UOL Notícias Internacional
 

29/06/2010

Promessas de redução dos déficits e dívidas ofuscaram outras realizações do G20

The New York Times
Sewell Chan
Em Toronto (Canadá)
  • O presidente dos EUA, Barack Obama, se reúne com presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono (extremo à direita) em pequeno almoço durante a Cúpula do G20, em Toronto, no Canadá

    O presidente dos EUA, Barack Obama, se reúne com presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono (extremo à direita) em pequeno almoço durante a Cúpula do G20, em Toronto, no Canadá

Ao concordarem em reduzir seus déficits pela metade até 2013, os líderes das maiores economias do mundo superaram algumas de suas expectativas modestas: “Honestamente, isto é mais do que eu esperava, porque é bastante específico”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel.

Mas o encontro dos líderes do Grupo dos 20, apesar de reconhecer os desequilíbrios que já existiam antes da crise financeira global, não tratou das questões estruturais fundamentais que abalam a estabilidade econômica mundial.

Os Estados Unidos ainda poupam e investem muito pouco e gastam e tomam empréstimos demais. A China está manipulando sua moeda –apesar de prometer reduzir isso– para estimular sua economia dependente de exportações. A Europa, recém-enamorada por testes de estresse e parcimônia, ainda lida com programas sociais caros diante de perspectivas ruins de crescimento.

“Um leitor casual do documento presumiria que os membros do G20 estão todos de acordo, quando na verdade os países estão se movendo em direções bastante diferentes”, disse Stewart M. Patrick, um membro sênior do Conselho de Relações Exteriores, sobre a declaração conjunta de 27 páginas divulgada na tarde de domingo, na conclusão do encontro.

Apesar da falta de uma estratégia econômica comum, o presidente Barack Obama deixou implícito que não há uma alternativa melhor para estabelecer uma negociação econômica. “O G20 agora é o principal fórum para a cooperação econômica internacional”, ele disse.

O G20, que começou como um encontro de ministros financeiros e presidentes de bancos centrais em 1999, após a crise financeira asiática, se transformou em um encontro de líderes nacionais após a crise financeira de 2008. Os líderes do Brasil, China, Índia, México e Coreia do Sul, entre outros, ingressaram na discussão há dois anos.

Em Washington, em 2008, e em Londres e Pittsburgh, no ano passado, todos estavam unidos em relação à necessidade de gastos de estímulo, reforma do sistema financeiro e o que chamaram, na linguagem do G20, de “estrutura para um crescimento forte, sustentável e equilibrado”.

Mas tão logo os piores temores desapareceram, apesar da recente crise da dívida europeia, também desapareceu a urgência de um consenso.

David Shorr, um diretor de programa da Fundação Stanley, uma organização em Muscatine, Iowa, que promove a cooperação global, disse que o G20 deveria receber crédito por ao menos confrontar os problemas.

“Se não quisessem seriamente enfrentar os desequilíbrios, eles não falariam tanto sobre eles”, ele disse. “A única coisa que deixaria os céticos satisfeitos seria um ‘Como Consertar os Desequilíbrios em 10 Passos Fáceis’. Não é assim que as coisas acontecerão.”

Raghuram G. Rajan, um ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, concordou. “Nós realmente devemos ver essas reuniões como oportunidades para os líderes ficarem mais à vontade uns com os outros, para discutirem paralelamente questões bilaterais e para abençoar os acordos técnicos conseguidos nesse ínterim”, ele disse, “em vez de ocasiões que alterarão a política macroeconômica do mundo”.

Obama, que chegou à reunião alertando que um recuo muito rápido nos gastos poderia sufocar a recuperação econômica, partiu concordando com os líderes de outros países ricos em reduzir pela metade seus déficits até 2013 e estabilizar a relação entre dívida pública e produto interno bruto até 2016.

Os assessores da Casa Branca insistiram que as metas orçamentárias estão de acordo com o que o governo Obama já propôs, eles disseram, e a ênfase de Obama no crescimento foi amplamente ouvida.

De fato, Obama insistiu que os desequilíbrios do passado acabaram.

“Após anos se endividando demais, os americanos não podem –e não vão– tomar empréstimo e comprar o caminho do mundo para uma prosperidade duradoura”, ele disse no domingo. “Nenhum país deve presumir que seu caminho para a prosperidade será simplesmente pavimentado com exportações para os Estados Unidos.”

Outros líderes, como é típico nesses encontros, também apontaram para vitórias. O novo primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, evitou qualquer confronto público a respeito do vazamento de petróleo da BP. Ele e Merkel, a principal defensora da austeridade da Europa, deram um apoio crucial à proposta do primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, de estabelecimento de metas para redução do déficit. O novo primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, conseguiu uma redução das metas para seu país, que está altamente endividado, apesar de muito pouco de sua dívida estar nas mãos de estrangeiros.

Países desenvolvidos do G20 prometem reduzir déficit público dos países membros

A moeda da China, o yuan, valorizou apenas ligeiramente desde que a China anunciou na véspera do encontro que permitiria gradualmente que ela flutuasse. Obama, apesar de argumentar que a medida foi tomada por interesse próprio pela China, disse que seu governo ficará atento para ver se a China a cumprirá.

As promessas de déficit e dívida ofuscaram outras realizações: um compromisso de financiamento de US$ 5 bilhões para saúde materna, uma promessa de acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis e uma linguagem dura para os novos padrões de capital dos bancos, que serão concluídos neste ano.

Mas de certa forma o corte do déficit é a parte relativamente fácil. Em linguagem indireta, a declaração do G20 estabeleceu recomendações intimidantes.

A China deve promover o consumo doméstico fortalecendo sua rede de segurança social (para que seus trabalhadores não tenham que poupar tanto) e valorizando sua moeda (para que seus trabalhadores tenham maior poder aquisitivo). Os Estados Unidos devem expandir suas exportações, que Obama prometeu dobrar em cinco anos, e evitar o protecionismo no comércio, como ameaçaram os democratas no Congresso. A Europa deve reduzir os gastos alterando as regras onerosas do mercado de trabalho e outras regulamentações que impedem a formação e crescimento das empresas. E os países do G20 devem concluir a muito adiada rodada de Doha das negociações de comércio mundial, apesar de poucos esperarem que isso acontecerá tão cedo.

Alan S. Alexandroff, que dirige do Grupo de Pesquisa do G20 na Escola Munk de Assuntos Globais da Universidade de Toronto, disse que o G20 e o G8 (que se reuniu na sexta e sábado em um resort à beira de um lago, há duas horas ao norte daqui) costumam ser “duramente criticados e frequentemente tratados como irrelevantes” porque não produzem acordos legalmente vinculantes.

Mesmo assim, ele disse que a perspectiva de uma cooperação global mais inclusiva, mesmo em condições informais, é real. “A crise é diferente da recuperação”, ele disse. “Manter esses países em uma estrutura comum de cooperação é um teste, e este encontro passou nesse teste.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h19

    -0,84
    3,152
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h23

    1,07
    68.706,31
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host