UOL Notícias Internacional
 
11/07/2010 - 00h04 / Atualizada 12/07/2010 - 17h45

Guiné segue adiante, mas a velha ordem tem seus defensores

The New York Times

Em Conacri (Guiné)
  • Pessoas esperam em fila para votar na primeira eleição presidencial de Guiné desde 1958

    Pessoas esperam em fila para votar na primeira eleição presidencial de Guiné desde 1958

A história é mais nítida do ponto de vista do perdedor. Uma eleição livre sem precedentes no mês passado levou as pessoas a dançarem nas ruas, mas o clima pode ser melhor percebido nas salas silenciosas daqueles que estão agora do lado errado da curva da história. 

A velha ordem da Guiné, com cinco décadas de ditadura, deixou um desastre – porcos chafurdando em montanhas de lixo, crianças tomando banho em baldes de plástico do lado de fora de cabines sujas da era colonial, e os frequentes surtos de cólera – mas o legado pode não desaparecer tão cedo. 

Então seus defensores falam sem rancor e sua visão prevalece, ainda que nas ruas do lado de fora as pessoas estejam celebrando outra coisa. De fato, o novo caminho por muito tempo cortejado para o país – um lugar com minerais abundantes e ricas plantações mas pouca eletricidade – parece moldado em oposição direta aos contornos do velho caminho. 

“A travessia do deserto durou meio século”, dizia uma manchete recente do jornal “Le Defi” (“O Desafio”). Este é o território – da corrupção, repressão e do governo de um partido – para o qual quase todos aqui, desde os cidadãos que esperaram pacificamente para votar até os muitos candidatos que concorreram à presidência, prometem não retornar. 

Mesmo assim alguns aqui já sentem falta dele. 

“Quando falo de corrupção, ninguém – ninguém – pode escapar dela; isso é cultural”, diz Aboubacar Sompare, candidato do Partido pela Unidade e Progresso, o partido do antigo ditador Lansana Conte. 

O governo de Conte, que durou de 1984 até sua morte em 2008, enriqueceu a ele e seus aliados. 

“Eles acabaram transformando a riqueza do Estado em seu patrimônio pessoal”, comentou o artigo do “Le Defi”, mas isso deixou a Guiné quase no final do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. 

“Ninguém aqui entenderia porque, sendo um ministro, você não compraria casas”, acrescentou Sompare, o ex-presidente da indolente Assembléia Nacional durante o governo de Conte, e antes disso embaixador na França perto do final da ditadura de 26 anos de Sekou Toure. 

“Aceitar comissões, isso é normal”, disse ele, sorrindo. “Se eu o ajudo a ganhar US$ 10 milhões, você tem que me dar US$ 10. Há certas coisas que você não entenderia”, explicou Sompare, apontando para o que ele chama de diferenças entre culturas nacionais. 

No dia das eleições, havia um clima de celebração em toda a capital. Esperando pacientemente em fila para votar, os cidadãos diziam que esta era a primeira eleição livre em que eles votavam, a primeira na qual não havia um governo autocrata para manipular os resultados, destruir a oposição e reinstalar-se no poder. 

Não havia comparação entre esta eleição e a anterior, fraudada, disseram muitos cidadãos. 

“Há uma diferença imensa”, disse o secretário Djenabou Sylla, em fila do lado de fora de uma escola caindo aos pedaços, da época da colonização francesa, que ainda está em uso. “Antes, até os mortos votavam. Desta vez, é transparente.” 

Mas Sompare, um veterano que já foi denunciado por observadores internacionais em muitas eleições, não via nada disso. 

“A mesma coisa”, disse ele sorrindo. 

A única diferença era uma coisa mínima, argumentou: “Não havia candidato do partido do governo desta vez, uma vez que o general do exército que é presidente interino recusou-se a concorrer, mantendo sua promessa. 

Mas logo essa diferença será apagada, na visão de Sompare. “Quem for eleito desta vez ganhará da próxima”, disse com confiança. 

O comparecimento às urnas foi estimado em 77% pela comissão eleitoral do país, e os dois mais votados eram bem diferentes. Os dois candidatos – Cellou Dalein Diallo, 58, ex-primeiro-ministro de Conte, e Alpha Conde, 72, oponente de longa data dos governantes anteriores – vão se enfrentar num segundo turno este mês. Conde foi preso por Conte, enquanto Diallo, um economista, era considerado o rosto tecnocrata do governo de Conte durante seu período no governo, do final de 2004 a 2006. 

Do outro lado da cidade, na mansão à beira mar em que o filho e a viúva de Sekou Toure vivem, também havia um esforço para dizer que a eleição histórica do mês passado foi um legado da era anterior. 

No pátio, banhado pela brisa do oceano, há um templo à memória do homem que liderou a Guiné para sua independência em 1958, e que depois a governou com pulso de ferro, vendo conspirações em todo lugar e oprimindo os acusados de participar. Colegas, amigos, ministros, embaixadores: ninguém estava isento. 

Milhares morreram na prisão Campo Boiro no centro da cidade, muitos morreram de fome com o que as autoridades chamaram de “a dieta negra”, ou foram torturados na “câmara técnica”. Cerca de um quinto da população da Guiné emigrou, muitos para escapar do governo de Toure, escreveu o historiador Martin Meredith. 

Uma figura controversa mesmo depois de morto, Toure é lembrado tanto como um pan-africanista que desafiou com sucesso o governo colonial quanto como um autocrata que encobria seu governo rígido com a ideologia revolucionária. 

“Este grito bestial e nítido, vindo de não sei dizer onde, era na verdade a minha voz”, escreveu um ex-ministro, Alpha-Abdoulaye Diallo, descrevendo uma sessão de tortura durante os anos de Toure, num livro de memórias dos dez anos que ele passou em Boiro. 

Não há sugestão de nada disso nas pareces do páteo adornado com fotos envelhecidas de um Toure sorridente ao lado de líderes mundiais – John F. Kennedy, Jimmy Carter, Valery Giscard d'Estaing, Fidel Castro. Nunca durante seu governo houve uma eleição livre como a de 27 de junho. O jovem Toure, entretanto, vê isso como uma continuação do trabalho de seu pai. 

“A luta que ele liderou, é a conclusão de sua batalha”, disse Mohamed Toure, que tinha 23 anos quando seu pai morreu em 1984 durante uma cirurgia na Clínica Cleveland. 

“O processo por si só pode não ser a ordem que ele queria”, disse Toure, explicando que seu pai era a favor da “descentralização”, e teria preferido eleições para cargos menores do que a presidência. 

Um homem amigável que se descreve como um consultor financeiro, e que passou anos nos Estados Unidos, Toure é hoje secretário-geral do antigo partido de seu pai, o Parti Democratique de Guinee, um nome que alguns cidadãos daqui dizem que os faz tremer. 

Toure, entretanto, diz que ele teve um papel histórico na construção da nação, e que ele espera que isso se repita. “Os piores aspectos são exagerados”, diz ele. “Eu não nego que guineenses perderam suas vidas no processo de construir a nação”, diz ele. Mas acrescenta: “Você precisa ver tudo em contexto. O trabalho do presidente precisa ser colocado na perspectiva da história, a luta pela emancipação da humanidade”, diz ele.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host