UOL Notícias Internacional
 

19/06/2010

Refugiados começam a retornar ao Quirguistão e aos horrores

The New York Times
Clifford J. Levy*
Em Osh (Quirguistão)
  • Crianças quirguizes ultrapassam cerca de arame

    Crianças quirguizes ultrapassam cerca de arame

As mulheres de etnia uzbeque começaram a carregar seus filhos por entre a cerca de arame farpado na sexta-feira (18), voltando do vizinho Uzbequistão para o Quirguistão uma semana após o massacre étnico que deslocou cerca de 400 mil pessoas. A chegada delas era um sinal de que a crise humanitária estava se estabilizando. 

Mas seu retorno era para uma nação alterada --para casas destruídas protegidas pelos homens que deixaram para trás nos enclaves uzbeques com barricadas, ainda agitados contra o governo e seus vizinhos de etnia quirguiz. 

A área do sul se acalmou o suficiente para que a presidente interina do país, Roza Otunbayeva, trajando uma jaqueta bege, se aventurasse lá pela primeira vez desde o estouro da violência na noite de 10 de junho. Ressaltando um dos muitos motivos para a revolta entre a minoria de etnia uzbeque, ela reconheceu que o número de mortos, a maioria dele uzbeques, poderia ser 10 vezes maior do que o número oficial de 200. 

“Aqueles que planejaram e executaram esta violência tinham grandes planos, mas conseguimos impedi-los”, ela disse na prefeitura. “Nós pretendemos reconstruir todas as regiões destruídas.” 

Apesar da afirmação de Otunbayeva de que o governo deteve a violência, ele foi amplamente visto como fraco e impotente quando estourou o conflito, incapaz de controlar até mesmo membros de suas próprias forças armadas, acusados por muitas testemunhas de executarem atrocidades. Otunbayeva não mencionou se apoiaria um ampla apuração das causas da violência, que o governo atribuiu --apesar de que em termos vagos-- ao presidente deposto, Kurmanbek S. Bakiyev. 

Ela falou diante de pessoas de etnia quirguiz, que deixaram claro que apesar da violência ter terminado por ora, as tensões continuam extremamente altas. 

“Esses uzbeques querem que o Uzbequistão venha aqui e expulse os quirguizes”, disse Gulmira Jamilova. Ela disse que cinco de seus parentes estão desaparecidos desde o início da violência e que ela suspeita que os uzbeques os estejam mantendo como reféns. 

Agências da ONU ofereceram sua primeira estimativa do tamanho da crise, dizendo que mais de 1 milhão de pessoas podem estar precisando de assistência, incluindo pelo menos 75 mil que permanecem no vizinho Uzbequistão. Na sexta-feira, um diplomata americano chegou à região e pediu pela apuração do massacre. 

O funcionário, o secretário-assistente de Estado, Robert O. Blake, pediu ao governo interino quirguiz que aumente seus esforços para por fim a qualquer violência persistente. Blake visitou campos de refugiados na sexta-feira no lado do Uzbequistão, ouvindo numerosas declarações de pessoas de etnia uzbeque a respeito da violência. 

As muitas centenas de refugiados que retornavam, quase todos mulheres e crianças, passavam por um posto de controle na fronteira com o Uzbequistão e por um buraco na cerca de arame farpado no início da tarde, para voltar ao Quirguistão. Alguns diziam temer mais derramamento de sangue, mas sentiam falta dos homens que deixaram para trás. Muitos homens de etnia uzbeque não partiram, preferindo ficar para proteger o que restou dos imóveis incendiados durante a violência. 

Sayora Khakimova, 31 anos, disse que os campos de refugiados no Uzbequistão eram inesperadamente limpos e bem organizados, mas que ela sentia falta de sua família. “Meu pai está aqui, meus parentes estão aqui”, ela disse. “Eu nasci e cresci aqui. Lá tudo era bom e as pessoas nos ajudavam. Mas minha casa não é lá.” 

Como outros entrevistados, ela criticou os quirguizes étnicos, que ela disse que atacaram seu bairro e mataram muitos moradores. E ela disse não ter fé no governo interino quirguiz, que tomou posse em abril após os tumultos que derrubaram o presidente. 

Nigora Ruziyeva, 28, uma uzbeque étnica que voltou com seus dois filhos pequenos, disse que ela hesitou por temor de futuros ataques. “É claro que estamos com medo”, disse Ruziyeva. “Nós não sabemos como viveremos agora, mas decidimos que tínhamos que voltar.” 

Nem todos se sentem assim. Manzura Abdullayeva, 26, queria partir. Ela permaneceu no lado quirguiz com seus três filhos, observando as pessoas chegarem, mas não foi dissuadida. Ela disse que abandonou sua casa e que estava desesperada por ajuda, sem dinheiro e com seus filhos com fome. 

“Eu tenho chorado, rezado a Deus para que nos ajude”, ela disse. “É perigoso aqui. O Quirguistão não pode ser mais meu lar. Talvez haja alguma esperança lá, porque não pode ser pior do que aqui.” 

Seu desespero era repetido em bairros uzbeques por todo o sul do Quirguistão. Mesmo na sexta-feira, vários dias após o fim da violência, ainda ocorriam descobertas terríveis. 

Durante a violência, Batir Mondzhurayev, um taxista de 38 anos, não conseguiu falar com seu pai por telefone, ligando desesperadamente repetidas vezes. A situação estava relativamente calma na segunda-feira (17), mas Mondzhurayev não conseguiu viajar até a casa de seu pai porque soldados quirguizes tinham montado postos de controle e impediam muitos uzbeques de chegarem aos enclaves uzbeques. 

A certa altura, ele digitou o número de seu pai e alguém atendeu. Mas era uma voz quirguiz. 

Mondzhurayev repetiu a conversa: “Aquela pessoa disse: ‘O que, você quer seu pai? Quanto dinheiro você tem? Seu pai está ferido, no hospital. Ah, você não tem dinheiro? Então seu pai está morto’. Ele ficou me provocando, fazendo esses tipos de jogos”. 

Ele disse que tinha esperança de que o telefone de seu pai tivesse sido roubado, mas estava ansioso. Finalmente, Mondzhurayev conseguiu ir até a casa de seu pai na manhã de sexta-feira. Ela estava incendiada. Em meio aos escombros, ele encontrou o corpo de seu pai, incinerado e quase irreconhecível. Mondzhurayev lutou para conter as lágrimas. 

Toichi Mondzhurayev tinha 64 anos e trabalhou em uma fábrica de automóveis até se aposentar. 

Os vizinhos disseram que naquela quadra, onde a maioria das casas foi seriamente danificada pelos incêndios criminosos, 16 uzbeques étnicos foram mortos. “Veja todas essas casas”, disse Mondzhurayev. “Tantas pessoas morreram aqui. E o governo não se importa.” 

*Com reportagem de Michael Schwirtz

Tradução: George El Khouri Andolfato

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