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14/07/2010 - 00h35

Uns poucos escolhidos participam da organização Teach for America

The New York Times
Michael Winerip,
Em Houston, Texas (Estados Unidos)

Alneada Biggers, da turma da Universidade Harvard de 2010, ficou surpresa nos últimos 12 meses ao descobrir que pode ser mais fácil ingressar na melhores faculdades de direito e nos melhores programas de pós-graduação do país do que ser aceito para um emprego de professor na organização Teach for America.

Biggers conta que do grupo de seus 15 a 20 amigos da Universidade Harvard que se inscreveram para a Teach for America, somente três ou quatro conseguiram entrar. “Não foi uma decisão de último minuto – muitos deles se inscreveram em agosto de 2009; eles eram líderes estudantis e fizeram trabalhos voluntários”, diz Biggers. Ela diz que uma das suas melhores amigas desejava participar da Teach for America, mas foi rejeitada e teve que “se conformar” com a Faculdade de Direito da Universidade de Virgínia.

Will Cullen, da prestigiada Universidade Villanova, tem um amigo que foi rejeitado e que acabou virando pesquisador do Programa Fulbright. Juliane Carlson, recém-formada pela Universidade Yale – da qual um recorde de 18% de recém-formados se inscreveu para a Teach for America –, diz conhecer meia dúzia de colegas de classe “extraordinários” que foram rejeitados, embora o número real seja provavelmente ainda maior. “As pessoas relutam em falar para os outros, devido ao estigma por não terem conseguido entrar”, diz Carlson.

Quando Robert Rosen formou-se pela Universidade da Califórnia em Berkeley, em 2009, ele não se inscreveu para a Teach for America, já que temia ser rejeitado. Em vez disso, ele trabalhou como voluntário semanalmente na sala de aula de um amigo durante o ano seguinte, para ver se gostava de lecionar, mas também para enriquecer o seu currículo de forma a impressionar a Teach for America. Quando lhe perguntam qual o grau de dificuldade para ingressar na organização, James Goldberg, da Universidade Duke, afirma: “Eu compararia isso a ser aceito para uma escola de pós-graduação da Ivy League”.

Goldberg, Rosen, Carlson, Cullen e Biggers consideram-se indivíduos de sorte por estarem entre os 4.500 selecionados – entre 46.359 candidatos – pela organização sem fins lucrativos para trabalharem em escolas públicas com índices elevados de pobreza (um aumento de 32% em relação a 2009). Há pouca dúvida de que os números foram alimentados pela crise econômica, que limitou as opções de emprego até mesmo para indivíduos que se formaram por pelas melhores universidades dos Estados Unidos. Em 2007, durante o boom econômico, 18.172 pessoas se inscreveram.

Neste ano, no seu vigésimo aniversário, a Teach for America contratou mais recém-graduados do que qualquer outro empregador em várias instituições de ensino superior, incluindo Yale, Dartmouth, Duke, Georgetown e a Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. Na Universidade Harvard, 293 recém-formados, ou 18% do total, se inscreveram, contra 100 em 2007. “Diversas opções de emprego em finanças, relações públicas e consultoria foram cortadas”, explica Carlson, da Universidade Yale.

Em entrevistas, 24 indivíduos que em breve serão professores aqui em Houston, um dos oito centros nacionais da Teach for America que fornecem um curso de verão de cinco semanas como prática de ensino em sala de aula, mencionaram a oportunidade de ajudarem crianças pobres e reduzir a lacuna de desempenho escolar entre estudantes pobres e ricos como sendo os principais motivos pelos quais se inscreveram. Victor Alquicira, da Universidade Yale, que nasceu no México, e Kousha Navidar, da Universidade Duke, que nasceu no Irã, disseram que isso é uma chance de retribuir a um país que deu muita coisa a eles.

Mas existem outros atrativos de ordem mais material. A Teach for America tornou-se uma marca de elite que ajuda na criação de um bom currículo, independentemente do fato de a pessoa permanecer ou não na área de ensino. E, durante uma crise econômica, isso é uma garantia de emprego de dois anos de duração com um bom salário; os membros ganham o salário inicial de um professor iniciante nos distritos em que trabalham. Para Cullen, que lecionará em uma escola secundária de Dallas, o salário será de US$ 45 mil (R$ 78.900) por ano – o mesmo que ele ganharia caso aceitasse uma oferta de emprego de uma empresa de relações públicas. Carlson, que também ganhará US$ 45 mil por ano dando aulas para alunos da primeira série em San Antonio, afirma: “Eu acho que tenho muita sorte. Conheço muita gente da Universidade Yale que não tinha um emprego nem um plano ao se formar”.

Contrastando com isso, o Peace Corps (com o qual a Teach for America se compara) paga um salário para cobrir o custo de vida que é ajustado para cada país no qual o voluntário trabalha, e uma ajuda de US$ 7.500 (R$ 13.148) quando termina o contrato de 27 meses.

Embora a Teach for America seja muito bem vista pelos alunos de graduação – Goldberg diz que as sessões de recrutamento na Universidade Duke costumam atrair cerca de 50 estudantes –, a organização nem sempre é avaliada positivamente pelos especialistas em educação.

