UOL Notícias Internacional
 

18/06/2010

Fracasso das ações internacionais aumentam a crise no Quirguistão

The New York Times
Clifford J. Levy*
Em Osh (Quirguistão)

O Quirguistão, um país obscuro em uma localização cobiçada na Ásia Central, corre sério risco de se fragmentar. A crise aqui, que acalma por ora após dias de violência étnica e atrocidades militares, pode vir a ter ramificações por toda parte, chegando até Washington.

O governo provisório quirguiz perdeu o controle de grandes áreas do sul do país, por causa de seu fracasso em reprimir os ataques que mataram pelo menos várias centenas de pessoas de etnia uzbeque e possivelmente muitas mais. Até 400 mil fugiram de suas casas. Escondendo-se atrás de barricadas em suas cidades e bairros, os uzbeques basicamente criaram zonas autônomas e estão se recusando a reconhecer as autoridades na capital.

Cruz Vermelha pede corredor humanitário para levar ajuda ao Quirguistão

Apesar da ameaça de separação do país, o governo parece incapaz de responder de qualquer forma significativa. O fornecimento de ajuda humanitária tem sido lento. A presidente interina nem mesmo visitou as regiões afetadas por preocupações de segurança. Nem respondeu aos numerosos relatos críveis de que elementos das forças armadas realizaram ataques horríveis contra os uzbeques. Os relatos indicam que o governo, que assumiu em abril após as revoltas que levaram à queda do presidente, não conta com a fidelidade plena das forças armadas.

“Eles temem os generais”, disse um proeminente advogado de direitos humanos, Nurbek Toktakunov, na quinta-feira. “Cedo ou tarde, será preciso lidar com estas questões.”

Esta relutância é particularmente notável porque o governo tem acusado o presidente deposto, Kurmanbek S. Bakiyev, de ter incitado a violência como forma de retornar ao poder. Mas ele ainda não explicou como Bakiyev exerceu esse poder ou se altos oficiais militares permanecem leais a ele, permitindo que use as tropas para incitar o conflito étnico.

As autoridades americanas estão mantendo olho atento no conflito, não apenas porque os Estados Unidos possuem uma importante base militar nos arredores da capital quirguiz, Bishkek, que fornece suprimentos para a crescente missão da Otan no Afeganistão. Uma autoridade americana em Washington confirmou que o governo quirguiz está tendo “dificuldades para exercer comando sobre as forças de segurança”.

O novo governo já enviou sinais ambíguos sobre se renovará o aluguel da base americana –e sua fragilidade acrescentou ainda mais incerteza à disputa estratégica entre os Estados Unidos e a Rússia. A Rússia também tem instalações militares no Quirguistão e nos últimos anos tem disputado com os Estados Unidos a preferência dos quirguizes.

Apesar de ainda ser cedo, as tensões aqui poderiam levar ao tipo de impasse étnico que tem surgido repetidamente por toda ex-União Soviética. Esses choques –na Geórgia, Azerbaijão, Moldova e outros lugares– são frequentemente chamados de conflitos congelados, porque não foram resolvidos por muitos anos. Eles acabam envolvendo as grandes potências, como no caso da guerra de 2008 entre a Rússia e a Geórgia em torno do enclave renegado da Ossétia do Sul, que azedou as relações entre a Rússia e o Ocidente, particularmente os Estados Unidos.

O governo esperava consolidar sua posição realizando um referendo para uma nova Constituição em 27 de junho, mas a violência étnica colocou esses planos em dúvida. Os cidadãos de etnia uzbeque, que correspondem a cerca de 15% da população, não participarão da votação a menos que uma força de paz internacional chegue ao Quirguistão, uma perspectiva improvável.

Se o referendo for cancelado, então o governo poderia ficar ainda mais à deriva.

Altos funcionários em Bishkek defenderam a atuação do governo, dizendo que estavam enfrentando obstáculos cada vez maiores na tentativa de conduzir o país, incluindo uma economia em depressão e a interferência de Bakiyev, que se exilou em Belarus.

Farid Niyazov, um porta-voz do governo, reconheceu que a presidente interina, Roza Otunbayeva, não viajou ao sul desde o início da violência, na noite de 10 de junho. Ele disse que ela planeja fazer uma visita na sexta-feira, porque agora está calmo o bastante para que ela se reúna com os líderes uzbeques em seus bairros.

Niyazov acrescentou que Otunbayeva, que é de etnia quirguiz, acredita que é impróprio fazer aberturas tanto aos quirguiz quanto aos uzbeques com base apenas em sua etnia.

“O governo está oferecendo suas condolências a todos e seu compromisso em manter a paz e a segurança”, ele disse. “Nós não citamos grupos étnicos. Fazê-lo poderia fornecer o impulso para outra explosão.”

Independente do que Otunbayeva faça, será enormemente difícil evitar a fúria dos uzbeques. Isso ficou claro na quinta-feira, durante uma visita a um cemitério improvisado em um terreno baldio em Osh, onde as vítimas uzbeques da violência estavam sendo enterradas.

O primeiro foi Lochinbek Sabirov, 15 anos. Seu pai olhava, enxugando as lágrimas com um lenço, incapaz de entender o que aconteceu.

O pai, Makhamadzhan Sabirov, 42 anos, disse que Lochinbek foi ferido no peito e na mão no primeiro dia do conflito, quando ele saiu para ver o que estava causando a comoção. Ele morreu posteriormente no hospital.

“Você acha que isso será fácil de esquecer?” ele disse. “Se eu tivesse uma metralhadora, eu iria até a cidade e atiraria nas pessoas. Eu não quero mais esse governo. Eles não têm o direito de estar no poder.”

Os corpos de outros uzbeques vieram em seguida, descidos às sepulturas em caixões envoltos em tecidos em vários tons: uma mulher de 50 anos que teve a garganta cortada, um homem de 39 anos que foi espancado até a morte. Alguns já tinham sido enterrados apressadamente sem identificação, por terem sido incinerados até ficarem irreconhecíveis, negando aos seus entes queridos o luto apropriado.

A cena no cemitério sugeria fortemente que a amplitude do massacre foi bem maior do que o reconhecido anteriormente pelo governo interino. O número oficial de mortos é de cerca de 200, mas voluntários que estão cuidando apenas deste cemitério disseram que já enterraram mais de 50. E líderes étnicos uzbeques disseram que muitos cemitérios foram abertos. Em apenas quatro, o número totalizava mais de 160, segundo entrevistas. (Um número desconhecido, mas muito menor, de quirguizes também morreu.)

O governo não está registrando os enterros dos uzbeques nem exercendo qualquer tipo de supervisão, ressaltando uma dinâmica cada vez mais significativa aqui: os cidadãos de etnia uzbeque querem um governo autônomo, sem nada a ver com as autoridades quirguizes. Bakhrom Iminov, 34 anos, estava anotando os enterros em um caderno escolar, rabiscando grades que ele preenchia com qualquer informação que podia obter a respeito dos mortos. Ele disse que cerca de 20% a 30% não estavam identificados.

“A única forma de podermos nos proteger é levantando uma cerca e governando a nós mesmos”, disse Iminov. “Essa é a única forma de garantirmos que o que ocorreu nunca mais se repita.”

*Ellen Barry e Andrew E. Kramer, em Moscou (Rússia), e Mark Mazzetti, em Washington (EUA), contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,22
    3,142
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,67
    70.477,63
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host