UOL Notícias Internacional
 

11/06/2010

Norte-coreanos que fogem do país narram a miséria escondida pelo regime ditatorial de Kim Jong-il

The New York Times
Sharon La Franiere*
Em Yanji (China)

O operário de construção norte-coreano vivia na penúria. Seu empregador público não lhe pagava há tanto tempo que ele tinha esquecido seu salário. Na verdade, ele pagava ao seu chefe para ser um funcionário fantasma, para que pudesse deixar seu local de trabalho. Então ele e sua esposa poderiam ganhar seu sustento vendendo pequenos sacos de detergente no mercado negro.

Parecia difícil que a vida pudesse piorar. Mas então, em uma tarde de sábado de novembro, sua irmã entrou em seu apartamento em Chongjin com notícias chocantes: o governo norte-coreano tinha decidido desvalorizar drasticamente a moeda do país. As economias da família, algo equivalente a US$ 1.560, foram reduzidas ao equivalente a US$ 3.

No mês passado, o operário, sentado em um esconderijo nesta movimentada cidade no norte da china, lamentava os anos de sacrifício em vão. Legumes para seus pais, medicamento para a asma de sua esposa, o agasalho esportivo que sua filha de 15 anos desejava –tudo foi negado com base na teoria de que, mesmo na Coreia do Norte, vale a pena poupar para o futuro.

“Ai!” ele exclamou, xingando entre gemidos. “O quanto trabalhamos para poupar aquele dinheiro! Só de pensar a respeito me deixa louco.”

Os norte-coreanos estão acostumados a dificuldades e decepções. Mas a desvalorização da moeda em 30 de novembro, aparentemente uma tentativa de escorar uma economia estatal em dificuldades, foi para alguns o pior desastre desde a fome que matou centenas de milhares em meados dos anos 90.

Entrevistas no mês passado com oito norte-coreanos que deixaram recentemente o país –um fugitivo da prisão, contrabandistas, pessoas em exílio temporário para encontrar emprego na China, a esposa em viagem de um membro do Partido dos Trabalhadores governista– pintam um retrato assustador de desespero dentro da Coreia do Norte, uma nação de 24 milhões de pessoas, e do crescente ressentimento em relação ao seu líder errático, Kim Jong-il.

O que parece ausente –ao menos por ora– é instabilidade social. As dificuldades disseminadas, a revolta popular com a desvalorização da moeda e a crescente incerteza política enquanto Kim busca transferir o poder para seu terceiro filho não se transformaram em uma resistência notável contra o governo. Pelo menos dois dos entrevistados repetiram a propaganda oficial de que a Coreia do Norte é vítima de inimigos obstinados, sua pobreza um plano do Ocidente, que sua sobrevivência é ameaçada pelos Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão.

A acusação pela Coreia do Sul de que a Coreia do Norte afundou um de seus navios de guerra, o Cheonan, em março, é apenas parte da trama, disse a esposa do membro do partido.

“É por isso que temos armas para nos protegermos”, ela disse enquanto visitava parentes no norte da China –e ganhava um dinheiro extra como garçonete. “Nossos inimigos estão nos atacando por todos os lados, e é por isso que carecemos de eletricidade e boa infraestrutura. A Coreia do Norte deve manter suas portas fechadas.”

Outros se mostraram mais céticos com a propaganda do governo, mas ainda consideram uma guerra como sendo inevitável.

“Nós estamos sempre aguardando pela invasão”, disse uma ex-professora de escola primária. “Meu filho diz que deseja que a guerra chegue, porque a vida é difícil demais e nós provavelmente morreremos de qualquer forma de fome.”

Eles e outros norte-coreanos falaram apenas sob a condição de anonimato, em conversas em grande parte arranjadas pelas igrejas clandestinas que operam na China, no outro lado da fronteira. Se fossem identificados como viajando ou trabalhando ilegalmente na China, eles poderiam ser deportados e presos, assim como seus parentes.

Aproximadamente metade dos entrevistados disse que planeja voltar à Coreia do Norte; a outra metade espera desertar para a Coreia do Sul.

Em muitos detalhes, seus relatos, feitos separadamente, se encaixam. Eles também reforçaram as descrições dos economistas e analistas políticos de um país abatido.

