UOL Notícias Internacional
 

27/06/2010

Contratações da petroleira BP frustram comunidade nos EUA

The New York Times
John Leland
Bayou La Batre (EUA)

Nove semanas depois do início do desastre no Golfo do México, há mais dinheiro nesta pequena e pobre cidade pesqueira do que já existiu em décadas, dizem os moradores. Há mais dias úteis bem pagos, mais acidentes de trânsito, mas relatos de violência doméstica, maior uso de drogas e álcool, mais ressentimento, mais rumores, mais fome e mais preocupações. 

Numa tarde recente, Delane Seaman estava irritado com a procissão de barcos que começou a chegar ao porto da cidade, com seus donos e capitães prometendo um pagamento diário de mais de US$ 1.400, cerca de US$ 200 para cada marujo, tudo como cortesia de um programa da BP criado para empregar os barcos para ajudar na limpeza do derramamento de petróleo. 

O programa, chamado Barcos de Oportunidade, tem sido a salvação de centenas de pessoas nesta cidade de 2.300 habitantes na baía Mobile, pagando várias vezes mais do que elas ganhariam com a pesca. Mas para outras pessoas, como Seaman e seu irmão Bruce, cuja empresa de processamento de ostras está fechada desde maio, ele tem sido uma fonte de frustração. 

“Esses caras que você está vendo aqui, eles não deveriam ser contratados”, diz Seaman, apontando para um grupo de barcos de pesca esportiva da Flórida. “Ouvimos dizer que a BP iria contratar as pessoas diretamente afetadas pelo derramamento de petróleo. Mas nós não podemos ser contratados, e eles estão contratando toda essa gente que deixou seus empregos e vieram para cá. Nós enviamos nosso requerimento há dois meses.” 

De um vilarejo de pescadores independentes e coletores de frutos do mar, muitos em sua segunda ou terceira geração no ofício, Bayou La Batre se tornou algo parecido com uma cidade de um único empregador, com a BP exercendo o papel tanto de destruidora da subsistência quanto de principal fonte de renda, através de programas de limpeza e compensação pela perda de seus negócios. 

À medida que que o dinheiro entra, muitos moradores dizem que não têm acesso a ele. No começo de junho, os pescadores comerciais bloquearam o canal do Mississipi para protestar contra o fato de a BP ter contratado barcos recreativos para a limpeza. Um pescador foi levado embora algemado. 

A companhia está tentando contratar mais pescadores comerciais e cortou a quantidade de barcos recreativos que estão trabalhando no Alabama para 13%, dos 23% que atuavam na semana passada, disse Andrew Cassels, diretor do programa Barcos de Oportunidade no Posto Móvel de Comando de Incidentes. 

Há uma semana, a companhia começou a consultar as autoridades locais sobre as contratações, disse Cassels. 

“Estamos restruturando nossa frota para incorporar os pescadores comerciais”, disse Cassels. 

Mas os que não estão trabalhando dizem que isso ainda não aconteceu. E todos temem que o dinheiro acabe, que a BP declare falência ou termine o programa Barcos da Oportunidade. Há cerca de 915 embarcações no programa do Alabama, 262 delas trabalhando a partir de Bayou La Batre. 

“Todo mundo está morrendo de medo”, disse Kendall Stork, dono do restaurante Lighthouse, onde os negócios ainda vão bem. “A menos que eles tenham um prédio tão grande quanto o Empire State Building cheio de notas de US$ 100, o dinheiro vai acabar. Haverá algumas mortes por aqui.” 

Sinais na entrada de Bayou La Batre informam que a cidade é a capital dos frutos do mar no Alabama, e para as pessoas daqui – cuja média de renda familiar é de US$ 24.539 por ano, 28% mais baixa do que a média do Estado, de acordo com o censo de 2000 – pescar é uma paixão e uma cruz a carregar. Os comerciais ainda estavam se recuperando do furacão Katrina, que derrubou muitas lojas, incluindo a dos Seaman. 

Os moradores dizem que antigamente eles sempre sabiam que não iriam morrer de fome porque podiam pescar sua comida no golfo; agora essa segurança se foi. 

