UOL Notícias Internacional
 
10/07/2010 - 01h44

Novas ameaças aos imigrantes deixam África do Sul tensa

The New York Times
Barry Bearak
Johannesburgo (África do Sul)
  • Criança assopra sua vuvuzela na Copa do Mundo na partida entre Argentina e Grécia

    Criança assopra sua vuvuzela na Copa do Mundo na partida entre Argentina e Grécia

A Copa do Mundo termina no domingo e a África do Sul, como um personagem de desenho animado com um anjo sobre um ombro e um diabo sobre o outro, festejará sua realização bem-sucedida do torneio de futebol ao mesmo tempo em que se prepara para uma possível violência voltada contra os imigrantes pobres em seu meio.

Por meses, as ameaças têm atormentado virtualmente toda cidade e favela, com alertas de que assim que o apito final soar, os turistas partirem e o mundo desviar seus olhos, as vuvuzelas e bandeiras serão substituídas por tochas e facões quando começarem os ataques contra os zimbabuanos, moçambicanos e outros.

“Eles nos dizem que temos que partir até domingo, ou veremos sangue, muito sangue”, disse Precious Ncube, 25 anos, uma zimbabuana que vive em uma cidade próxima de Pretória.

Muitos no governo consideram essas ameaças como rumores transformados em histeria graças à repetição. Todavia, as forças de segurança estão em “alto alerta”, disse o ministro da polícia, Nathi Mthethwa, na semana passada. As forças armadas já demonstraram sua força em algumas áreas de conflito potenciais. Grupos de direitos humanos e a Fundação Nelson Mandela realizaram apelos pela paz.

Na sexta-feira, enquanto alguns imigrantes fugiam do país, o poderoso Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos, ou Cosatu, pediu ao governo para abrir os estádios para pessoas que possam precisar de refúgio, dizendo: “Certamente, dado os bilhões de rands que acabamos de gastar na Copa do Mundo, onde nenhuma despesa foi poupada, nós não podemos colocar em risco a vida das pessoas”.

Há bom motivo para apreensão.

Durante duas semanas em maio de 2008, pelo menos 60 pessoas, a maioria de países africanos próximos, foram mortas por grupos de pessoas. A violência, sufocada em um lugar apenas para reaparecer em outros, ocorreu em Johannesburgo, Cidade do Cabo, Durban e em outros lugares. Cerca de 35 mil pessoas foram expulsas de suas casas.

Esses paroxismos de incêndios e saques foram chamados de “ataques xenofóbicos” e a imagem definidora foi a de um homem moçambicano nos momentos finais de sua vida, após lhe botarem fogo.

O governo foi lento em intervir. Thabo Mbeki, o então presidente, se manifestou apenas tardiamente. Milhares dos deslocados dormiram no chão de delegacias, igrejas e salões comunitários. Voluntários sul-africanos, assustados com os ataques, alimentaram os famintos e organizaram abrigos.

Fungai Makota, uma mulher zimbabuana de 36 anos que é dona de uma pequena mercearia em Johannesburgo, lembrou de ter sido expulsa de sua loja em 2008. Todo seu estoque foi saqueado e seu marido, um moçambicano, sofreu sérios ferimentos na cabeça após ser furiosamente agredido.

Como tantos outros, ela está tentando entender por que essas ameaças ressurgiram agora e quanto perigo ela corre. Ela deve permanecer ou partir, continuar a vender seus produtos ou escondê-los?

“Tantas pessoas me dizem: ‘Você deve voltar para o local de onde veio; seu tempo na África do Sul acabou’”, disse Makota. “Mas eu vivo aqui há oito anos. Minha vida agora é aqui.”

Durante o mês passado, este país mostrou seu melhor lado ao mundo. Líderes tanto do governo quanto empresariais declararam que a África do Sul foi “bem-sucedida” em mudar sua imagem, que era manchada pela Aids, pobreza e corrupção, em uma de cordialidade, prosperidade e competência.

