UOL Notícias Internacional
 

30/06/2010

Suspeitos de espionagem nos EUA careciam de segredos para enviar a Moscou

The New York Times
Scott Shane e Benjamin Weiser*
Em Washington (EUA)
  • Esta é a casa de Vicky Pelaez e Lazaro Juan, dois dos onze russos suspeitos de espionagens e presos nos Estados Unidos. A casa ficava em Yonkers, Nova York

    Esta é a casa de Vicky Pelaez e Lazaro Juan, dois dos onze russos suspeitos de espionagens e presos nos Estados Unidos. A casa ficava em Yonkers, Nova York

A suposta rede de espiões russos exposta por FBI nesta semana tinha todos os elementos necessários para espionagem de alto nível: treinamento excelente, equipamentos de ponta, profundo conhecimento da cultura americana e histórias de fachada meticulosamente elaboradas.

A única coisa ausente em mais de uma década de operação: segredos de fato para enviar para casa, para Moscou.

As missões, descritas em instruções secretas interceptadas pelo FBI, eram coletar fofoca política rotineira e conversas sobre políticas que poderiam ser obtidas de forma mais eficiente navegando pela Internet. E nenhuma das 11 pessoas acusadas no caso enfrentam acusações de espionagem, porque em todos esses anos elas nunca foram pegas enviando informação confidencial para Moscou, disseram as autoridades americanas.

“O que eles achavam que conseguiriam com isto nos dias de hoje?” disse Richard F. Stolz, um ex-chefe de operações de espionagem a CIA e ex-chefe de estação em Moscou. “O esforço é desproporcional aos supostos benefícios. Eu não entendo o que eles esperavam.”

Leia reportagem especial do 'The New York Times':

Enquanto veteranos da Guerra Fria se perguntavam sobre a lógica por trás do esforço extraordinário da Rússia para infiltrar agentes na sociedade americana, tanto autoridades russas quanto americanas sinalizaram que as prisões não afetariam as relações calorosas entre os dois países.

Em um encontro com o ex-presidente Bill Clinton na terça-feira, Vladimir V. Putin, o primeiro-ministro e um ex-espião, disse: “Sua polícia exagerou ao colocar pessoas na prisão”.

Mas ele minimizou o episódio: “Eu realmente espero que as realizações positivas conseguidas ultimamente por nossas relações intergovernamentais não sejam prejudicadas pelos eventos recentes”.

O secretário de imprensa da Casa Branca, Robert Gibbs, apresentou uma nota semelhante.

“Eu não acredito que isso afetará a reinicialização de nosso relacionamento com a Rússia”, ele disse.

“Nós conseguimos um grande progresso no último ano e meio trabalhando em questões de interesse mútuo.”

Ao ser perguntado se a Casa Branca considerou ofensivo sua parceira estar espionando nos Estados Unidos, ele disse que o caso era “importante”, mas um assunto das autoridades de manutenção da lei.

Enquanto isso na terça-feira, a polícia de Chipre prendeu um homem conhecido como Christopher R. Metsos, o último dos suspeitos de espionagem a ser detido, e as autoridades americanas revelaram que decidiram efetuar as prisões no fim de semana porque uma das pessoas suspeitas de serem agentes russos, que atendia pelo nome de Richard Murphy, planejava deixar os Estados Unidos na noite de domingo, possivelmente para sempre.

Após anos de meticulosa vigilância, o FBI não queria que nenhum de seus alvos escapasse, e “não é possível pegar um sem pegar todos”, disse uma autoridade.

O FBI prendeu no domingo 10 pessoas em Yonkers, Nova York, assim como em Boston e no Norte da Virgínia, as acusando de conspiração e de não terem se registrado como agentes de um governo estrangeiro. Nove também foram acusadas de conspiração para cometer lavagem de dinheiro.

