UOL Notícias Internacional
 

16/06/2010

Enquanto diminui a violência no Quirguistão, evidência sugere que foi planejada

The New York Times
Clifford J. Levy
Jalalabad (Quirguistão)
  • Apesar da fronteira fechada, milhares de pessoas deixam as zonas de conflito do Quirguistão

    Apesar da fronteira fechada, milhares de pessoas deixam as zonas de conflito do Quirguistão

A violência começou a diminuir na terça-feira e as pessoas começaram a sair de suas casas com barricadas no sul etnicamente dividido do Quirguistão, enquanto cresciam as evidências de que os dias brutais de derramamento de sangue foram organizados deliberadamente para inflamar as antigas tensões entre quirguizes e uzbeques.

Enquanto a ajuda humanitária começava a chegar ao sul carente de suprimentos, o escritório do Comissário de Direitos Humanos da ONU disse que seus investigadores acreditam que o conflito pode ter sido instigado por cinco ataques coordenados, realizados por grupos separados de homens armados na noite da última quinta-feira em diferentes partes de Och, a maior cidade no sul.

Rupert Colville, um porta-voz do comissário, disse que os ataques –que deixaram pelo menos 100 mortos e 100 mil ou mais uzbeques como refugiados – foram “orquestrados, direcionados e bem planejados”, não um surto espontâneo de violência étnica. Ele não citou nomes, mas o governo provisório quirguiz culpou o presidente deposto do país, Kurmanbek S. Bakiyev.

Nas ruas, agora mais calmas, Bakiyev é certamente o suposto culpado entre os uzbeques, menos devido às evidências diretas e mais por ter o motivo e a capacidade de manipular as tensões étnicas na região. Ravshanoi Karimova, 37 anos, um chef uzbeque, disse que os uzbeques continuarão a temer mais violência caso Bakiyev continue lançando sua sombra.

“Nosso povo precisa saber que ocorreu uma grande guerra aqui”, disse Karimova em um estande de caridade onde comida era servida. “Nossos filhos, e os filhos de nossos filhos, precisam saber o que aconteceu aqui.”

Bakiyev fugiu desta região em abril, se exilando em Belarus. Seus adversários, entretanto, temiam que ele não estaria liquidado aqui, dado os interesses comerciais de sua família e seu longo controle do poder no sul deste país.
O Quirguistão conta com bases militares tanto americanos quanto russas.

Seus oponentes argumentam que ele provocou o conflito entre a maioria quirguiz e a minoria uzbeque para desestabilizar o frágil governo interino e tentar voltar ao poder. Bakiyev negou qualquer envolvimento.

O sul do Quirguistão, que faz fronteira com o Uzbequistão e o Tadjiquistão, há muito é uma região de tensões étnicas. Bakiyev era um funcionário em ascensão na região de Jalalabad em 1990, durante o último grande surto de violência entre quirguizes e uzbeques.

“A situação é obviamente tensa e os Bakiyevs pegaram essas tensões e as detonaram”, disse Omurbek Tekebayev, um alto funcionário do governo interino, se referindo ao ex-presidente e membros de sua família.

Tekebayev apontou que, em maio, seguidores de Bakiyev tentaram tomar os prédios do governo em Jalalabad antes de serem rechaçados. Confrontado com essas acusações, Bakiyev emitiu uma série de negações.

O governo provisório diz que ele tem usado seus parentes no sul do Quirguistão para fomentar a instabilidade, mas ele disse que não tem falado com eles, porque teme envolvê-los em problemas.

“Meus irmãos e meus filhos se esconderam”, ele disse aos repórteres em Belarus.

Ao mesmo tempo, a detenção no Reino Unido no domingo do filho de Bakiyev, Maksim, pareceu aprofundar a especulação. As autoridades quirguizes disseram que pediriam a Londres a extradição de Maksim Bakiyev “por crimes cometidos no território quirguiz”. Maksim Bakiyev disse que pedirá asilo político.

As hostilidades tiveram início no final da semana passada e provocaram uma das piores crises humanitárias na Ásia Central nas últimas décadas, à medida que bandos de quirguizes começaram a atacar bairros uzbeques. O número de mortos já passa de 100 e até 100 mil uzbeques fugiram de suas casas e estão em acampamentos improvisados na área de fronteira entre o Quirguistão e o Uzbequistão.

Na terça-feira, com o sul um pouco mais quieto, algumas autoridades quirguizes disseram que pretender retirar seu pedido para que a Rússia envie tropas para ajudar a manter a ordem.

“Há dois ou três dias, nós achávamos que era necessário”, disse o ministro interino da Defesa, Ismail Isakov. “Mas as forças que trouxemos conseguiram criar as condições para a normalização da situação.”

Também na terça-feira, o governo e agências de ajuda humanitária aumentaram seus esforços para ajudar os refugiados uzbeques. Um avião de carga transportando 40 toneladas de farinha, massa, óleo de cozinha e outros alimentos pousou no aeroporto de Och. Na fronteira, onde milhares de refugiados uzbeques estão presos sem água limpa ou atendimento médico, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha entregou suprimentos médicos, cobertores e lonas. Autoridades na capital, Bishkek, disseram esperar que o ritmo da entrega da ajuda aumente em um ritmo constante.

“Esta é nossa obrigação”, disse Aleksandr Dulin, o coordenador de voo a bordo do avião de carga Ilyushin Il-76, durante o voo de 45 minutos para Och.

“As pessoas estão passando fome, elas estão desesperadas. Elas não têm como alimentarem a si mesmas. Não há um único pedaço de pão.”

Em uma visita a Jalalabad na terça-feira, as pessoas estavam saindo de casa, muitas pela primeira vez em vários dias, mas se deparavam com cenas perturbadoras.

Não eram apenas as casas queimadas, as pichações profanas ou as lojas fechadas. Eram também as árvores. Os uzbeques as cortaram para fazerem barricadas diante de suas casas para afastar os agressores quirguizes, geralmente de forma inútil.

Até mesmo a universidade uzbeque foi incendiada, como se para sinalizar que futuras gerações de uzbeques não têm lugar aqui.

*Ellen Barry e Andrew E. Kramer, em Moscou, contribuíram com esta reportagem

 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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