As pesquisas indicam que, geralmente, quanto mais experientes forem os professores, melhor será o desempenho dos alunos, e vários estudos criticam o índice de evasão de professores da Teach for America.

“Eu sempre fico chocado com todo o barulho que se faz, tendo em vista o tamanho da Teach for America – ela é responsável por apenas cerca de 0,2% do total de professores do país – e o impacto duvidoso da organização no cenário educacional”, afirma Julian Vasquez Heilig, um professor da Universidade do Texas. Heilig e Su Jin Jez, da Universidade do Estado da Califórnia, em Sacramento, publicaram recentemente uma avaliação crítica da organização após analisarem 24 estudos. Um dos estudos citados indicava que “no quarto ano, 85% dos professores da Teach for America tinham deixado de trabalhar” nas escolas da cidade de Nova York.

“Essas pessoas podem ser superstars, mas elas vão embora antes de dominarem a arte de lecionar”, explica Heilig.

Carrie James, uma porta-voz da Teach for America, contestou o relatório. Os comunicados à imprensa da Teach for America citam uma tese de doutorado feita na Universidade Harvard em 2008 que indica que 61% dos seus recrutados permanecem na organização após o final do contrato inicial de dois anos. No entanto, a mesma tese diz também que “calcula-se que poucas pessoas permanecem na sua escola ou profissão inicial mais do que cinco ou seis anos” - um fato que não é citado pela organização.

James diz que o programa tem um impacto que vai além da sala de aula, e que ele gerou uma lista de contato de 13 mil ex-participantes que ainda estão na área de educação, incluindo mais de 500 no “governo ou no setor de elaboração de políticas”. Michelle Rhee, chanceler das escolas de Washington, D.C., e Michael Johnston, um senador estadual do Colorado, são dois desses ex-participantes.

Muitos dos novos membros da Teach for America dizem que ainda é muito cedo para saber se eles permanecerão lecionando. Biggers, que foi aceita pelos programas de direito das universidades Harvard e Vanderbilt, recusou a oferta das universidades e preferiu lecionar em uma escola de ensino elementar durante dois anos. Ela pretende a seguir ingressar em uma faculdade de direito e, após concluir o curso, espera fazer algo na área de educação.

Para serem aceitos pela Teach for America, os candidatos sobreviveram a um longo processo de inscrição, com milhares de eliminações em cada etapa. O processo inclui uma inscrição online, uma entrevista por telefone, a apresentação de um plano de aula, uma entrevista pessoal, um teste escrito e uma discussão em grupo monitorada com vários outros candidatos. Rachel Faust, uma recém-graduada pela Universidade de Maryland que lecionará em Miami, diz ter ficado impressionada com a agressividade de alguns candidatos na sessão de grupo. “Eles nos dizem que aquilo não é uma luta entre candidatos, mas apenas uma discussão de grupo”, explica Faust. “Mas algumas pessoas encaram isso como uma batalha. Elas são muito competitivas”.

Um orçamento operacional de US$ 185 milhões (R$ 324 milhões) – dois terços oriundos de doações privadas, e o restante de fontes do governo – ajuda a financiar o trabalho dos recrutadores em 350 campi universitários a fim de aumentar a quantidade de candidatos. “Eu fui alvo intenso de recrutamento”, diz Alquicira, que era editora do jornal universitário “Yale Daily News” e professora em New Haven, no Estado de Connecticut. “Não sei nem como foi que eles obtiveram o meu nome”.

Os 774 novos recrutas que passam por treinamento aqui estão residindo nos dormitórios da Universidade Rice. Muitos ficam acordados até depois da meia-noite elaborando planos de aula e, às 6h30, já estão dentro de um ônibus para darem aulas de verão a alunos que ficaram de recuperação. É uma lição dura para aqueles que vieram lutar contra a lacuna do desempenho escolar.

Lilianna Nguyen, uma recém-formada pela Universidade Stanford, está vestida formalmente e usa sapatos de salto alto. Ela tenta ensinar a um grupo de alunos da sexta série o conceito de números negativos. Nguyen havia preparado as definições a serem copiadas pelos alunos, mas o projetor que ela usaria quebrou.

Ela também criou um jogo de matemática divertido, dando a cada aluno uma carta com um número. A ideia é que eles façam uma fila, em silêncio, a partir do menor número negativo até o maior número positivo. Porém, um garoto não para de perturbar a aula, gritando, batendo a caneta na mesa, reclamando e dizendo que queria jogar algo divertido, e não um jogo de matemática.

“Por que está havendo conversa?”, pergunta Nguyen ao garoto. “Ninguém deveria estar falando”.

“Eu tenho que participar desse jogo?”, questiona o garoto.

“Você quer passar no curso de verão?”, pergunta Nguyen.

O menino pergunta se, em vez de entrar na fila, poderia empurrar as pessoas para colocá-las na posição certa.

“Essa é a terceira advertência que você recebe”, responde Nguyen. “Não converse na minha aula”.

Tradução: UOL

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