As autoridades americanas disseram acreditar que a maioria dos acusados de espionagem nasceu na Rússia e recebeu treinamento sofisticado antes de se estabelecerem nos Estados Unidos, posando como casais. Eles conseguiram estabelecer contato com vários americanos de influência ou conhecimento, incluindo um “proeminente financista de Nova York”, descrito como um levantador de fundos para políticos, com laços pessoas com um membro do Gabinete, um ex-alto funcionário de segurança nacional e um especialista em armas nucleares.

Mas eles foram instruídos a não procurarem empregos no governo, porque os chefes de espionagem em Moscou achavam que suas histórias de fachada não resistiriam a uma investigação séria de antecedentes. Então foram instruídos a fornecer a Moscou relatórios sobre questões econômicas, membros do governo americano e assuntos diplomáticos e militares.

Uma, a agente conhecida como Cynthia Murphy, conversava com contatos em Nova York e enviou um relatório sobre “as perspectivas para o mercado global de ouro”, que seus chefes (cuja ortografia nas mensagens em língua inglesa era imperfeita) disseram ter sido muito útil e que foi repassado ao Ministério das Finanças russo.

Antes da visita do presidente Barack Obama a Moscou no ano passado, Cynthia Murphy e seu suposto marido, Richard Murphy, foram instruídos a levantar as intenções americanas, da casa deles em Montclair, Nova Jersey.

“Tentem descobrir seus pontos de vista e as metas mais importantes de Obama, o que ele espera conseguir no encontro de cúpula em julho e como sua equipe planeja fazer isso (argumentos, disposições, meios de persuasão para ‘atrair’ a Rússia a cooperar com os interesses americanos)”, pediram os chefes de espionagem em Moscou, segundo os documentos da acusação.

Mas por que a inteligência russa pediria essas informações para pessoas situadas em Nova Jersey –ou perdidas em Yonkers, como Neil Simon poderia ter dito a respeito de outro casal, que morava na cidade na divisa norte de Nova York– em vez de, digamos, especialistas na embaixada russa ou peritos nos centros de estudos em Moscou ou Washington?

“É um passe desesperado”, disse Milton A. Bearden, que serviu por três décadas no serviço clandestino da CIA e dirigiu sua divisão soviética e no Leste Europeu de 1989 a 1992, durante a queda da União Soviética.

“Talvez eu termine ao lado de um sujeito que é diretor de funcionários de algum comitê e acabemos fazendo churrascos juntos, ou eu treine os filhos dele na Liga Infantil”, disse Bearden. “Não há o que perder.”

Para o governo russo, ele disse, apoiar a chamada operação de ilegais foi provavelmente relativamente barato, particularmente porque alguns dos supostos agentes sustentavam a si mesmos, como mostram os autos do processo.

Uma, Vicky Pelaez, era uma jornalista de um jornal de língua espanhola em Nova York que ganhava cerca de US$ 50 mil por ano, segundo uma declaração apresentada por ela ao tribunal. Outra, Cynthia Murphy, declarou uma renda anual de US$ 135 mil como planejadora financeira. E uma terceira, Anna Chapman, era dona de sua própria imobiliária em Manhattan, que o advogado dela disse no tribunal que foi avaliada por sua cliente em US$ 2 milhões.

Quanto muito, o desafio para Moscou em uma operação de tamanha duração era assegurar a lealdade de seus agentes em meio aos confortos da vida suburbana cotidiana americana. Após o colapso do comunismo, disse Bearden, vários “agentes dormentes” tchecos nos Estados Unidos se recusaram a voltar para casa, dizendo que sentiam que tinham se tornado americanos.

“Como é a vida deles, particularmente quando isso dura anos?” disse Burton Gerber, um ex-chefe da divisão soviética da CIA, sobre os supostos agentes russos.

“A certa altura, você começa a pensar em si mesmo mais como americano ou mais como russo? Sem sentirem que estavam traindo a Rússia, eles poderiam querer apenas levar vidas tranquilas.”

*Reportagem de Scott Shane, em Washington, e Benjamin Weiser, em Nova York (EUA). Clifford J. Levy, em Moscou (Rússia), e Mark Mazzetti e Peter Baker, em Washington, contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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