UOL Notícias Internacional
 

30/06/2010

Procurando a ajuda divina para um Golfo do México ferido

The New York Times
Dan Barry
Alabama (Estados Unidos)
  • Em uma construção na qual antigamente funcionava uma fábrica de redes de camarão, está a congregação da Igreja Batista dos Pescadores

    Em uma construção na qual antigamente funcionava uma fábrica de redes de camarão, está a congregação da Igreja Batista dos Pescadores

Em um pequeno prédio branco ao longo do Rio Bon Secour, uma construção na qual antigamente funcionava uma fábrica de redes de camarão, a congregação da Igreja Batista dos Pescadores se reuniu para mais um culto de domingo, e o pastor presidiu a cerimônia em um púlpito feito de forma a lembrar o timão de um comandante de navio.

Após o hino de abertura, “Ring the Bells of Heaven” (“Soam os Sinos do Céu”), e do anúncio de que um casal de noivos está agora trabalhando para a Walmart, o pregador leu em voz alta uma proclamação do governador Bob Riley declarando que este seria um “dia de orações” - um dia de súplicas para que seja afastada a terrível ameaça ao estilo de vida que prevalece do lado de fora das portas brancas da igreja.


Apesar, apesar e apesar, dizia a proclamação. Povo do Alabama, por favor, ore pelos cidadãos do nosso Estado, pelos outros Estados, e por todos os que estão respondendo. E peça “que a solução para conter o vazamento de petróleo seja encontrada em breve”.

Em outras palavras, Deus amado, obrigado pelas suas bênçãos e orientação. E, mais uma coisa, Deus amado: Socorro!
As palavras do governador ficaram suspensas por um momento na atmosfera movimentada pelos ventiladores da igreja. A seguir, o pastor Shawn Major, conclamou os homens da igreja a virem até defronte ao púlpito a fim de “pedirem a Deus algo de especial”.

Vinte e quatro homens, muitos deles usando camisas de manga curta em cores de verão, ajoelharam-se e sentaram-se com a cabeça inclinada e os olhos fechados enquanto que a quase um quilômetro dali, na rua da igreja, outros homens – e mulheres – recebiam treinamento para usar um instrumento capaz de gerar uma forma mais secular de esperança: barreiras de contenção contra o petróleo.

A divisão entre igreja e Estado desmoronou no domingo passado, quando líderes eleitos de cinco Estados do Golfo do México declararam que aquele seria um dia de orações. Embora dias de orações não sejam incomuns por aqui – Riley declarou um dia de orações, alguns anos atrás, para que a população pedisse chuvas para aliviar a seca que se abatera sobre o Estado –, essas proclamações transmitiram a sensação de que, desta vez, a salvação contra o vazamento de petróleo exigirá a intervenção divina.

Nos dois meses decorridos desde que a fatal explosão da plataforma Deepwater Horizon deu início a um incessante vazamento de petróleo no Golfo do México, danificando o ecossistema e conturbando a economia, os esforços dos reles mortais para conter o fluxo de petróleo têm fracassado. Robôs e bolas de golfe, e até mesmo uma maciça cúpula de contenção, tudo isso parece ter sido pequeno demais diante da magnitude do problema.

Assim, um método suplementar passou a ser experimentado: a oração coordenada.

No Texas, o governador Rick Perry encorajou os texanos a pedirem a Deus “a sua intervenção e cura piedosas neste momento de crise”. No Mississípi, o governador Haley Barbour declarou que a oração “nos proporciona uma oportunidade para refletir e buscar orientação, força, conforto e inspiração de Deus Todo Poderoso”. Na Luisiana, o governador Bobby Jindal usou o termo “apesar de” doze vezes – bem como o pássaro símbolo do Estado, o pelicano marrom – mas não mencionou diretamente Deus. Na Flórida, o vice-governador Jeff Kottkamp pediu à população que rezasse para que Deus “guie e oriente os nossos líderes civis e forneça a eles sabedoria e soluções divinamente inspiradas”.

A sugestão do governador para que a população suplicasse a Deus por ajuda – que apelasse a um poder maior do que o de qualquer autoridade eleita – ecoou nas igrejas e nas prefeituras de Pensacola, na Flórida; de Galveston, no Texas, bem como aqui, em Bon Secour, onde o irmão Harry orava com a cabeça baixa.

A Igreja Batista dos Pescadores foi inaugurada nesta pequena cidade – cujo nome significa porto seguro – em 1989. Uma âncora decora o gramado na frente da igreja. As suas paredes estão adornadas com quadros mostrando cenas marinhas. As suas caixas de correspondências estilizadas são um farol de sinalização marítima em miniatura e uma arca de tesouros de piratas. O cais do outro lado da rua é usado para batismos e para pescarias.

Tudo isso são reflexões do fundador e pastor da igreja, Wayne Mund, que cresceu aqui. O seu pai, avô e bisavô foram todos pescadores, e ele também foi, até os 21 anos de idade, quando abandonou as redes de pesca e ingressou em uma escola bíblica. Mund, 66, um homem magro que se define com orgulho como “batista bíblico”, se esforça para unir o seu passado marítimo à sua atual missão. Ele vê a Bíblia, desde o Livro de Gênesis até o Apocalipse, como um livro náutico, e o mar como um cenário impressionante. Ele termina as suas conversas advertindo que aqueles que não embarcarem no navio da salvação de Deus “afogar-se-ão em um mar de pecado e desespero”.

E agora o desespero oleoso no mar está afetando a sua pequena igreja e a sua comunidade. Menos envelopes estão sendo colocados na arca do tesouro e no farol marítimo no fundo da sala porque alguns dos 200 membros da igreja não têm mais condições financeiras de pagar o dízimo. Menos pessoas estão participando dos cultos porque os pescadores, que normalmente tiram folga aos domingos, estão agora trabalhando para a British Petroleum, ajudando a limpar o material oleoso que está atingindo as costas do Golfo do México e a Baía Mobile.

“O mar, o mar, o mar”, diz Mund. “Isso tem a ver com o mar”.

Mund acredita que não estará na cidade no domingo, de forma que encarregou o seu vice, Major, de presidir o culto das 10h30. Major tem 46 anos de idade, é corpulento e tem mais facilidade para sorrir do que Mund quando está pregando.
O vazamento que está atingindo o rio, e o mundo, tem sido difícil de entender, e ele espera que o sofrimento humano não se prolongue por mais um ano.

Major passou o sábado com 70 homens e mulheres. Todos estavam aprendendo a instalar uma barreira de contenção de petróleo. Mas agora ele está na companhia de outros 70 homens e mulheres, todos rezando no seus nove bancos de igreja; todos dizendo amém após Major afirmar: “Nós ainda somos uma nação cristã”. Todos concordando quando ele diz que todo mundo sabe “quem acabará contendo o vazamento”.

Um missionário que está prestes a partir para o Brasil aguardava para fazer uma apresentação de multimídia, mas primeiro esses homens ajoelhados, liderados pelo irmão Harry – Harry Mund, um parente do pastor – tinham que concluir as suas orações.

“Deus, por favor, nos ajude com esse terrível vazamento de petróleo”, disse ele. “Em nome de Jesus. Amém”.
Os homens ficaram de pé e retornaram aos seus bancos, e dois deles enxugavam lágrimas dos olhos.

 

Tradução: UOL

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