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16/06/2010

Documentos revelam a tomada de decisões arriscadas da BP antes da explosão da plataforma

The New York Times
Henry Fountain

Documentos internos da British Petroleum, incluindo uma mensagem de e-mail na qual o poço submarino perfurado pela Deepwater Horizon é chamado de um “pesadelo”, revelam um padrão de escolhas arriscadas feitas com o objetivo de poupar tempo e dinheiro nas semanas que antecederam a desastrosa explosão de 20 de abril, segundo uma carta enviado à companhia petrolífera pelos líderes de um comitê da câmara dos deputados dos Estados Unidos.

Os líderes do Comitê de Energia e Comércio da câmara dos deputados citam cinco áreas nas quais a companhia tomou decisões que “fizeram com que aumentasse o perigo ao perfurar um poço catastrófico”, incluindo a escolha do projeto para a perfuração, os preparativos e os testes para as obras com cimento e os testes para certificar-se de que o poço estava apropriadamente lacrado no topo.

Quando examinados em conjunto, os documentos consistem nos argumentos mais vigorosos até o momento atestando que a British Petroleum é em grande parte a responsável pela explosão catastrófica que matou 11 trabalhadores e provocou o vazamento – ainda não estancado – de milhões de litros de petróleo no Golfo do México.

Algumas das decisões parecem violar as diretrizes do setor e foram tomadas apesar de advertências de funcionários da própria British Petroleum e de empreiteiras contratadas, disse o presidente do comitê, o deputado Henry A. Waxman, democrata pelo Estado da Califórnia, e o deputado Bart Stupak, democrata pelo Estado de Michigan. Eles enviaram a sua carta ao diretor-executivo da British Petroleum, Tony Heyward, antes do depoimento que este irá prestar nesta semana perante o comitê.

Uma investigação sugere que os atrasos na conclusão das obras do poço “criaram uma pressão para que se procurassem atalhos”, diz a carta, e revela que etapas foram puladas na elaboração do projeto, na preparação e nos testes das obras com concreto e nos testes para garantir que o poço fosse apropriadamente lacrado no seu topo.

Anne Kolton, uma porta-voz da British Petroleum, diz que Hayward prestará uma declaração perante o comitê na próxima quinta-feira. Segundo o cronograma do comitê, a audiência ocorrerá junto ao Subcomitê de Supervisão e Investigações, que é presidido por Stupak.

“Tenho certeza de que essas questões serão abordadas na audiência”, afirmou Anne Kolton.

Os líderes do comitê disseram que pouco antes explosão, os engenheiros da British Petroleum escolheram um projeto mais barato para a tubulação de aço que reveste o poço. O design escolhido, que utilizou uma técnica denominada “tapered string”, custou entre US$ 7 milhões (R$ 12,6 milhões) e US$ 10 milhões (R$ 18 milhões) a menos do que um outro método. Mas a técnica escolhida proporcionaria menor proteção caso as obras com concreto fossem de qualidade inferior e se houvesse uma emissão de gás através do poço, disseram os parlamentares. A escolha do design de revestimento do poço havia sido revelada anteriormente pelo “New York Times”.

Em uma troca de mensagens de e-mail na semana anterior à explosão, engenheiros de perfuração da British Petroleum discutiram os planos para a tubulação de revestimento, sendo que um deles, Brian P. Morel, pediu que um outro engenheiro fizesse uma rápida revisão do diagrama esquemático. “Sinto muito por ter avisado tão tarde. Este poço tem sido um pesadelo que tem atrapalhado todo mundo”, escreveu Morel.

Segundo os dois parlamentares, tempo e dinheiro eram preocupações da empresa, já que as obras do poço estavam atrasadas. Um problema ocorrido em março obrigou a companhia a aplicar um “bypass”, uma técnica na qual perfura-se um outro poço próximo a uma área problemática. No dia da explosão, a Deepwater Horizon, alugada pela British Petroleum da Transocean por cerca de meio milhão de dólares (R$ 897 milhões) por dia, mais as taxas de contrato, acumulava um atraso de 43 dias para operar no seu próximo local de perfuração, disseram os líderes do comitê.

A escolha da técnica “tapered string” significou que o poço contava com apenas duas barreiras de contenção do fluxo ascendente de gás que poderia provocar uma explosão: o cimento próximo ao fundo do poço e uma instalação para fechar o poço no topo. Os parlamentares descreveram três decisões erradas referentes ao cimento, e afirmaram que a companhia também decidiu não usar um dispositivo denominado “lockdown sleeve”, cujo objetivo era garantir que o dispositivo de contenção no topo do poço suportasse a pressão.

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Os deputados disseram que, no que diz respeito às decisões referentes às obras com cimento, a British Petroleum optou por utilizar uma quantidade muito menor de dispositivos “centralizadores”, cujo objetivo é manter o invólucro final centrado no buraco do poço e ajudar a garantir que o cimento flua homogeneamente em torno do invólucro. A British Petroleum usou seis desses dispositivos, em vez dos 21 que foram recomendados pela empreiteira responsável pelo cimento, a Halliburton, que advertiu a companhia petrolífera sobre o potencial para a ocorrência de um “grave problema com o fluxo de gás”. Um funcionário da British Petroleum reclamou em uma mensagem de e-mail de 16 de abril de que seriam necessárias dez horas para a instalação do número necessário de centralizadores. “Eu não gosto disso”, afirmou ele na mensagem.

Além disso, os parlamentares disseram que a British Petroleum não realizou uma circulação total de lama pesada de perfuração através do poço – algo que teria exigido cerca de 12 horas – antes de dar início às obras com cimento. Os deputados observaram que o Instituto Norte-americano do Petróleo, um grupo comercial do setor, recomenda que se realize uma circulação integral desse material antes de se dar início às obras com cimento a fim de reduzir a possibilidade de que a lama contamine o cimento, algo que poderia contribuir para uma falha.

A British Petroleum também não encomendou um “bond log” do cimento, uma espécie de teste que teria possibilitado uma maior avaliação da qualidade da barreira de contenção de cimento. Os próprios engenheiros da British Petroleum rodaram modelos em computadores que sugeriram que seria improvável a obtenção de uma boa obra com cimento, e a companhia contava com uma equipe da Schlumberger a mão para realizar o teste, que demoraria até 12 horas.

Mas a British Petroleum decidiu não realizar o teste e os funcionários da Schlumberger deixaram a Deepwater Horizon na manhã do desastre.

Tradução: UOL

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