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11/07/2010 - 02h02

No Haiti, desabrigados são deixados em situação de perigo

The New York Times
Deborah Sontag
Porto Príncipe (Haiti)
  • Na imagem, barbearia funciona entre as barracas do acampamento montado por haitianos em frente ao palácio do governo

    Na imagem, barbearia funciona entre as barracas do acampamento montado por haitianos em frente ao palácio do governo

Centenas de famílias desalojadas vivem perigosamente numa única fila de barracos plantados ao longo da faixa no meio de uma estrada costeira extremamente movimentada chamada Route des Rails.

Os veículos passam dia e noite, buzinando, levantando poeira e soltando poluentes. Os moradores tentam se proteger usando pneus como parachoques na frente de seus barracos, mas os carros ainda assim os atingem e às vezes os matam. Raramente alguém para para oferecer ajuda, e Judith Guillaume, 23, com frequência se pergunta por quê.

“Eles não tem um coração, ou uma sugestão?”, perguntou Guillaume, que cobre os narizes de seus filhos com sua saia florida quando a fumaça de diesel fica muito forte.

Seis meses depois do terremoto que trouxe ajuda humanitária e atenção de todo o mundo para o Haiti, o acampamento no canteiro do meio da estrada se mistura com frequência com o estado deplorável e entorpecedor da paisagem pós-desastre. Só 28 mil dos 1,5 milhão de haitianos desalojados pelo terremoto se mudaram para casas novas, e a área de Poto Príncipe continua sendo um cenário de uma vida nas ruínas.

Este cenário contém uma variedade de circunstâncias: acampamentos precários e negligenciados; cidades de barracas planejadas com latrinas, chuveiros e clínicas; bairros cheios de destroços onde os moradores voltaram para casas tanto intactas quanto condenadas; e, aqui e acolá, abrigos novos e brilhantes ou território terraplenado para uma cidade do futuro.

Órfãos haitianos têm muito pouco, exceto
uns aos outros


Mas o governo do Haiti tem demorado para tomar as decisões difíceis porém necessárias para sair de um estado de emergência para um período de recuperação. Fraco antes do desastre e enfraquecido ainda mais por causa dele, o governo ficou atônito com a complexidade logística de problemas como a retirada dos escombros e a identificação de locais seguros para realocação.

Em alguns casos, o governo também foi politicamente inconstante em relação a criar novas favelas ou encorajar as pessoas a voltarem para suas casas destruídas quando o solo sob elas ainda pode se mover.

Em outros, ele assumiu a responsabilidade, mas ficou sem ação. Desde o começo de maio, o presidente René Préval pessoalmente se concentrou, em grande detalhe, em fazer com que 11.600 haitianos acampados em frente do Palácio Nacional voltassem para o bairro Forte Nacional. Mas embora o Forte Nacional pareça uma colmeia de pessoas trabalhando na reconstrução, nenhum abrigo de transição foi erguido lá ainda.

Por outro lado, a Agência Adventista de Ajuda e Desenvolvimento, trabalhando diretamente com um prefeito pragmático no município de Carrefour na zona metropolitana de Porto Príncipe, já retirou mais de 500 famílias de sua grande cidade de barracas para colocá-las em casas simples de pinho cujas fundações de concreto incorporaram os destroços reciclados.

“Embora eu tenha perdido minha mãe no terremoto, me sinto muito contente, muito confortável e com sorte de ter esse lugar”, disse Ketly Louis, 33, ao receber os visitantes em sua nova casa no local da antiga que caiu sobre sua mãe.

Ajuda humanitária


Organizações internacionais daqui, embora simpáticas por causa da dificuldade de problemas como a propriedade da terra, criticam o governo por criar obstáculos próprios. Atrasos significativos em liberar produtos na alfândega, por exemplo, atrasam os esforços de recuperação mesmo enquanto o governo coleta taxas substâncias para armazená-los.

E com a temporada de furacões a caminho e muitas barracas e lonas que precisam ser substituídas ou reforçadas, alguns grupos humanitários reclamam do que eles veem como uma falha do governo em articular uma clara estratégia de reassentamento.

“Em todo lugar que eu vou, as pessoas me perguntam: 'Quando sairemos desse acampamento?'”, diz Julie Schindall, porta-voz da organização internacional de ajuda Oxfam para o Haiti. “E eu não tenho uma resposta. É preciso que haja um comunicado sobre como este negócio dos acampamentos será resolvido.”

Autoridades haitianas e da ONU pedem paciência depois do que eles consideraram o maior desastre urbano da história moderna. Eles apontam as conquistas em fornecer alimentos emergenciais, água e abrigo e em evitar a fome, o êxodo e a violência.

