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15/06/2010

Cultivo da coca dispara no Peru enquanto as autoridades priorizam repressão ao tráfico

The New York Times
Simon Romero
Tingo Maria (Peru)
  • Soldado perto de um carro pichado pelo grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, no Peru

    Soldado perto de um carro pichado pelo grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, no Peru

O cultivo da coca está disparando mais uma vez nos remotos vales tropicais deste país, em um fenômeno que faz parte de uma grande modificação na estrutura do tráfico de drogas andino, e que está fazendo do Peru um concorrente da Colômbia, capaz de superar esta última como o maior exportador de cocaína do mundo.

Os cartéis mexicanos e colombianos estão expandindo as suas ações no Peru, onde duas facções do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso já estão competindo pelo controle do tráfico de cocaína.

Os traficantes – fortalecidos pela constante demanda por cocaína nos Estados Unidos, no Brasil e em partes da Europa – estão frustrando os esforços para combater a ressurgência da droga aqui, e fazem com que aumentem as perspectivas de uma onda de violência ainda maior em um país que ainda se encontra traumatizado por anos de guerra.

“A luta contra a cocaína é algo que lembra uma tentativa de tentar conter o vento”, diz o general Juan Zarate, que comanda as campanhas de erradicação da coca no país.


O aumento da oferta no Peru faz com que seja possível perceber um dos aspectos mais embaraçosos da guerra contra as drogas na América Latina, uma iniciativa que é financiada pelos Estados Unidos, e que teve início quatro décadas atrás. Quando as forças de combate ao narcotráfico têm sucesso em um determinado local – conforme aconteceu recentemente na Colômbia, que recebeu mais de US$ 5 bilhões (R$ 9 bilhões) em auxílio financeiro norte-americano nesta década –, o cultivo da coca é transferido para outras áreas dos Andes.

Foi isso o que aconteceu na década de noventa, quando o cultivo da coca foi transferido para a Colômbia, após a implementação bem sucedida de projetos de erradicação no Peru e na Bolívia. Mais recentemente, os cultivadores de coca mudaram-se para dezenas de novas áreas no interior da Colômbia, depois que as autoridades pulverizaram plantações localizadas em outras áreas. Os especialistas na guerra contra o narcotráfico andino chamam isso de “efeito balão”, já que para eles esta guerra faz lembrar um balão de gás que apresenta um aumento de volume em um dos seus lados quando o lado oposto é apertado.

“A política de Washington caracterizada pela intervenção nos locais responsáveis pela oferta da droga faz com que, inevitavelmente, cresça a eficiência e a habilidade empresarial dos traficantes”, explica Paul Gootenberg, que escreveu o livro “Andean Cocaine” (“Cocaína Andina”).

O efeito balão – e as suas consequências – pode ser presenciado neste momento nos vales cobertos pela selva da região central do Peru, que é o centro da indústria da cocaína.

Em abril passado, uma facção do Sendero Luminoso, o grupo rebelde responsabilizado por dezenas de milhares de mortes no país de 1980 a 2000, durante a sua guerra contra o governo peruano, matou dois erradicadores de plantações de coca e um policial aqui nesta área.

Esta mesma região experimentou a primeira onda de produção de cocaína no século 19, depois que químicos alemães desenvolveram a fórmula para a fabricação da droga a partir das folhas da coca, o que gerou um comércio legal de cocaína que seguia para os Estados Unidos e a Europa. Sigmund Freud foi um dos primeiros usuários da cocaína.

Mas na década de setenta, quando a cocaína já era ilegal aqui e após o governo peruano ter proibido grande parte das novas plantações de coca no país, os chefes do narcotráfico colombiano criaram uma outra onda de narcotráfico, exportando folhas de coca peruana para laboratórios de cocaína do outro lado da fronteira. Mais tarde grupos de guerrilheiros do Sendero Luminoso passaram a proteger os cultivadores de coca na região, o que fez com que o Peru se consolidasse como o maior produtor da matéria prima para a fabricação da cocaína.

Na década de noventa, o presidente Alberto Fujimori militarizou a região a fim de esmagar o Sendero Luminoso, reduzindo a magnitude do cultivo da coca. Mas atualmente muitos cultivadores estão plantando coca novamente. “A coca nos permite alimentar os nossos filhos”, afirma Jacinta Rojas, de 45 anos, que cultiva coca perto de Tingo Maria, explicando que a coca pode ser colhida até cinco vezes por ano, enquanto o cacau só proporciona uma ou duas colheitas anuais.

