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28/06/2010

"Troca de jantar" é alternativa para variar cardápio e economizar tempo

The New York Times
Laurie Woolever
Em Nova York (EUA)

A hora do jantar em nossa casa, que já foi uma fonte de grande orgulho e prazer, tornou-se uma história muito sem graça depois do nascimento de nosso filho em 2008. Ela principalmente envolvia reformular sobras de comida "delivery" ou, em uma noite mais ambiciosa, misturar pedaços de purês de legumes congelados, que eram para o bebê, com macarrão e queijo. Era um jantar familiar no sentido de que era comida quase comestível que consumíamos juntos em casa, mas preparada com o mesmo cuidado e paixão que eu tinha para reabastecer a tigela de água do gato.

Mas em fevereiro tudo mudou. Meu marido e eu nos associamos a uma cooperativa de cozinha e de repente estávamos comendo tagliatelle à bolonhesa, berinjela à parmegiana ou frango filipino, tudo feito em casa, e só uma pequena parte preparada por mim.

Uma cooperativa de cozinha, ou "troca de jantar", é simplesmente um acordo entre dois ou mais indivíduos ou famílias de fornecer mutuamente refeições prontas, segundo um calendário. O objetivo é reduzir o tempo gasto na cozinha, enquanto se aumenta a qualidade e a variedade dos pratos ingeridos.

A ideia não é nova - cooperativas de jantar existem há anos - mas foi novidade para mim. A minha se baseia em meu prédio de apartamentos em Jackson Heights, Queens, o que aumenta a conveniência. Os membros de nossa cooperativa, formada por quatro famílias, incluindo dois editores da Fundação James Beard e Tony Liu, o chef executivo do restaurante Morandi em Manhattan, trocam refeições semanalmente.

Funciona assim: uma vez por semana você cozinha um prato (panquecas de frango, por exemplo), fazendo o suficiente para fornecer pelo menos uma porção para cada membro adulto da cooperativa. (As crianças podem receber meias porções ou inteiras, dependendo da idade e do apetite.) Mais ou menos na mesma hora, seus colegas de cooperativa estão cozinhando grandes porções de seus pratos escolhidos.

Depois de reservar um monte de panquecas para sua casa, você divide o restante e embala as porções, geralmente em recipientes reutilizáveis, e marca no rótulo as instruções para aquecimento ou montagem. Os membros então se reúnem e trocam os pratos, cada um saindo com uma variedade de refeições para os jantares da próxima semana e muitas vezes com sobras para refeições extras e lanches.

O seu grande lote de panquecas lhe rendeu três lotes menores de, digamos, salada grega de melancia e cevada, sopa de lentilhas e salada de porco vietnamita.

Cia Glover, 30, também uma editora da Fundação Beard, faz parte de um grupo de seis que troca comida mensalmente no Brooklyn. Os membros não saem necessariamente com refeições para um mês, mas Glover consegue guardar no freezer pratos para usar mais tarde. Ela diz que em cada troca recebe lanches e jantares para aproximadamente uma semana, suficientes para ela e seu noivo.

"Ter uma geladeira cheia de comida na semana após a troca me ajuda a economizar cerca de US$ 75 que de outro modo eu gastaria em lanches", ela diz. "Apesar de eu gastar um pouco mais para fazer meu prato para a troca, acaba sendo vantajoso financeiramente."

O grupo faz da troca uma ocasião social, quando a anfitriã mensal oferece drinques e salgadinhos antes que os cooperantes saiam com suas comidas.

Na reunião mais recente do grupo, no domingo à tarde, a anfitriã, Kristen Prinzo, 28, serviu torradas francesas, fritada de legumes, vinho prosecco, suco de laranja, frios e queijos.

"Eu fiz muitos novos amigos no grupo de troca", disse Prinzo, uma gerente de marketing. "Todo mês espero ansiosamente para encontrá-los, comer, beber e conversar sobre nossas vidas, antes de trocarmos a comida que preparamos."

Depois de observar algumas trocas de comida entre estudantes do Projeto Kula Yoga, um estúdio em Manhattan, Kaari Pitkin, 38, que é produtora de rádio, recentemente organizou uma troca mensal entre seus colegas da emissora. "Quando chega a hora de fazer as compras, não ter de pensar em comprar tantos ingredientes para tantas refeições diferentes é algo que acho delicioso", ela diz.

Cate Bruce-Low, 32, de TriBeCa, faz parte de um intercâmbio mensal entre algumas famílias de seu bairro. A troca economizou tempo em sua família. "É preciso um tempo extra para fazer uma refeição para tantas pessoas", disse Bruce-Low, que é professora de culinária para crianças. "Mas depois você tem o luxo de ter um estoque de comida. Você tem tempo extra para sair com seus filhos e não precisa estar em casa cedo para ajeitar o jantar."

