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30/06/2010

Rede de espiões "ilegais" é famosa na tradição russa

The New York Times
Ellen Barry
Em Moscou (Rússia)
  • Soldados marcham em Moscou na comemoração pelos 65 anos da vitória sobre a Alemanha

    Soldados marcham em Moscou na comemoração pelos 65 anos da vitória sobre a Alemanha

Na tradição da espionagem russa, poucas figuras são mais respeitadas do que os “ilegais”, agentes com a inteligência de um grande mestre de xadrez e a fortaleza de um cosmonauta.

Treinados meticulosamente no Diretório S da KGB, os ilegais passavam anos assumindo uma biografia falsa, conhecida em russo como uma “lenda”, e então aguardavam ordens disfarçados por anos, até mesmo décadas. Diferente de seus pares “legais”, eles trabalhavam sem uma proteção diplomática, que lhes ofereceria imunidade contra perseguição. Eles eram recompensados com o tipo de adulação que os americanos reservam aos astros de cinema.

Leia reportagem especial do 'The New York Times':

Nesta semana, a prisão desconcertante de 11 pessoas parece oferecer um vislumbre de uma forma recente do programa. A Rússia fez poucos comentários sobre as acusações específicas, apesar de ter chamado as prisões de “infundadas” e “impróprias”.

Mas se os promotores estiverem corretos, duas coisas parecem claras: primeiro, a rede de ilegais da Rússia sobreviveu, e talvez até mesmo tenha crescido, após o colapso da União Soviética. Segundo, a missão dos agentes –coletar informação sobre os políticos e conhecer os autores de políticas– agora pode ser obtida por meios mais diretos.

“Me parece uma abordagem muito bem organizada, muito bem concebida e muito ultrapassada”, disse Olga Oliker, uma analista de políticas da RAND Corp. “Eu apostaria em inércia burocrática. É uma abordagem terrivelmente ineficaz, mas algo que faria sentido em um período anterior.”

Após a Revolução de outubro de 1917, os soviéticos tinham bons motivos para desenvolver a coleta de inteligência disfarçada. Poucos países reconheceram formalmente a União Soviética, de forma que não havia uma proteção diplomática disponível.

Era uma questão simples de fabricar uma identidade estrangeira –a agência obtinha registros de bebês estrangeiros que morreram, como escreveu Galina Fedorova em um livro de memórias de 1994 sobre a vida como uma ilegal. O que se seguia era um treinamento exaustivo, testes psicológicos para uma vida em isolamento e estresse. O candidato ideal era solteiro; apesar de alguns agentes desfrutarem do conforto de serem posicionados como casais, se tivessem um filho este era imediatamente enviado de volta à União Soviética, escreveu Fedorova.

O general Yuri I. Drozdov, 85 anos, que dirigiu o programa de ilegais por mais de uma década enquanto estava na KGB, chamou seus recrutas de “crianças-prodígio”, pessoas que frequentemente falavam três ou quatro línguas com fluência nativa. Ele disse pouco a respeito do processo de treinamento, exceto chamá-lo de “muito longo”.

“Nós temos nosso processo para criá-los”, disse Drozdov. “Vocês têm seu método dr. Spock; nós temos nossos próprios meios.”

Ao longo da era soviética, esses agentes eram recompensados com adulação. Ilegais como Rudolf Abel e Konon Molody se tornaram tamanhos heróis nacionais que o Serviço de Inteligência Externa, ou SVR, ainda posta suas biografias em seu site. Um seriado de televisão querido narrava a vida fictícia de um agente disfarçado, Max Otto von Stirlitz, enquanto ele penetrava no círculo interno de Hitler. O primeiro-ministro Vladimir V. Putin, que serviu como agente da KGB na Alemanha Oriental nos anos 80, disse que o personagem Stirlitz ajudou a moldar uma geração inteira de jovens russos.

As recentes prisões serviram como um lembrete de que a tática ainda é usada. Em 2006, as autoridades canadenses deportaram um cidadão russo suspeito de espionar sob uma suposta identidade canadense, Paul William Hampel. Em 2008, os serviços de inteligência estonianos disseram ter desmascarado um agente do SVR chamado Sergei Yakovlev, que estava recrutando agentes sob a identidade de Antonio de Jesus Amurett Graf, um empresário português que morava em Madri.

Então ocorreram as prisões nesta semana de 11 pessoas acusadas de coletarem informações sobre políticas e políticos americanos.

A missão deles, como denunciada pelos promotores, levanta uma pergunta simples: agora que os autores de políticas dos Estados Unidos visitam rotineiramente a Rússia e tratam com lobistas estrangeiros, grande parte dessa informação é de fácil acesso. Por que se dar ao trabalho de uma operação cara e de alto risco?

Especialistas apontaram na terça-feira para políticas institucionais. Os serviços de inteligência da Rússia foram lançados no caos durante o início dos anos 90, quando agentes partiram em grande número e vastos ativos no estrangeiro desapareceram. Mas em uma década eles se recuperaram, reconstruindo suas redes até atingirem a mesma proporção que tinham no final da era soviética, disse Leonid M. Melchin, autor de cinco livros sobre os serviços de inteligência na Guerra Fria.

Nikolai Zlobin, um analista do Centro para Informações de Defesa, com sede em Washington, disse que a rede de ilegais recebia o apoio de pessoas que desejavam “o retorno do velho sistema, com o qual estavam familiarizadas”.

“Ele foi glorificado. É uma atividade romântica para várias gerações de soviéticos, incluindo a geração de Putin”, ele disse. “Pessoas que trabalham na estrutura central fazem de tudo para reconstruir o sistema. Eu conheço algumas delas e muitas delas acreditam fazer a coisa certa pela Rússia.”

Mas ele, como outros especialistas entrevistados na terça-feira, estava coçando sua cabeça a respeito dos detalhes da suposta rede de espionagem. Para os russos, o termo “ilegais” sugere disciplina e um esforço meticuloso para ocultar sua nacionalidade; tradicionalmente, eles trabalham em isolamento, para não correrem o risco de colocar em perigo um disfarce desenvolvido com cuidado. Entre as pessoas presas nesta semana estavam várias que usavam nomes russos, falavam abertamente russo ou apresentavam sotaques russos.

Amy W. Knight, que escreveu a respeito da inteligência soviética, disse que os ilegais eram famosos por sua capacidade de permanecerem disfarçados por anos e retornarem à Rússia sem serem pegos.

“Eles tinham um programa extenso e usavam muitos ilegais”, disse Knight. “Este novo escândalo sugere que ou a SVR não é tão profissional quanto suas antecessoras, ou está mais fácil para o FBI rastreá-los, por causa da tecnologia sofisticada que possui.”

*Anna Tikhomirova, em Moscou, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato*

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