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25/06/2010

Após curta e tensa deliberação, o general caiu

The New York Times
Mark Landler
  • General Stanley McChrystal chega na Casa Branca para se encontrar com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama

    General Stanley McChrystal chega na Casa Branca para se encontrar com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama

Quando acordou na manhã de quarta-feira, o presidente Barack Obama já tinha se decidido.

Durante as 36 horas frenéticas desde que recebeu um artigo da próxima edição da revista “Rolling Stone”, ominosamente intitulada “O General Desenfreado”, o presidente pesou as consequências de dispensar o general Stanley A. McChrystal, cujos comentários insolentes a respeito de membros do governo provocaram uma tempestade.

Obama, disseram assessores, consultou seus conselheiros – alguns, como o secretário de Defesa, Robert M. Gates, alertaram para os riscos de substituí-lo; outros, como seus conselheiros políticos, acharam que ele tinha que partir. Ele pediu conselho a um soldado-estadista, o reformado general Colin L. Powell. Ele identificou um sucessor possível para liderar a guerra no Afeganistão. E então, finalmente colocou um fim ao comando de McChrystal em uma reunião que durou apenas 20 minutos. Segundo um assessor, o general pediu desculpas, ofereceu sua renúncia e não fez lobby pelo seu cargo.


Após um debate entre os membros da Casa Branca, “ocorreu um entendimento básico”, disse Rahm Emanuel, o chefe de Gabinete da Casa Branca e um membro importante nas deliberações. “Isto não foi bom para a missão, para as forças armadas e para o moral”.

Obama já forçou a saída de oficiais e altos funcionários antes, incluindo o diretor nacional de inteligência, Dennis C. Blair; o advogado da Casa Branca, Gregory Craig; e até o antecessor de McChrystal, o general David D. McKiernan.

Mas esta foi a demissão de maior destaque de sua presidência. O período entre a primeira leitura por Obama do artigo da “Rolling Stone” e sua decisão de aceitar a renúncia de McChrystal oferece um vislumbre do processo de tomada de decisão do presidente sob estresse intenso: ele parece ser deliberativo e aberto ao debate, mas no final ele é friamente decisivo.
Em uma reunião subsequente com seu conselho de guerra para o Afeganistão, Obama repreendeu seus conselheiros, os instruindo a pararem de brigar entre si.

“O presidente disse que não quer ver brigas mesquinhas; isto não se trata de reputações ou personalidades – trata-se de nossos homens e mulheres de uniforme”, disse um alto funcionário do governo, que como outros, falou sob a condição de anonimato para oferecer um relato dos últimos dois dias.

O drama teve início na tarde de segunda-feira, quando o vice-presidente Joe Biden, que estava voando de Illinois para a Base Andrews da Força Aérea, recebeu um telefonema perturbador de McChrystal.

A ligação estava com muito chiado e a conversa mal durou dois minutos. McChrystal contou ao vice-presidente que seria publicado um artigo que ele não gostaria. Confuso, Biden pediu aos seus assessores para investigarem e, quando ele pousou, os assessores entregaram o artigo para ele.

Após digeri-lo em sua residência em Washington, Biden ligou para Obama às 19h30. Horas antes, a própria Casa Branca tinha tomado conhecimento do artigo e um jovem assessor de mídia, chamado Tommy Vietor, distribuiu cópias para todos os altos funcionários do círculo de segurança nacional de Obama.

O secretário de imprensa, Robert Gibbs, encaminhou uma cópia dele ao presidente em seus aposentos privados. Após ler os primeiros parágrafos – uma descrição sarcástica, cheia de palavras de baixo calão, do desprazer de McChrystal por ter que jantar com um ministro francês para informá-lo sobre a guerra – Obama já tinha lido o suficiente, disse um alto funcionário do governo. Ele ordenou que seus assessores políticos e de segurança nacional se reunissem imediatamente no Escritório Oval.

Já estava claro àquela altura, disse esse funcionário, que McChrystal não sobreviveria. Obama estava inclinado a afastá-lo, disse outro funcionário do governo, apesar de ter dito que o presidente estava disposto a esperar até que o general explicasse suas ações e as de seus assessores.

Na reunião no Escritório Oval na segunda-feira, Obama pediu para que McChrystal fosse convocado a retornar de Cabul. Antes de partir do Afeganistão, o general realizou uma reunião já agendada com Susan E. Rice, a embaixadora na ONU, que estava em visita com outros diplomatas da ONU.

Em uma reunião pessoal na terça-feira, Gates, que pressionou para tornar McChrystal o comandante no Afeganistão, pediu a Obama que o ouvisse, disse um funcionário. Ele alertou que a remoção do comandante seria altamente prejudicial. Gates se preocupava em particular com a “continuidade, impulso e com as relações com os aliados”, disse um alto funcionário que esteve envolvido nas reuniões.

Ainda assim, mesmo com Gates defendendo McChrystal, o Pentágono começou a elaborar uma lista de substitutos potenciais. Obama, disse o funcionário, ficou imediatamente atraído pela ideia de transformar o general David H. Petraeus –um arquiteto da estratégia de contrainsurreição, um comandante politicamente hábil e um substituto que aplacaria as preocupações de Gates.

Por acaso, Petraeus estava à mão. Naquele dia, ele tinha viajado a um destino secreto no Norte da Virgínia para uma reunião do Conselho Executivo de Contraterrorismo, um grupo de oficiais militares e de inteligência que se reúnem regularmente para discutir as operações.

O cargo só foi oferecido a Petraeus quando ele chegou à Casa Branca na quarta-feira, logo após a reunião do presidente com McChrystal, disse um alto assessor.

Na terça-feira, enquanto McChrystal fazia o voo de 14 horas para Washington, a Casa Branca estava envolvida em um turbilhão de reuniões a respeito de seu destino. Juntamente com Gates, disseram assessores, quatro outros altos funcionários foram influentes: Biden; o conselheiro de segurança nacional, o general James L. Jones; o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o almirante Mike Mullen; e Emanuel.

A opinião de Emanuel e as de outros conselheiros variavam, disse um alto funcionário. Obama parecia inclinado a dispensar o general, mas ouviu todo o debate. Na noite de terça-feira, disseram funcionários, eles esperavam que o general simplesmente renunciasse.

Enquanto isso, McChrystal estava ocupado telefonando para pedir desculpas às pessoas que são ofendidas pelo artigo. Uma das pessoas para quem ele ligou foi o senador John Kerry, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado.
“Ele foi muito respeitoso e pediu desculpas. Eu acho que ele obviamente entendeu que cometeu um erro e não estava inventando desculpas”, disse Kerry em uma entrevista, notando que McChrystal não defendeu sua continuidade no cargo. “Ele foi bem direto e sincero.”

McChrystal contou com alguns defensores de destaque, incluindo o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai.
No final, Obama decidiu que o general teria que sair. Após a reunião com McChrystal, ele realizou outra de 40 minutos com Petraeus, uma sessão mais ampla com seu conselho de guerra e então foi ao Jardim das Rosas, para explicar sua decisão ao povo americano.

“Ele gosta de Stan e acha que Stan é um bom homem, um bom general e um bom soldado”, disse Emanuel. “Mas como ele disse em sua declaração, isto é maior do que qualquer pessoa.”

 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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