“O que não aconteceu não vale nada”, diz Nigel Fisher, vice-representante especial do secretariado geral da ONU no Haiti. “Não tivemos nenhum grande surto de doença. Não tivemos nenhum grande problema de segurança.”

Além disso, eles dizem, o governo haitiano, enquanto administra as pressões às vezes conflitantes dos doadores internacionais, está imobilizado pela destruição ou os danos à maioria de seus ministérios e a morte de grandes números de funcionários públicos. “Desafio qualquer país do mundo a funcionar totalmente nesse estágio depois de tamanho desastre”, diz Imogen Wall, porta-voz do escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

Em Aceh, Indonésia, depois do tsunami de 2004, que deixou o governo nacional intacto, levou mais de dois anos para retirar a população desalojada das barracas, diz Wall.

Segundo Fisher: “Em termos de velocidade, nunca é rápido demais. Mas isso corresponde ao que aconteceu em todo o mundo em situações comparáveis.”

Abrigos perigosos


Há pouco conforto para os moradores do canteiro central da Route des Rails.

Desde o terremoto, pessoas desalojadas aparentemente sem alternativas se enraizaram debilmente nos lugares mais problemáticos – em cima de um lixão municipal, dentro de um cemitério, num campo de futebol cheio de água contaminada.

Mas o acampamento no canteiro central demonstra com acuidade o quão miseráveis muitos acampamentos são e como eles estão escondidos mesmo à plena vista. Todos os dias, milhares de motoristas passam pelos barracos dessa estrada litorânea.

Apenas um quarto de mais de 1.200 acampamentos pós-terremoto são administrados por organizações estrangeiras de auxílio; o restante se organiza por conta própria. No acampamento da Route des Rails, isso significa confiar em Luma Ludger, líder do acampamento, que mantém um registro meticuloso num caderno escrito a mão – e reza.

“Deus toma conta de todos nós”, diz Ludger. Ele apontou para o outro lado da avenida. “E também temos aquelas latrinas.”

Em março, a Islamic Aid, uma organização francesa, montou as latrinas, que obriga os usuários a atravessar correndo a avenida, uma coisa especialmente difícil para os moradores do acampamento que sofrem de diarreia. A Cruz Vermelha também chegou lá e entregou kits de higiene.

“Eles nos disseram que era muito perigoso ficar aqui, e perguntaram o que podiam fazer por nós”, disse Ludger. “Eu disse a eles que precisávamos de terra. Eles responderam: 'nossa, não podemos ajudar com isso' e nos deram pasta de dente.”

Gerta Mojene, mãe de quatro filhos, perguntou a um repórter onde ela podia encontrar um lugar seguro para viver. Questionada onde ela desejava ir, Mojene baixou seus olhos avermelhados e disse: “Para onde quer que vocês me mandem.”

Ludger disse que o prefeito havia falado em evacuar a área do canteiro central pela segurança dos moradores, mas não propôs um local alternativo. “A vida aqui é um jogo de azar, sabe”, diz ele.

Algumas dezenas de moradores foram gravemente feridos por veículos; eles usam gesso e tipóias. Pelo menos três deles morreram, dizem parentes, o pai de um menino nascido no canteiro central na noite depois do terremoto.

O nome da criança é Katastrof Natirèl – Catástrofe Natural.

Uma prioridade presidencial

No começo da primavera, quando muitas cidades de barracas pareciam estar se formando, o presidente decidiu tornar a maior delas no Champ de Mars sua prioridade pessoal. Ele queria demonstrar a lógica do plano do governo para devolver as pessoas a seus bairros de origem, nesse caso o Fort National. Ele queria mostrar progresso e ser associado a resultados.

Mas Préval criou, em vez disso, uma demonstração das dificuldades de encontrar uma alternativa rápida para os acampamentos. O Fort National, uma área densamente povoada no topo de um morro atingido fortemente pelo terremoto, mostrou-se um lugar difícil de ser limpo e repovoado.

A motivação do presidente para se concentrar no acampamento de Champ de Mars foi pelo menos em parte política. A deselegante cidade de barracas, com suas pilhas de lixo, poças de água parada, nuvens de mosquitos, bandos de ladrões e uma população cada vez mais inquieta, fica em frente ao jardim do Palácio Nacional destruído.

No acampamento, onde os moradores ficam nus e tomam banho ao ar livre, agachando-se em pequenas banheiras de plástico, muitos ainda não sabem que se tornaram o projeto de brinquedo do presidente. “Ninguém nos diz nada”, diz Micheline Félix, 30. “Parece que eles estão apenas esperando que a próxima chuva forte nos leve daqui.”