A ressurgência do tráfico de cocaína no Peru está evidente em Tingo Maria, uma cidade movimentada que viveu maus momentos depois que o cultivo da coca despencou durante a década de noventa. Agora, uma grande quantidade de mototáxis circula pelas ruas, e pequenos hotéis e restaurantes atendem a fazendeiros ricos.

Nos clubes noturnos apresentam-se conjuntos peruanos que interpretam a cumbia, a música folclórica que veio da Colômbia, com letras que celebram e lamentam a trabalho árduo dos cocaleros, como são chamados os cultivadores da coca.
“Cocalero, as suas penelas estão vazias; cocalero, a sua mulher está chorando”, diz o trecho de uma música cantada por um grupo local de cumbia. “Mas continue plantando mais coca, e assim o dinheiro vai brotar”.

O aumento do cultivo da coca na região central do Peru contrasta com a situação na Colômbia, onde o cultivo caiu 18% desde 2008, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). No Peru, o cultivo aumentou 4,5% naquele ano, culminando a tendência de uma década na qual as áreas plantadas com coca aumentaram 45% a partir de 1998. O cultivo está crescendo também na Bolívia, embora aquele país continue sendo o terceiro na lista geral dos maiores produtores.

Chamando atenção para os minguados esforços no sentido de reprimir essa cultura no Peru, especialistas em combate ao narcotráfico em Lima afirmam que o Peru pode já ter ultrapassado a Colômbia no que se refere à exportação de cocaína. Uma análise das apreensões de cocaína na Colômbia e no Peru feita por Jaime Antezana, um analista de segurança da Universidade Católica do Peru, revelou que na Colômbia, que ainda cultiva mais coca e produz mais cocaína do que o Peru, as autoridades apreenderam cerca de 198 toneladas da droga em 2008, contra apenas 20 toneladas no Peru. Isso possibilitou que os traficantes peruanos tivessem capacidade de exportar 282 toneladas de cocaína, ou cerca de 50 toneladas a mais do que a capacidade estimada de exportação de cocaína da Colômbia, diz Antezana. “Se a atual tendência de cultivo continuar, nós poderemos superar a Colômbia como o maior produtor mundial de folhas de coca em 2011 ou 2012, o que nos fará regredir para a posição que ocupávamos na década de oitenta”, adverte Antezana.

O mais graduado assessor de políticas de combate a drogas do presidente Barack Obama, R. Gil Kerlikowske, anunciou em maio último um plano de combate aos entorpecentes que enfatiza a prevenção e o tratamento dos viciados nos Estados Unidos. Mas o governo norte-americano pouco modificou o financiamento dos projetos de erradicação das culturas da coca nos Andes, apesar de muita gente duvidar que tal medida seja capaz de reduzir drasticamente o suprimento de cocaína ou de provocar um aumento significativo do preço da droga nos Estados Unidos no longo prazo.

O auxílio norte-americano para o combate ao narcotráfico no Peru é de US$ 71,7 milhões (R$ 130 milhões) por ano, uma quantia ligeiramente maior do que os US$ 70,7 milhões (R$ 127,7 milhões) investidos no ano passado. As autoridades norte-americanas da área de combate ao narcotráfico operam em uma base policial peruana recém-ampliada aqui em Tingo Maria, supervisionando equipes peruanas que atuam nos vales próximos cortando manualmente os arbustos de coca.

“Nós vemos o tráfico de drogas no Peru como parte de um fenômeno regional e global”, afirma Abelardo A. Arias, o diretor do departamento de questões relativas a narcóticos da Embaixada dos Estados Unidos em Lima. “Em uma resposta à pressão policial em uma área, os cultivadores e os traficantes de drogas transferem as suas operações para novos territórios”.
O Peru utiliza parte da ajuda norte-americana para comprar capacetes e trajes especiais para proteção contra minas terrestres instaladas nesta região pela facção do Sendero Luminoso, que está competindo com uma outra facção guerrilheira pelo controle das áreas de plantação de coca, segundo oficiais militares peruanos. Uma outra parte do auxílio norte-americano vai para empresas contratadas como a DynCorp, que presta serviços de manutenção dos helicópteros que operam a partir de Tingo Maria.

A bordo de um desses helicópteros, o general Horacio Huivin, diretor da polícia antidrogas peruana, observou os campos de coca, a alguns minutos de voo de Tingo Maria. “Nós caímos em um círculo vicioso porque estamos erradicando plantações de coca nos mesmo locais em que nós fizemos tal erradicação no ano passado ou em anos anteriores”, conclui o general.

 

*Andrea Zarate, em Lima, contribuiu para esta matéria

Tradução: UOL

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