Uma economia em retração

Citando fotos aéreas de chaminés sem fumaça, os economistas dizem que aproximadamente três entre quatro fábricas norte-coreanas estão inativas. A economia está em retração desde 2006, quando Kim Jong-il se retirou das negociações multilaterais visando encerrar seu programa de armas nucleares. O afundamento do Cheonan abalará ainda mais a economia: a Coreia do Sul suspendeu quase todo o comércio, privando o Norte dos US$ 333 milhões por ano em vendas de peixes, frutos do mar e outras exportações.

Quando a Península Coreana foi dividida em 1945, a Coreia do Sul era mais pobre do que sua vizinha. Atualmente, seu trabalhador ganha em média 15 vezes mais do que um norte-coreano, segundo dados corrigidos pelo custo de vida. O número de desertores que chegam pela China à Coreia do Sul tem crescido constantemente ao longo da última década, chegando a quase 3 mil no ano passado.

As taxas de mortalidade infantil e materna cresceram pelo menos 30% de 1993 a 2008, e expectativa de vida caiu em três anos, para 69 anos, no mesmo período, segundo os números do censo norte-coreano e do Fundo de População das Nações Unidas.

O Programa Alimentar Mundial da ONU diz que 1 entre 3 crianças norte-coreanas com menos de 5 anos é desnutrida. Mais de 1 entre 4 pessoas precisa de ajuda alimentar, diz a agência, mas apenas 1 entre 17 a receberá neste ano, em parte porque os doadores relutam em enviar ajuda a um país que insiste em desenvolver armas nucleares.

A desvalorização da moeda apenas ampliou o sofrimento. Sua meta era desviar a receita da vasta economia clandestina norte-coreana –seus mercados de rua– para as empresas públicas sem dinheiro.

Os mercados são a única fonte de renda para muitos norte-coreanos, mas eles são uma afronta ao credo do governo de socialismo econômico. Teoricamente, todos, exceto os menores, idosos e mães de crianças pequenas, trabalham para o Estado. Mas as empresas estatais estão definhando há 30 anos, e os norte-coreanos fazem tudo o que podem para escapar de trabalhar nelas.

Os agricultores cuidam de seus próprios jardins enquanto ervas daninhas tomam as fazendas coletivas. Os trabalhadores urbanos faltam em seus empregos públicos para mascatearem de tudo, de metal retirado das fábricas desativadas até televisores contrabandeados da China.

“Se você não praticar o comércio, você morre”, disse a ex-professora, uma mulher de 51 anos com rosto redondo e rabo-de-cavalo. Ela passou de uma funcionária pública obediente a uma comerciante fora-da-lei, mas mesmo assim não conseguiu escapar de sua situação difícil.

Famintos demais para estudar

Ela lecionou por 30 anos em uma escola primária em Chongjin, a terceira maior cidade da Coreia do Norte, com aproximadamente 500 mil habitantes. O que antes era um emprego de período integral se transformou em um de meio expediente em 2004: as escolas passaram a fechar ao meio-dia. Pelo menos 15 de seus 50 alunos abandonaram os estudos ou partiam após uma hora, famintos demais para poderem estudar.

“É muito difícil ensinar uma criança com fome”, ela disse. “Até mesmo sentar em uma carteira é difícil para elas.”

Os professores também passavam fome. Seu salário mensal mal comprava um quilo de arroz, ela disse. Com formação universitária, ela retirou sua própria filha da terceira série em 1998, a enviando para uma vizinha para aprender a costurar.

Ela abandonou seu emprego na escola em 2004 para vender macarrão de milho no principal mercado de Chongjin, um espaço de barracas com cobertura de plástico com metade do tamanho de um quarteirão da cidade, onde os comerciantes vendem principalmente produtos chineses, incluindo pasta de dente, agulhas para costura e DVDs das novelas sul-coreanas proibidas.

Mas o macarrão mal dava lucro, então ela tentou um comércio mais arriscado envolvendo produtos controlados pelo Estado: pinhão e frutas vermelhas utilizadas em um chá popular. Esse esquema ruiu em outubro. Após ela e seus sócios terem colhido 17 sacas de produtos de uma aldeia, um guarda em uma barreira confiscou todas elas em vez de aceitar suborno para deixar que passassem. Ela ficou com o equivalente a US$ 300 em dívidas.

Como ela, o operário de construção, um homem magérrimo de 45 anos com boa cabeça para números, decidiu que o empreendimento privado era a única salvação de sua família. Mas como homem, era mais difícil para ele se livrar de seu trabalho.