Mas desde maio, ali do lado, Préval presidiu reuniões regulares e normalmente longas do grupo de trabalho do Champ de Mars-Fort National; elas começavam às 7h e terminavam “quando o presidente se levantava”, diz Shaun Scales da Organização Internacional para a Migração.

De acordo com Leslie Voltaire, o enviado especial do Haiti para a ONU, a teoria era de que aqueles que tinham lares intactos receberiam algum tipo de incentivo para voltar; os que tinham casas que podiam ser reformadas receberiam materiais e assistência para consertá-las; e os que tinham casas destruídas receberiam abrigo transitório em Fort National ou se mudaram para um assentamento planejado fora de Porto Príncipe.

Logo se tornou aparente, entretanto, que Fort National estava numa situação ruim. Numa pesquisa de engenharia, cerca de 55% de suas estruturas receberam uma bandeira vermelha, o que signficava que elas eram inseguras e destinadas à demolição. Isso é muito mais do que a média de 24 bandeiras vermelhas em outros lugares.

Ao mesmo tempo, apenas 18% das casas em Fort National foram consideradas verdes, ou imediatamente habitáveis – comparadas com 47% de outras áreas pesquisadas.

Além disso, a remoção dos escombros, um problema de US$ 500 milhões do esforço de recuperação, mostrou-se especialmente difícil em Fort National. Especialistas internacionais disseram que levaria de três a cinco anos para remover todos os escombros do Haiti se fossem usados mil ou mais caminhões diariamente; menos do que 300 caminhões estão coletando escombros agora. Mas esses caminhões não são capazes de entrar na maior parte de Fort National, que tem apenas uma rua principal e inúmeras alamedas íngremes. Em alguns lugares, é impossível usar até mesmo carriolas. Os escombros precisam ser carregados em baldes, o que pelo menos oferece empregos.

Tortue Larose, 27, que ganha US$ 5 por dia retirando escombros de Fort National, estava num ponto mais alto e limpo do bairro recentemente, apontando para uma manchinha de plástico verde no meio da sujeira: “Está vendo aquele verde?”, diz ele. “Ali era a minha casa. Foi ali que eu nasci. É lá que pretendo morrer.”

Onde jogar os escombros que enchem os baldes de Larose é outro problema. Não há um plano para gerenciar o entulho de Fort National assim como não há nenhum plano maior para a remoção dos escombros, diz Eric Overvest, diretor do Programa de Desenvolvimento da ONU para o país. Normalmente, diz ele, um plano para gerenciar o entulho é desenvolvido dentro de um mês após um grande desastre. Porto Príncipe, a capital, não tinha um plano anterior ao terremoto, complicando as coisas.

Ainda assim, em quase seis meses o governo identificou apenas um local de depósito, o lixão municipal chamado Truitier. A maioria dos locais são necessários – assim como as decisões quanto à reciclagem ou não do lixo e como ela será feita.

Além disso, os destroços contêm pertences pessoais, e às vezes até corpos; ele também tem um valor monetário potencial se for reutilizado. “Não é apenas o entulho, é a questão da propriedade sobre o entulho”, diz Sacles. A maioria das pessoas em Fort National são locatários, mas o entulho tecnicamente pertence aos donos da propriedade. E descobrir quem é dono de qual terreno, e conseguir sua permissão para escavar se mostrou muito difícil, diz Scales.

“Não é o caso de chegar direto no terreno com uma escavadeira”, diz ele.

Para os poucos lares que permanecem intactos em Fort National, o governo precisa determinar que tipo de pacote de realocação oferecer.

Subsidiarão locadores ou locatários? Ajudarão a pagar o aluguel atrasado ou a negociar o perdão da dívida? Ajudarão as casas que são reparáveis e como os reparos podem ser alinhados com um código de construção que ainda não foi elaborado? Se um abrigo transitório de um cômodo é construído onde ficava o lar de uma família grande, quem fica com ele?

Cada um desses temas gerou muito debate. Um especialista internacional em desastres, que pediu para não ser identificado porque não quer ofender as autoridades do Haiti, deu um “micro-exemplo” de como as questões mais importantes levam tempo para serem resolvidas. Ele contou sobre um panfleto que instruía as pessoas a proteger suas barracas durante a temporada de furacão.