Parte do charme do país tem sido seu espírito de irmandade pan-africana. Quando a seleção sul-africana foi eliminada da Copa do Mundo, os torcedores passaram a apoiar Gana, a única seleção do continente a avançar na competição.

Mas muitos cidadãos daqui, particularmente os pobres que remendam seus barracos com metal enferrujado e pedaços de madeira jogados fora, se ressentem dos cerca de 5 milhões de estrangeiros que cruzaram a fronteira à procura de trabalho na maior economia da África. Cerca de um terço dos trabalhadores deste país estão desempregados e os imigrantes costumam ser responsabilizados por tomar seus empregos ou roubar seus lares.

“Esses estrangeiros não têm identidades, não têm documentos e mesmo assim conseguem empregos”, disse Ephraim Magoele, 26 anos, um sul-africano desempregado. “Eles estão dispostos a trabalhar por 15 rands por dia”, cerca de US$ 2. “Quando eu preciso de dinheiro, eu tenho que telefonar para minha mãe e pedir que envie algum dinheiro de sua aposentadoria. Por que tem que ser assim?”

Esse ressentimento é fácil de se transformar em ódio – e fácil de ser explorado.

O Programa de Estudos de Migração Forçada da Universidade de Witwatersrand, em Johannesburgo, que examinou os impulsos xenofóbicos do país, conclui que líderes políticos locais frequentemente instigam a violência como forma de promover agendas pessoais. Os proprietários de negócios às vezes as apoiam como meio de eliminar a concorrência. Os saqueadores certamente lucram.

A maioria dos sul-africanos deplorou os ataques de 2008. Na verdade, muitos nas favelas defenderam seus vizinhos estrangeiros ou ofereceram locais para que se escondessem. Mesmo agora, é difícil encontrar pessoas que digam que participarão do expurgo de imigrantes – mas não tão difícil encontrar aqueles que o apoiariam.

“São os estrangeiros que decidirão se os espancaremos ou mataremos; de qualquer forma, eles partirão”, disse Johannes Thabompooa, 41 anos, que alega ter perdido seu emprego há quatro anos e que não trabalha desde então.

O momento dos ataques ameaçados é decididamente bizarro, como se os perpetradores considerassem apropriado matar estrangeiros, mas errado interferir com a Copa do Mundo ao fazê-lo. Em um editorial, o jornal sul-africano “The Mail and Guardian” chamou esse tipo de pensamento de “um tipo calculado de pseudopatriotismo”.

O relato persistente das ameaças pela mídia local aumentou o medo. Na quinta-feira, foi dado destaque a um episódio próximo da Cidade do Cabo, no qual um zimbabuano, Reason Wandi, foi jogado de um trem. Ele disse que seus agressores o condenaram como estrangeiro enquanto abriam a porta.

Em muitas favelas, agora há a expectativa de violência, e notícias de um surto podem provocar outros. Há sempre muitos estopins em contatos próximos – disputas a respeito de moradias e crime, sobre água e toaletes, sobre vitórias em jogos de cartas, sobre quem dormiu com quem.
Durante qualquer inquietação, os lojistas estrangeiros quase sempre são visados. Shahid Butt, um paquistanês, dirige o Vuwani Corner, um mercado pequeno, mas movimentado, em Diepsloot, uma cidade ao norte de Johannesburgo. Sua loja foi saqueada em 2008 e novamente seis meses depois, em uma segunda rodada de ataques.

Semanas atrás, ele parou de renovar seu estoque e disse que pretendia remover a mercadoria durante o fim de semana, por precaução.
“Algumas pessoas vêm aqui, falam tolices e dizem: ‘Nós vamos mostrar para você depois da Copa do Mundo’”, disse Butt desafiadoramente, balançando sua cabeça. “Me mostrar o quê?”

Ele colocou uma maçã no balcão.

“Se você quiser comer esta comida, você terá que agarrá-la com sua mão”, ele disse enquanto uma fila de clientes aguardava. “Esta maçã não saltará dentro da sua boca. Eu cheguei aqui há nove e tenho um negócio. Por que as pessoas locais não têm um negócio? Porque você não terá nada se ficar sentado em casa.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host