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04/07/2010 - 00h02 / Atualizada 04/07/2010 - 02h45

Quem são os homens que profissionalizaram as competições de "quem come mais" nos EUA

The New York Times

Em Nova York (EUA)
  • Hattie Nichols, 4, de Cleveland, come um cachorro-quente no Nathan's em Coney Island, Nova York

    Hattie Nichols, 4, de Cleveland, come um cachorro-quente no Nathan's em Coney Island, Nova York

Sem os irmãos Shea, ainda haveria uma quermesse com concurso de quem come mais tortas aqui, uma competição patrocinada por um bar de quem engole mais asinhas de frango acolá. O concurso Nathan de quem come mais cachorros-quente em 4 de julho ainda poderia ser em Coney Island, onde ele começou em 1916.

Mas poucas pessoas fora de Nova York saberiam disso, e certamente esses eventos não seriam transmitidos ao vivo no horário de maior público da ESPN. As palavras “comer” e “competição” não seriam combinadas. Não haveria Federação Internacional de Alimentação Competitiva. E provavelmente, haveria menos concursos de quem come mais, principalmente os realizados no dia da Independência norte-americana: de tortas em Houlton, Maine; pimentas ardidas em Round Rock, Texas; burritos em Coralville, Iowa; e cachorros-quentes vegetarianos em Austin, Texas, só para citar um bocado.


Nenhum deles é maior do que o concurso Nathan. Ao meio dia de domingo, dezenas de milhares de espectadores e milhões de telespectadores devem se perguntar como alguém como o campeão do ano passado, Joey Chestnutcan, engole um recorde de 68 cachorros-quentes em dez minutos.

Alguns podem até se perguntar quem é o responsável. Um deles é George Shea, 45, que usa um chapéu de palha, mestre de cerimônias que metralha a plenos pulmões comentários e histórias improváveis da glória daqueles que se empanturram de comida. O outro é seu irmão Rich, 41, que faz comentários irônicos para a televisão.

Agradeça a eles. Jogue a culpa neles. Xingue-os. Saboreie-os.

“Eles não criaram a alimentação competitiva”, diz Jason Fagone, autor de “Horsemen of the Esophagus”, um livro de 2006 sobre a alimentação competitiva com um título retirado dos lábios de George Shea. “Eles apenas a comercializaram. Foram eles que pegaram essa pacata tradição norte-americana e a transformaram num negócio e num espetáculo.”

Nascidos em Boston e criados principalmente no Estado do Maine numa família com cinco filhos sem nenhum histórico de comer contra o tempo, George e Rich Shea são profissionais de relações públicas com diplomas universitários que cresceram conhecendo melhor o concurso de comer cachorros-quentes no filme “Almôndegas” do que o de Coney Island.

 

“Deixe-me ser bem claro”, disse George Shea recentemente no escritório da federação em Midtown Manhattan com um tom sério e apenas uma sugestão de sorriso. “Apesar de usarmos chapéu de palha, nós não encenamos o musical 'The Music Man' no colegial.”

Eles não eram do tipo que gostavam de palco.

“Nós estávamos no porão da casa de amigos ouvindo Smiths e R.E.M.”, diz Rish Shea. “Não éramos extrovertidos.”

George disse: “Fiz um show de mágica aos 12 anos. Não teve uma boa recepção.”

A explicação de Rich: “Problemas de bilheteria.”

George Shea se formou em inglês em Columbia em 1986, “sem nenhuma direção ou perspectivas”, diz ele. Trabalhou para Max Rosey e Mortimer Matz, veteranos de relações públicas de Nova York com uma queda por ações como o concurso Nathan. Durante a maior parte dos anos 70 e 80, isso significava reunir alguns competidores peso-pesado e algumas dúzias de espectadores. Era um sucesso quando os jornais publicavam fotos. Rosey morreu em 1991.

“Eu estava muito interessado em continuar com o concurso”, disse George Shea. “Era uma de nossas contas. Uma conta muito pequena. Pequena mesmo. Mas era uma coisa clássica de Nova York. Não se pode perder isso.”