A agência de gerenciamento de emergências do governo primeiro pediu que a frase “à prova de furacão” fosse deletada, disse ele, preocupada em garantir a proteção, e depois pediu para que qualquer referência a ventos fortes fosse removida. Finalmente, apenas a chuva pode ser mencionada e o próprio panfleto não foi aprovado antes do início da temporada de furacões.

“É como se eles se imaginassem num mundo de tijolos e cimento de responsabilidade”, disse o especialista. “Acho que é mais do que falta de capacidade do governante. Eles estão olhando para o cenário político, pesando cada palavra como David Axelrod com um grupo de foco.”
Ainda assim, muitos esperam que o processo do Champ de Mars pelo menos estabeleça o trabalho de base para uma resolução mais rápida de problemas semelhantes em outros lugares.

E alguns moradores do Fort National, cansados de esperar o governo agir, já voltaram para suas casas, mesmo para lugares que foram condenados, ou que seriam inseguros durante uma tempestade.

Negriel Dumas construiu um abrigo rústico para sua família no morro desmatado. “É melhor ficar aqui com o cheiro de cadáveres do que lá em baixo no campo onde cheira a urina”, diz ele.

Defensores agressivos


No final de abril, a família de quatro pessoas de Rachelle Derosmy se mudou para um dos primeiros abrigos transitórios que foram concluídos na área de Porto Príncipe. É uma casa simples de pinho, pintada de cinza, com duas janelas, uma fundação de concreto e um telhado de metal inclinado preso com faixas anti-furacão.

“A chuva entrava como uma monção em nossa barraca”, diz Derosmy, 24, em sua casa de 14 metros quadrados, que ainda não tem móveis. “Estamos nos sentindo muito melhor agora, mais seguros. Esperamos que no futuro também tenhamos camas.”

A nova casa de Derosmy é em Carrefour, onde foi construída a maior parte dos 1.300 abrigos transitórios da área metropolitana de Porto Príncipe. Isso é em parte porque o prefeito de Carrefour assumiu um papel ativo para resolver os problemas de terras e em parte por que Agência Adventista de Ajuda e Desenvolvimento, há muito sediada ali, negociou agressivamente com as autoridades locais e os proprietários de terras. Ela também decidiu mais rapidamente do que outros grupos de ajuda sobre o design do abrigo.

Os abrigos de transição são estruturas simples de madeira ou aço que oferecem mais espaço, privacidade e proteção do que as barracas ou lonas. Eles devem durar de três a cinco anos, organizando a população desabrigada enquanto casas permanentes são consertadas ou construídas. Mas alguns especialistas em desastres têm dúvidas quanto a eles, assim como o presidente do Haiti, de acordo com um alto funcionário do governo. O presidente Préval teme que os abrigos de transição nunca sejam substituídos, disse o funcionário, acrescentando: “Ele acha que será atacado por criar novas bidonvilles”, ou favelas.

Especialistas internacionais estimam que o Haiti precisará de 125 mil abrigos transitórios; até agora, pouco mais de 5.500 foram construídos, a maioria no interior onde as questões de terras são mais simples.

Em Carrefour, a agência Adventista montou uma oficina de produção eficiente, onde a madeira importada é cortada e montada em kits que depois são montados e pintados no local por trabalhadores. Anton De Vries, engenheiro sul-africano que comanda a operação de abrigo, que é copatrocinada pela Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA, diz que está determinado a fornecer uma casa para cada família da cidade-acampamento comandada pelos adventistas.

Alto e alegre, De Vries tropeçou recentemente num proprietário de terra, Henry Frantz St. Surin, numa obra e demonstrou suas habilidades diplomáticas que o ajudaram muito ali. “Obrigado pela sua contribuição”, disse ele em voz alta. “Você é uma das poucas pessoas que permite que os outros usem a terra. Tenho certeza que Deus o abençoará.”

De Vries também encontrou um de seus novos moradores abrigados. “Iu-hu!”, gritou Louis para ele. Ela o convidou a entrar, mostrando sua decoração, uma mistura de flores de pano e animais de pelúcia, e explicou porque ela preferia a nova casa à antiga: “Se outro terremoto acontecer, esta daqui não vai me matar.”

De Vries disse que sua maior frustração é negociar com as autoridades alfandegárias. “Trabalhamos numa parceria com o governo haitiano”, disse ele com um sorriso apertado. Ele diz que não entendia por que o governo não recebia os materiais de emergência e de construção através de seu porto. Ele conseguiu liberar 21 contêineres, o suficiente para concluir pouco mais de 500 abrigos. Mas agora 21 contêineres foram “tomados como reféns” pela alfândega por mais de três semanas – com uma taxa de estoque de cerca de US$ 16 mil até agora.