Na Dominick's Seafood, uma fábrica de processamento de camarão que está operando 60% abaixo de seu volume normal – os barcos só podem pescar em algumas partes da Flórida e do oeste da Louisiana – Dominick Ficarino falou com carinho de todos os aspectos do negócio. Então ele disse que não queria que suas filhas ou os namorados delas chegassem perto da fábrica. “Não quero que ninguém tenha essa vida miserável”, disse. 

Agora, dizem muitos por aqui, até essa miséria será tirada deles. 

Het Le, 30, que veio do Vietnã quando tinha 11 anos, limpa ostras desde os 16 anos. Desde que o governo fechou os locais de coleta de ostras em maio, Le está desempregado, assim como seis oito irmãos. Embora ele tenha recebido um cheque de US$ 1 mil da BP por ter perdido sua renda, ele depende de doações de alimentos para alimentar sua família. 

“Muitas famílias estão discutindo por causa de dinheiro”, disse ele. “Minha mulher, ela é boa. Mas quanto ao dinheiro, ela me culpa, e eu a culpo. Isso torna a vida muito mais difícil.” 

A população de Bayou La Batre é um terço asiática, principalmente do Vietnã, e muitos tiveram dificuldades para conseguir assistência social ou treinamento para trabalhar na BP por causa da barreira da linguagem, diz David Pha, conselheiro da organização sem fins lucrativos Boat People SOS. Muitos moradores mais velhos não têm preparo físico para os empregos na limpeza e não podem receber assistência social porque não são cidadãos, diz ele. 

“Na maioria das famílias, a mãe, o pai, os filhos e os avós estão desempregados”, diz ele. “As pessoas chegam aqui no limite, irritadas e com medo. Elas vêm ao escritório e brigam na minha frente, ou dizem: 'Meu marido está mais irritado agora'. Normalmente os asiáticos tentam manter os problemas particulares em casa”. Ele acrescentou que muitos hesitam em receber doações de alimentos, muito embora precisem da ajuda. 

“Eles dizem: 'Eu não quero mendigar por comida'”, diz Pham. “Uma mulher me disse: 'Eu não vejo leite em pó desde os campos de refugiados'.” 

O prefeito Stanley Wright disse que argumentou repetidamente com a BP para que ela contratasse mais pescadores locais, e recebeu auxílio de US$ 7,5 milhões e US$ 1 milhão da quantia que a BP deu ao Estado para empregar os moradores, a cerca de metade da taxa que a BP paga. Este dinheiro, entretanto, já acabou. “Como sairemos disso sem um assassinato, é um milagre”, diz ele. 

As ligações para a polícia e os acidentes cresceram 50% desde o final de abril, disse o chefe de polícia John Joyner. Até seus oficiais estão trabalhando para a BP nas horas vagas, diz Joyner. 

Na Clínica Bayou, inaugurada por Regina M. Benjamin, agora chefe de saúde dos EUA, o número de pacientes que pedem cuidados médicos gratuitos cresceu 20%. 

A maioria das pessoas aqui dizem que receberam alguma compensação da BP, mas não o suficiente para cobrir suas perdas. E muitas que entraram com ações dizem que nunca serão pagas porque a maior parte de seus negócios era em dinheiro e elas não têm provas de sua renda, diz Linda Fisher, contadora que trabalha para 12 lojas mas que agora também está desempregada a maior parte do tempo. 

“Alguns me telefonaram pedindo seus impostos de renda dos anos anteriores”, disse Fischer. “Não posso fazer isso”. 

Fischer disse que depois de quatro viagens até o centro de reclamações da BP, a companhia a recompensou em US$ 2 mil por perda de rendimentos, menos da metade do que ela ganhava por mês. 

Para Delane Seaman, a sensação é de que “a BP tirou as nossas vidas”, apenas para substituí-las por uma forma de dependência que ele e seu irmão tentavam evitar com seu negócio. “Durante toda nossa vida tomamos decisões por nós mesmos”, disse ele. “Agora a BP está dizendo o que podemos e o que não podemos fazer. Não há um mediador. A BP é que diz sim ou não porque controla o dinheiro.” 

Ele olhou para seu galpão vazio, onde 40 bancadas de trabalho de aço inoxidável estava vazias. Depois do furacão Katrina, diz ele, as pessoas da cidade aprenderam a não esperar nada dos programas do governo. “Nós nos reerguemos com nosso próprio trabalho”, disse. “Agora a BP o tirou de nós.”

Tradução: Eloise De Vylder

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