Agora os irmãos fazem mais de 80 competições de alimentação por ano, a maioria sem cachorros-quentes. Eles têm um arquivo de cerca de 150 recordes de quem come mais, incluindo pratos como cérebros de vaca, queijo derretido, doces, repolho, caneloni, tortas de siri, salsichas empanadas, calda de oxicoco, lagostim e lulas –para citar alguns que começam com “C”. Cerca de 250 competidores participam exclusivamente de sua Liga Principal de Comedores, embora apenas Chestnut e Takeru Kobayashi ganhem a vida comendo demais.

Chestnut deve defender seu título, mas Kobayashi talvez não apareça no domingo por causa de uma disputa com o laboratório médico.

“Quando penso na época em que estava parado na frente do Nathan com Max Rosey”, diz Wayne Norbitz, que começou a trabalhar lá em 1975 e se tornou seu presidente desde 1989, “e uma mesa de cartas com alguns pratos de cachorros-quentes em meados dos anos 70, e agora vejo no que isso se transformou, fico totalmente surpreso.”

Rich Shea, que se formou em Villanova e teve alguns empregos em publicidade, logo se juntou à empresa de seu irmão, a Shea Communications. A maior parte de seu trabalho de relações públicas era para clientes sérios.

Eles começaram a federação por diversão, e fizeram um logotipo exagerado (leões alados com cachorros-quentes na boca, e uma inscrição em latim que significa: “Engolir, a verdade”) e o nome irônico e sério de Federação Internacional de Alimentação Competitiva, ou Ifoce na sigla em inglês. Em 1999, eles acrescentaram um parceiro, David Baer, e agora têm mais três funcionários de tempo integral.

“Se alguém do ‘The Sun’ em Londres chegar e dizer: 'Ei, nós gostaríamos de fazer um concurso de batatas-fritas, vocês têm algum?'”, diz Rish. “Nós diríamos: 'Na verdade, nós temos um na sexta-feira'. Encontraríamos um lugar e faríamos um concurso de batata-frita.”

Os comilões competitivos costumavam ser moradores locais que entravam no concurso por desafio. Os espectadores eram na maioria passantes. Shtick criou o espetáculo.

“Na época, você não podia dizer: 'Este cara é o campeão do mundo de comer jalapeño, sorvete e chocolate'”, diz George. “E por isso você dizia: 'O estômago dele é um caldeirão onde a comida é cozida pelo fogo de seu fígado!'”

George, que é casado e tem um filho e uma filha, assim como o irmão, apimenta sua narração com referências literárias. Ele é conhecido por enviar a mesma carta para um amigo ano após ano, ou deixar bilhetes em livros sabendo que eles não seriam lidas durante anos.

“Ele não está nem aí se ninguém vai ver a graça, desde que ele ache engraçado”, diz Kevin Pearce, amigo de longa data.

Rich Shea é um humorista com mais improviso, sua falsa seriedade é perfeita para comentar na televisão.

“É impossível que alguém tivesse imaginado essa situação”, disse Pearce sobre a carreira dos Sheas. “Mas não me surpreende que George, principalmente, tenha sido capaz de levar seu senso de humor absurdo a um nível maluco. E não me surpreendo que isso atraia as pessoas.”

Tudo mudou em 4 de julho de 2001, quando Kobayashi quase dobrou o recordo existente, comendo 50 cachorros-quentes. A alimentação competitiva ganhou cobertura internacional. A ESPN passou a transmitir o concurso Nathan em 2004.

“É uma coisa bem diferente de um esporte tradicional, mas é algo que nossos fãs entendem que é uma tradição de 4 de julho”, diz Jason Bornstein, diretor-sênior de programação da ESPN. “E é algo que só os especialistas na área podem nos oferecer de uma forma que nós entendemos.”

Esses especialistas são George e Rich Shea. A ascensão da alimentação competitiva levou à criação de livros, mais eventos transmitidos pela televisão, e até mesmo outras ligas.

“Eles deveriam receber todo o crédito por isso”, diz Norbitz. “Eu não tenho nada a ver com isso, e outras pessoas no Nathan também não. Eles reconheceram uma coisa que acontecia com o concurso de cachorros-quentes Nathan, tiveram o insight de que isso poderia ser desenvolvido para além do Nathan. E, de fato, criaram esta liga em torno disso, o que é muito louco, não é?”

Quase tão louco quanto empurrar 68 cachorros-quentes goela abaixo em 10 minutos.

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