O problema do porto impulsionou De Vries a comprar madeira local. Preocupado com o desmatamento, ele não queria isso. Mas está determinado a continuar construindo.

Fala versus ação


Por dois meses depois do terremoto, os arquitetos e planejadores do Haiti trabalharam em Pétionville para preparar o plano de verificação de necessidades e de ação pós-desastres para obter financiamento internacional para apoiar a reconstrução do Haiti.

Seus sonhos foram grandiosos. Eles imaginaram o Haiti em 2030 como um território autoconfiante, democraticamente estável, descentralizado e reflorestado com moradias decentes e educação para todos, uma rede de estradas nacionais, uma indústria de frutas e tubérculos, criação animal, áreas industriais e turismo.

“O governo está fazendo coisas boas ao pensar para o futuro”, diz Mario C. Flores, diretor das operações em campo de resposta a desastres para a Habitat for Humanity. “Eu só desejo que todos esses planos aspiracionais se tornem operacionais.”

Numa conferência em Nova York em 31 de março, doadores prometeram US$ 5,3 bilhões para o Haiti ao longo dos próximos 18 meses. Duas semanas depois, embora tenham sido levantadas questões de desistir do controle para os estrangeiros, o Parlamento aprovou a criação de uma comissão interina de reconstrução que será liderada pelo presidente Bill Clinton, enviado especial ao Haiti, e Jean-Max Bellerive, primeiro-ministro do Haiti. Levou mais alguns meses para escolher 26 membros haitianos, e a busca por um diretor executivo ainda continua.

A comissão de reconstrução encontrou-se pela primeira e única vez até agora em meados de junho.

Depois do encontro, um jornalista haitiano perguntou por que houve tanta conversa e tão pouco progresso. Bellerive mencionou a construção de uma estrada e outros projetos no interior e disse: “Há muita coisa sendo feita, mas parte disso pode não ser visível se você se restringe à área de Porto Príncipe”, onde aconteceu a maior parte da destruição.

No começo da primavera, Bellerive e Voltaire, que é um arquiteto e urbanista, visitaram Clinton em sua casa em Chappaqua, NY. Em determinado momento, Clinton ficava se distraindo com mensagens de e-mail que chegavam. De acordo com Voltaire, Clinton disse: “Se eu receber mais uma sugestão para a casa ideal para o Haiti, vou explodir”. E Bellerive respondeu: “Você também?”

Depois disso, o governo contratou uma firma de Londres para solicitar e avaliar propostas para “as melhores casas, as mais seguras e mais sustentáveis para o futuro. Em outubro, várias dúzias de casas-modelo serão construídas e enviadas para uma exposição de casas em Oranger, Haiti. Serão escolhidas pessoas que possam viver nos protótipos e avaliá-los, disse Voltaire.

Eventualmente, casas permanentes serão construídas, mas segundo ele, a apenas alguns passos de onde o governo está agindo através do domínio iminente e esperando transformá-los em novos centros populacionais.

Um desses lugares é Corail-Cesselesse, a cerca de 16 quilômetros ao norte de Porto Príncipe, onde as primeiras cidades-acampamento planejadas foram instaladas em abril numa planície de cascalho e calcário. Criada às pressas para abrigar as pessoas que pareciam mais em risco de enchentes e deslizamentos de terra em outro acampamento, agora ela abriga cerca de 5 mil pessoas que vivem numa grade ordenada de barracas brancas longe de seu bairro urbano movimentado.

Alguns grupos de ajuda criticam o local. “Aquele lugar não representa um pensamento estratégico claro de parte do governo”, diz Schindall da Oxfam. “É como o Sudão. Não há uma árvore à vista. E as pessoas se sentem isoladas. Eles têm problemas sérios em encontrar atividades geradoras de renda e logo começarão a ter problemas para se alimentar. É inevitável.”

Mas vários moradores entrevistados pareciam dispostos a tolerar o isolamento do acampamento porque viver lá os coloca na fila para os abrigos transitórios que devem ser construídos no local, e depois para as casas permanentes que devem vir na sequência.
O pedreiro Jean Mérite Pierre convidou os visitantes para acompanhá-lo à terra sem nada.

“Olhe para esse lugar”, disse ele, apontando para um terreno vazio. “Todas essas pessoas que morreram viviam em casas que caíram como dominós. Então mesmo que estejamos desenraizados, a vida poderia ser melhor aqui. Éramos locatários, quase todos nós. Aqui, talvez, possamos ser proprietários um dia. É o que eles dizem. É preciso acreditar neles.”

Tradução: Eloise De Vylder

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