Ela acrescentou que as famílias que têm programas de agricultura comunitária e ficam lotadas de determinados legumes, "podem encontrar uma receita que use todo o produto, evitando cinco noites seguidas de repolho".

É claro, há alguns problemas nessa abordagem. Kelly Moreland, que é dona de uma loja de produtos infantis de segunda-mão chamada Mama Goose, em Ithaca, NY, admitiu que usa sua refeição cooperativa como "lixão" para a couve e as abóboras que podem infernizar até o membro mais criativo de um grupo de agricultura comunitária de inverno.

Isso lhe causou alguns problemas. "Eu estava fazendo muita sopa de legumes para o inverno", disse Moreland, 45. "Uma das outras famílias se manifestou. Eles têm meninos em fase de crescimento com grande apetite e disseram que precisavam de mais refeições para ser comidas com garfo."

Às vezes os problemas são maiores. Um cooperante, que preferiu ficar anônimo para não causar ofensas, queixou-se de um membro de um grupo que sempre incluía em suas refeições frutos do mar, de forte odor e altamente perecíveis, que deveriam durar até uma semana na geladeira.

Andy Remeis, que vive em Boise, Idaho, disse que deixou uma cooperativa alimentar depois que um membro fez refeições semiprontas no estilo Hamburger Helper por várias semanas. "Nós não comemos isso nem nas piores noites", disse Remeis. "Eu deixei passar um tempo, pensando que ela veria o que o resto de nós cozinhava e entenderia a mensagem, mas não. Meu marido gosta de comer coisas realmente saudáveis, então foi minha desculpa - que tínhamos de sair porque não estava dando certo para ele."

Remeis, 45, é coautora, juntamente com Alex Davis e Diana Ellis, de "Dinner at Your Door" (Jantar na sua porta, ed. Gibbs Smith, 2008), que oferece receitas práticas para cooperativas e orientações para começar e manter uma cooperativa. Para evitar experiências com colegas do tipo Sandra Lee, cujos pratos semicaseiros talvez não sejam seu estilo, as cooperantes são aconselhadas a procurar cozinheiras de mentalidade semelhante antes de criar o grupo, disse Remeis.

Moreland e Remeis adotam o modelo de "delivery" de comida quente - cada família cozinha para todo o grupo uma noite por semana, embrulha a comida ainda quente e entrega as refeições para as outras casas a tempo para o jantar daquela noite. (A proximidade geográfica é crucial para esse esquema.)

Liz Garton Scanlon, uma autora de livros para crianças em Austin, Texas, tem trocado jantares com vários grupos de famílias nos últimos seis anos, usando também o modelo de entrega de comida quente. Scanlon, 43, disse que se interessou pelo conceito quando seus filhos eram pequenos e ela "estava se sentindo atordoada com o número de refeições necessárias para uma família".

"Para mim sempre dá a sensação de que você realmente recebe mais do que dá na cooperativa", ela disse, "e por isso o mito de que é trabalho demais foi rapidamente esquecido."

Kristin Curtis, 39, participa de uma cooperativa de quatro famílias em Raleigh, Carolina do Norte, que preparam refeições sem glúten por causa de um membro que tem doença celíaca. Curtis, uma ex-representante de vendas farmacêuticas que está desenvolvendo uma empresa de treinamento de vendas, disse que a troca de jantares torna a vida em casa mais eficiente. "Parece muito mais fácil manter a cozinha limpa diariamente, mesmo que no dia em que eu cozinho ela possa parecer o local de uma explosão", ela disse.

Muitos participantes de cooperativas dizem que suas contas de supermercado não mudaram, mas que estão gastando menos em restaurantes ou em delivery. "Ter na geladeira uma boa comida feita em casa me obriga a comê-la no jantar, por isso estou economizando", disse Dana Casey, 31, membro do grupo do Brooklyn, que trabalha em marketing.

Ela leva uma refeição trocada para o escritório em vez de comprar almoço, o que também a faz poupar. E Scanlon disse que "comprar grandes quantidades de alguns ingredientes tende a sair mais barato do que comprar muitos ingredientes para muitas refeições, por isso há um lucro bruto".

Depois de vários meses de trocas de refeições semanais, não posso me imaginar voltando aos velhos tempos daquelas refeições sem ânimo. A hora do jantar, que já foi apenas mais uma tarefa, hoje encerra o prazer da descoberta. A poeira desapareceu dos meus velhos livros e equipamentos de cozinha. E, o melhor de tudo, meu marido e eu temos o prazer de dar ao nosso filho pequenas porções de frango com páprica, feijões brancos à Toscana com salada de atum e "aloo gobi" (um prato de couve-flor), preparados por uma comunidade confiável de amigos e vizinhos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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