UOL Notícias Internacional
 

13/06/2010

Estradas da Índia são as campeãs mundiais em mortes por acidente

The New York Times
Heather Timmons e Hari Kumar
Em Nova Déli (Índia)
  • Motoristas enfrentam o trânsito em Nova Déli, na Índia

    Motoristas enfrentam o trânsito em Nova Déli, na Índia

A Índia vive em seus vilarejos, disse Mohandas K. Gandhi. Mas cada vez mais, as pessoas estão morrendo nas estradas da Índia.

A Índia ultrapassou a China e passou para o primeiro lugar entre os países com o maior número de acidentes fatais nas estradas em 2006, e continuou subindo constantemente – apesar de ter uma população rural grande, menos pessoas do que a China e menos carros do que muitos países ocidentais.

Enquanto as mortes nas estradas em muitos outros países emergentes decresceram ou se estabilizaram nos últimos anos, mesmo com um aumento drástico na venda de veículos, as mortes na Índia cresceram de forma desproporcional – em até 40% em cinco anos, e chegaram a mais de 118 mil em 2008, o último ano com dados disponíveis.

Uma combinação letal de falta de planejamento das estradas, pouca fiscalização da lei, um aumento de carros e caminhões, e uma inundação de motoristas sem treinamento adequado transformaram a Índia na capital mundial da morte nas estradas. Enquanto a economia em rápido crescimento e a população gigante do país aumentam a importância da Índia no cenário mundial, o crescimento do número de mortes é uma lembrança de que o governo ainda tem problemas para manter os mais de um bilhão de habitantes em segurança.

Na China, por outro lado, que também passou por uma explosão do número de automóveis, as mortes nas estradas caíram durante a maior parte da última década, para 73.500 em 2008, à medida que novas estradas separam os carros dos pedestres, tratores e outros tipos de tráfego lento, e o governo toma severas medidas contra os motoristas alcoolizados e outras violações.

Evidências de acidentes nas estradas parecem estar por toda parte na Índia urbanizada.

As estradas e cruzamentos das cidades costumam brilhar com os pedaços de vidro de parabrisas quebrados, e são repletos de pés de sapato sem seu par, bancos de bicicleta rasgados e pedaços de capacetes de motociclistas. Histórias de caminhões que capotam e ônibus em alta velocidade são comuns nos jornais, e é raro conhecer alguém na Índia urbanizada que não perdeu nenhum membro da família, amigo ou colega em um acidente de trânsito.

O perigoso estado das estradas indianas representa uma “falha total por parte do governo da Índia”, diz Rakesh Singh, cujo filho de 16 anos, Akshay, morreu atropelado no ano passado por um caminhão fora de controle em Bijnor, no estado de Uttar Pradesh, enquanto caminhava à beira da estrada para ir a um casamento.

O caminhão esmagou Akshay de tal forma que seu pai só foi capaz de identificá-lo pela camisa. E então o caminhão atropelou outro homem e foi embora.

A direção negligente e a mistura de pedestres e veículos em alta velocidade é algo comum. As vias expressas que vão de Déli para Grande Noida, uma cidade satélite em rápido crescimento, cortam áreas agrícolas intercaladas por novos parques industriais e shopping centers. Pequenas aglomerações de cabanas se estendem à beira da estrada.

Recentemente, um trator que carregava cascalho estava dirigindo na contramão, um caminhão de leite parou na estrada para que o motorista pudesse urinar e os carros tiveram que desviar para evitar uma bicicleta que carregava mesas de madeira na faixa de trânsito rápido. Motoristas falavam ao celular enquanto mudavam de faixa e dirigiam seus carros de câmbio manual. Os espelhos retrovisores com frequência estavam virados ou simplesmente não existiam.

Um grupo de mulheres de saris carregando crianças pequenas esperava ansiosamente por uma brecha no trânsito para atravessar correndo a via. Jovens vestidos para trabalhar atravessavam na outra direção.