No papel, ele disse, uma construtora estatal de Chongjin o emprega. Mas a empresa possui pouco material de construção e não tem dinheiro para pagar seus funcionários. Assim, como mais de um terço dos trabalhadores, disse o operário, ele paga cerca de US$ 5 por mês para que um funcionário registre sua presença na empresa, para que ele possa trabalhar em outro lugar.

Esses pagamentos, comuns nas empresas estatais menores, supostamente mantêm as empresas solventes, disse uma mulher de 62 anos que é comerciante em Chongjin. Até mesmo uma empresa grande, como a usina de aço da cidade, não paga salários desde 2007, disseram ela e outros, apesar de seus operários receberem o equivalente a 10 dias de rações alimentares por mês.

“Como as empresas sobreviveriam se não recebessem o dinheiro dos trabalhadores?” ela perguntou sem ironia.

Recentemente, a empresa do operário de construção se tornou mais ativa. O Estado resolveu recuperar a única rua pavimentada de Chongjin e construir um hospital e uma universidade para o centenário em 2012 do nascimento de Kim Il-sung, o pai de Kim Jong-il e fundador da Coreia do Norte.

Mas a onda de projetos teve um custo: cada família foi obrigada a entregar 17 sacos de pedras todo mês para seu comitê local do partido. O operário de construção pediu aos seus pais idosos que procurassem em leitos de córregos e campos por pedras que a família quebrava à mão em pedras do tamanho de uvas.

Sem um salário do Estado, ele ganha dinheiro com sua inteligência. Todo mês de outubro, ele vende lulas pescadas com um barco que ele pilota nas águas costeiras traiçoeiras. Em outros meses, ele pedala cerca de 30 quilômetros à procura de bens para vender, geralmente detergente comprado de uma fábrica que é revendido por sua esposa com ágio de 12% em uma lona estendida do lado de fora do mercado principal.

O governo periodicamente tenta intervir nos mercados, regulando preços, horas, tipos de bens vendidos, idade e sexo dos comerciantes e até mesmo se transportam seus produtos de bicicleta ou nas costas.

Economias dizimadas

Em um comunicado de 2007 do Comitê Central, Kim Jong-il se queixou de que os mercados se transformaram em “um berço de todo tipo de práticas não-socialistas”. A desvalorização da moeda em 30 de novembro os virou do avesso. O Estado decretou que um novo won, mais valioso, substituiria o velho won, mas que as famílias poderiam trocar apenas 100 mil wons, aproximadamente US$ 35 segundo a cotação do mercado paralelo, pelo novo. A medida na prática eliminou as reservas privadas de dinheiro.

Para amortecer o golpe, dizem os trabalhadores, lhes foi prometido que seus salários seriam restaurados caso retornassem aos seus empregos públicos. Na verdade, disseram o operário de construção e outros, eles receberam um mês de salário, em janeiro, antes dos salários desaparecerem novamente.

Alguns com contatos políticos evitaram o pior. Uma mulher de Hamhung, a segunda maior cidade da Coreia do Norte, disse que o diretor do banco local permitiu que seus parentes trocassem 3 milhões de wons, 30 vezes o limite oficial.

A esposa do membro do partido, com o cabelo levemente encaracolado, uma bolsa de grife pirata ao seu lado, se gabou de sua casa de seis cômodos com dois televisores coloridos e um jardim. Em seguida, ele elogiou a desvalorização como uma punição merecida para aqueles que tentaram enganar o Estado, apesar dela ter reconhecido que isso levou ao caos e ter lembrado que um alto funcionário financeiro foi executado devido à política.

“Muita gente ruim enriqueceu por meio do comércio ilegal com a China, enquanto boas pessoas nas empresas estatais não tinham dinheiro suficiente”, ela disse. “Assim, os abastados perderam para os destituídos.”

A ex-professora deu tudo o que tinha. Após seus credores a despojarem de todo seu dinheiro, ela disse, ela atravessou a pé o congelado Rio Tumen à noite e entrou na China em busca de ajuda de seus parentes que vivem lá. Faminta e apavorada, ela bateu aleatoriamente às portas até que um estranho a ajudasse a contatá-los.

Agora segura no lar de seus parentes, ela disse, ela se maravilha em como eles desfrutam de iguarias como pepinos no inverno. Mas abandonar temporariamente seu filho e filha, ambos na faixa dos 20 anos, a deixa tão tomada de culpa que às vezes ela nem consegue engolir os alimento diante dela. “Eu não sei se meus filhos conseguiram algum dinheiro ou se morreram de fome”, ela disse, com os olhos cheios de lágrimas.

