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20/06/2010

O vazamento no golfo do México é mesmo o pior desastre ambiental da história dos EUA?

The New York Times
Justin Gillis
  • Historiadores lembram que nuvens de poeira engoliram regiões do Kansas (EUA) durante década de 1930

    Historiadores lembram que nuvens de poeira engoliram regiões do Kansas (EUA) durante década de 1930

No Salão Oval, outro dia, o presidente Barack Obama chamou o vazamento de petróleo no Golfo do México de “o pior desastre ambiental que os Estados Unidos já enfrentaram”. Pessoas importantes do governo também repetiram a mesma frase.

O motivo parece claro. As palavras mostram a simpatia pelo povo da Costa do Golfo, o reconhecimento da magnitude dos problemas dele. E se este for verdadeiramente o pior desastre ambiental, como sugere a frase, talvez as pessoas devam culpar menos o governo por não conseguir controlá-lo imediatamente.

Mas esta descrição é acurada?

Estudiosos da história ambiental, embora expressem simpatia pelas pessoas do golfo, dizem que a afirmação é discutível. Eles oferecem uma lista intimidante de desastres a considerar: enchentes causadas por negligência humana, a destruição de florestas em todo o continente e o quase extermínio do bisão norte-americano.

“A Casa Branca está ignorando todos as nuances e complexidades para tornar o argumento dramático”, diz Donald E. Worster, historiador ambiental da Universidade do Kansas e acadêmico visitante em Yale.

Os professores também observam a impossibilidade de hierarquizar uma lista tão variada de catástrofes. Talvez o pior desastre, dizem, é sempre aquele que as pessoas estão vivendo agora.

Ainda assim, pela simples destruição de vidas humanas, vários deles podem pensar que nenhum outro problema ambiental da história dos EUA consegue se equiparar à calamidade conhecida como Dust Bowl (literalmente, tigela de poeira).

“O Dust Bowl foi certamente um dos piores desastres ecológicos da história mundial”, disse Ted Steinberg, historiador da Universidade Case Western Reserve.

Por toda área das Planícies Altas, que se estende do Texas até Dakotas, as práticas de agricultura predatórias da primeira parte do século 20 retiraram as gramíneas nativas que mantinham a umidade e o solo no lugar. Uma seca que começou em 1930 revelou a insensatez.

Nuvens agitadas de poeira levantada por ventos fortes enterraram casas e carros, destruíram plantações, sufocaram rebanhos de animais e mandaram as crianças para o hospital com pneumonia. A princípio a crise foi ignorada em Washington, mas então as nuvens do apocalipse começaram a soprar até Nova York, Buffalo e Chicago. Uma audiência no Congresso sobre o desastre foi interrompida pela chegada de uma tempestade de poeira.

Em meados dos anos 30, as pessoas começaram a deixar a região aos bandos. Os refugiados da Tigela de Pó se juntaram a um fluxo maior de migrantes que haviam perdido lugar por conta da mecanização da agricultura, e em 1940 mais de dois milhões de pessoas haviam deixado os Estados das Grandes Planícies.

Entretanto, a Tigela de Pó durou uma década, e isso levanta uma questão. O que exatamente deve ser definido como um desastre ambiental? Por quanto tempo um evento deve se estender, e quantas pessoas precisam ser prejudicadas para que ele receba esta denominação?

Entre os eventos súbitos, a Enchente de Johnstown pode ser uma candidata a pior desastre ambienta. Em 31 de maio de 1889, fortes chuvas fizeram com que uma represa de precária manutenção estourasse no sudoeste da Pensilvânia, enviando uma parede de água por 22 quilômetros rio abaixo a partir da cidade de Johnstown. Cerca de 2.200 pessoas morreram, uma das piores taxas de mortalidade na história do país.

Na época em que isso aconteceu, o evento foi compreendido como uma falha de engenharia e manutenção, e foi assim que ele ficou conhecido na história. Talvez uma enchente de um dia não tenha a duração suficiente para ser considerada um desastre ambiental.

Por outro lado, se os acontecimentos que levaram várias décadas forem incluídos, o número de candidatos aumenta drasticamente.

Talvez a destruição das florestas nativas na América do Norte, que levou centenas de anos, deva ser contada como a maior calamidade ambiental do país. A matança de milhões de bisões nas Grandes Planícies também poderia entrar na categoria.

Craig E. Colten, geógrafo da Universidade Estatal da Louisiana, indica “a reforma humana do vale do rio Mississippi”, que destruiu muitos milhares de acres de várzeas e tornou a região mais vulnerável a eventos posteriores como o Furacão Katrina.

Entretanto, essas atividades não eram vistas como desastres na época, pelo menos pelas pessoas que as exerciam. Eram vistas como alterações desejáveis na paisagem. Apenas em retrospectiva que as pessoas começaram a entender o que foi perdido, então talvez estes não pertençam à lista de desastres.

Os derramamentos de petróleo, também, parecem ser mais julgados por seu efeito nas pessoas do que no ambiente. Considere do Lakeview Gusher, que quase certamente foi o pior derramamento de petróleo, em volume, do que o atual no golfo.

No sul do Vale San Joaquin, na Califórnia, houve uma corrida pelo petróleo nas primeiras décadas do século 20. Em 14 de março de 1910, um poço no meio do caminho entre as cidades de Taft e Maricopa, em Kern County, explodiu com um poderoso ruído.

Ele continuou vazando enormes quantidades de petróleo por 18 meses. A versão dos eventos aceita pelo Estado da Califórnia coloca o fluxo próximo de 100 mil barris por dia em alguns momentos.

“É o avô de todos os vazamentos”, diz Pete Gianopulos, historiador amador na área.

O volume total derramado foi calculado em 9 milhões de barris, ou 378 milhões de galões. De acordo com as mais altas estimativas do governo, o derramamento da Deepwater Horizon ainda não chegou a metade disso.

O petróleo de Lakeview foi contido em piscinas imensas por sacos de areia e canais de terra batida, e quase metade foi recuperada e refinada pela Union Oil Co. O resto se infiltrou no solo ou evaporou. Hoje, restam poucas evidências do derramamento, e fora de Kern County, ele foi amplamente esquecido. Isto certamente é porque a área é um deserto e poucas pessoas foram afetadas pelo derramamento.

Isto o diferencia do vazamento da Deepwater Horizon. Os efeitos ambientais do derramamento no golfo são amplamente desconhecidos. Mas o número de vidas afetadas está certamente nos milhares, se não nas dezenas de milhares; a renda perdida em setores como a pesca chega a milhões; e o custo final chegará aos bilhões.

Mesmo com todos estes problemas, será que ele pode ser chamado do pior desastre ambiental do país?

“Minha opinião”, diz William W. Savage Jr., professor de história da Universidade de Oklahoma, “é que nós só seremos capazes de dizer depois que terminar.”

Tradução: Eloise De Vylder

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