escolhida e liderada pelo povo iraniano”. Este é um tipo de mudança cujo momento a Casa Branca não tem como controlar.

O programa de “evasão de cérebros” tem atraído desertores do país, às vezes com notebooks cheios de dados sobre o progresso do Irã. Um dos mais recentes desertores apareceu recentemente no YouTube, primeiro alegando que tinha sido sequestrado, depois dizendo que era apenas um estudante estudando nos Estados Unidos. Há pouca dúvida de que ele fazia parte do programa, mas muitas dúvidas permanecem sobre o quanto ele sabia e como isso poderia ajudar os Estados Unidos.

“O principal efeito é psicológico”, disse um ex-funcionário de inteligência. “Ele diz aos iranianos que estamos dentro de seu programa.”

Assim como o esforço secreto para sabotar equipamentos, atrasando a capacidade do Irã de produzir combustível nuclear. Acredita-se que ele tenha tido alguns sucessos. Mas, assim como as sanções, é improvável que esse esforço faça mais do que atrasar o dia do julgamento, a menos que Obama tenha sorte.

 

*Alan Cowell, em Paris (França), contribuiu com reportagem.
 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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