Os problemas na segurança nas estradas têm muitas causas, dizem os especialistas. Com frequência, falta policiamento para fazer cumprir as leis ou a polícia aceita propina para ignorá-las; a punição para os infratores é leniente, atrasada ou inexistente; e é fácil conseguir uma carteira de motorista através de suborno.

Kamal Nath, ministro do transporte rodoviário e estradas da Índia, disse numa entrevista que a segurança nas estradas é uma prioridade do governo nacional. O ministério está revendo o Ato de Veículos Motores e, três anos depois que um comitê apoiado pelo governo recomendou a instalação de um conselho para a segurança nas estradas, um projeto de lei foi apresentado ao Parlamento.

Especialistas internacionais em segurança dizem que o governo indiano tem demorado para agir. Reduzir as mortes nas estradas “exige um altíssimo nível de compromisso político”, diz Etienne Krug, diretor do departamento de prevenção de acidentes e violência na Organização Mundial da Saúde. O governo da Índia está “apenas acordando para o problema”, diz ele.

Nath, que foi ministro do comércio da Índia antes de passar para as estradas no ano passado, aumentou os planos de expansão das estradas, e está levantando US$ 45 bilhões de investidores privados para expandir 3,2 milhões de quilômetros de estradas. A expansão é importante para manter o crescimento da economia do país, que está em 9% ao ano, diz Nath.

Os planejadores do governo alertam que é pouco provável que as mortes sejam reduzidas em breve.

Quando as estradas são construídas, “sempre há mais acidentes”, diz Atul Kumar, gerente geral de segurança nas estradas do Departamento de Estradas Nacionais da Índia.

Kumar diz que embora seu departamento converse com os moradores locais antes de construir e expandir as estradas próximas a cidades e vilarejos, nem sempre consegue satisfazê-los. “Se aceitamos as demandas, teremos um túnel de passagem a cada quilômetro”, diz ele. Uma expansão precisa ser “viável para os investidores”, diz ele, e “as passagens e passarelas são caras”.

Mas em outros lugares – no Brasil, por exemplo – as novas estradas construídas por investidores privados têm menos mortes no trânsito do que as outras estradas.

As companhias privadas que constroem e administram as novas estradas na Índia dizem que às vezes suas mãos estão atadas. Em seu escritório com vista para um pedágio de 32 faixas, Manoj Aggarwal, diretor executivo de uma companhia de construção de estradas chamada Delhi-Gurgaon Super Connectivity, diz que vê centenas de violações de trânsito todos os dias, que ele não pode impedir.

“Olhe aquele homem no meio da estrada”, disse ele durante a entrevista, apontando para um pedestre que atravessava lentamente em meio ao tráfego. “Eu não posso multá-lo, não posso puni-lo”.

Em 2008, 73 pessoas foram mortas apenas neste trecho de 27 quilômetros de estrada, o que conferiu ao lugar o nome de Via Expressa para a Morte. O número de mortos caiu quando Aggarwal acrescentou medidas de segurança que não faziam parte de seu contrato com o governo.

Shivani, 15, recentemente foi parar num hospital com a perna direita fraturada e passou quatro dias em coma depois de tentar atravessar a rodovia. “Não sei o que aconteceu”, disse ela. “Eu estava tentando atravessar a estrada.”

Ela disse que tentou cruzar a rodovia movimentada para ir à escola, e não havia nenhuma faixa de pedestres, semáforo ou passarela.

O ortopedista Mathew Varghese diz que atende centenas de pacientes como Shivani todo ano. O governo da Índia está construindo “o crescimento econômico sobre os corpos dos pobres nessas estradas”, diz ele.

Manoj Gupta, consultor de Chandigarh, conta que sua mulher estava numa moto quando foi esmagada por um ônibus em alta velocidade há dois anos. O motorista do ônibus foi solto sob fiança alguns dias depois, diz Gupta. Agora ele para os motoristas imprudentes para contar sobre sua mulher, pedindo para que eles dirijam com mais cuidado.

“As pessoas não entendem o valor da vida aqui”, diz Gupta.

Tradução: Eloise De Vylder

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