Para o operário de construção, a notícia da desvalorização dada por sua irmã provocou uma corrida para tentar salvar o pé-de-meia da família. Ele esvaziou a gaveta do armário na sala de estar onde guardavam suas economias e dividiu com sua esposa e filha, dizendo: “Comprem o que conseguirem, o mais rápido que puderem.”

Os três correram furiosamente de bicicleta até o mercado de Chongjin. “Era como um campo de batalha”, ele disse. Milhares de pessoas tentavam freneticamente dar um lance mais alto que as outras por produtos, em uma tentativa frenética de converter o dinheiro que logo não valeria nada em algo palpável. Alguns preços subiram 10.000%, ele disse, antes dos comerciantes encerrarem as atividades, percebendo que seus lucros logo também não valeriam nada.

Os três disseram que voltaram para casa com 30 quilos de arroz, uma cabeça de porco e 100 quilos de tofu. A filha do operário conseguiu comprar uma pequena tábua de corte e um par de calças usadas. Juntos, eles disseram, eles conseguiram gastar o equivalente a US$ 860 em itens que teriam custado menos de US$ 20 no dia anterior.

Sua filha tentou confortá-lo. “Pai, eu guardarei essas calças até minha morte!” ela prometeu. Ele disse para ela que a tábua de corte seria seu presente de casamento.

“Naquele momento, eu realmente queria me matar”, ele disse. Ele gesticulou para a janela do esconderijo e para a noite de Yanji, bem iluminada e com tráfego agitado. “Não é como aqui”, ele disse. “Aqui não é grande coisa ganhar dinheiro. Lá, é sofrimento e sofrimento; sacrifício e sacrifício.”

Ele disse que não conseguia dormir noite após noite, fixado no agasalho esportivo que sua filha queria. Ela dizia que ele era muito melhor que o suéter de inverno e as calças comuns que ela usava. Ele a dissuadiu, porque os mais baratos custavam quase US$ 15. Quando ela insistiu demais no assunto, ele xingou e gritou: “As pessoas nesta casa precisam comer primeiro!”

“Eu não posso descrever quão terrível me sinto por não tê-lo comprado para ela”, ele disse, com voz trêmula.

Um isolamento profundo

Os norte-coreanos que nunca cruzaram a fronteira não têm como ter ideia de suas tribulações. Não há Internet. Os aparelhos de rádio e televisão são soldados para receberem apenas os canais do governo. Até mesmo a esposa do membro do partido não tem telefone e lamenta sua falta de contato com o mundo exterior. Sua primeira pergunta para o estrangeiro foi: “Eu sou bonita?”

Lentamente, entretanto, a informação está entrando. Os mercadores voltam da China e relatam que as pessoas são mais ricas e comparativamente mais livres lá, e que os sul-coreanos supostamente são ainda mais. Alguns dos celulares dos comerciantes são ligados à redes de telefonia móvel chinesas, que podem ser camufladamente emprestados por taxas exorbitantes.

A punição por assistir filmes e programas de televisão estrangeiros é pesada. O comerciante disse que um vizinho de 35 anos passou seis meses em um campo de trabalhos forçados no ano passado, após ser pego assistindo “Dragões em Dose Dupla”, um filme de ação cômico de Hong Kong estrelado por Jackie Chan. Para desalento da ex-professora, seu filho de 26 anos corre riscos semelhantes.

Sua irmã é casada com um funcionário do governo na capital, Pyongyang, ela disse, mas nenhum deles é fã de Kim Jong-il. Em sua visita mais recente, ela disse, sua irmã sussurrou para ela: “As pessoas o seguem por medo, não por amor”.

Desde a desvalorização da moeda, ela e outros disseram, as pessoas estão claramente mais ousadas nesses comentários.

“Agora, no mercado, as pessoas falam tudo”, disse o operário de construção. “Elas dizem que o governo é ladrão –mesmo em plena luz do dia.”

Sua esposa não era uma delas. Por semanas após a desvalorização, ele disse, ela ficou deitada na esteira no chão da sala de estar, imobilizada pela depressão. “Eu não tinha força para dizer nada para ela”, ele disse.

Finalmente, ele disse para que ela se levantasse. Era hora de recomeçar.

*Su-Hyun Lee, em Seul (Coreia do Sul), contribuiu com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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