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15/07/2010 - 00h54

Philip Morris é acusada de usar mão-de-obra infantil em plantações de tabaco no Cazaquistão

The New York Times
Andrew E. Kramer
Em Moscou (Rússia)

Uma mulher diz que crianças de até dez anos de idade que trabalham nas plantações de tabaco apresentam manchas vermelhas na barriga e pescoço quando colhem o produto que é utilizado nos cigarros fabricados pela Philip Morris.

Uma outro trabalhadora migrante que trabalha nos campos de tabaco do Cazaquistão conta que um fazendeiro confiscou os seus documentos de identificação e se negou a pagar a ela o salário devido na tentativa de obrigá-la a continuar trabalhando apesar das condições terríveis do local.

A Human Rights Watch, a organização que é mais conhecida por documentar abusos governamentais e crimes de guerra, pretende divulgar um relatório na próxima quarta-feira que mostrará que as práticas de trabalho infantil e forçado estão disseminadas nas fazendas que fornecem tabaco a uma fábrica de cigarros da Philip Morris International no Cazaquistão, na Ásia Central.

O relatório diz que, embora o trabalho infantil deva ser condenado em quaisquer circunstâncias, empregar crianças nas fazendas de tabaco é algo especialmente perigoso porque os trabalhadores dos campos de tabaco são expostos a níveis elevados de nicotina durante essa atividade.

Somente uma pequena fração das aquisições globais de tabaco pela Philip Morris são feitas no Cazaquistão, e todo o tabaco cultivado em fazendas que empregam trabalho infantil é usado para a fabricação de cigarros consumidos nos ex-países soviéticos. Após receber uma cópia prévia do relatório, a Philip Morris declarou que concorda com mudanças amplas na sua política de aquisição de tabaco no Cazaquistão.

“A Philip Morris International se opõe firmemente ao trabalho infantil”, desse Peter Nixon, um porta-voz da Philip Morris, em uma entrevista por telefone do escritório da sua companhia em Lausanne, na Suíça.

A Human Rights Watch diz que, embora o trabalho infantil no setor agrícola seja comum na Ásia Central, o ambiente particularmente prejudicial característico das fazendas de tabaco exige uma atenção especial. O relatório menciona condições de trabalho que seriam perigosas tanto para crianças quanto para adultos. Por exemplo, devido à falta de acesso a água potável, os trabalhadores acabam bebendo água de canais de irrigação contaminados com pesticidas, diz o relatório.

O grupo entrevistou 68 trabalhadores de fazendas de tabaco em um distrito do Cazaquistão durante a colheita, no outono passado, e os identificou apenas pelos primeiros nomes ou iniciais.

Todos eles, incluindo as crianças, são trabalhadores migrantes vindos de países vizinhos da Ásia Central, na sua maioria do Quirguistão. O relatório também documentou violações de regras básicas de segurança de trabalho rural, como o fato de os trabalhadores usarem sapatos abertos, que expõem os dedos dos pés, quando trabalham com enxadas afiadas.

Os pesquisadores da Human Rights Watch documentaram 72 casos de crianças que trabalhavam nos campos de tabaco cazaques, que empregam cerca de mil trabalhadores migrantes a cada temporada.

Muitos deles são pagos por produtividade, com base na tonelada de tabaco colhido. O grupo afirmou que isso se constitui em um estímulo para que os pais tragam os seus filhos para os campos de tabaco na época da colheita. Mesmo assim, segundo o relatório, as famílias recebem apenas umas poucas centenas de dólares pelo seu trabalho semestral, após pagarem as dívidas contraídas junto aos fazendeiros e as despesas da viagem.

“Uma companhia como a Philip Morris sem dúvida conta com os recursos necessários para por um fim a essas práticas”, disse em uma entrevista Jane Buchanan, pesquisadora da Human Rights Watch e autora do relatório.

Nixon, o porta-voz da Philip Morris, afirmou que a companhia já implementa políticas que proíbem a aquisição de tabaco oriundo de fazendas que utilizem trabalho infantil. De acordo com ele, no decorrer dos anos, essa política reduziu as práticas abusivas nas fazendas de tabaco cazaques – uma afirmação que a Human Rights Watch declarou que foi corroborada nas suas entrevistas.

Mesmo assim, Nixon disse que a Philip Morris intensificará os seus esforços para eliminar o trabalho infantil. Ele afirmou que a Philip Morris “apreciou” o fato de a Human Rights Watch ter chamado a atenção da companhia para a persistência desse tipo de abuso.

Mas Buchanan disse que a Philip Morris tem responsabilidade moral pelo destino dos trabalhadores infantis no Cazaquistão, mesmo que a companhia não seja o empregador direto das crianças. Ela citou precedentes estabelecidos por companhias de roupas e calçados esportivos que, no decorrer da década passada, exigiram que os seus fornecedores asiáticos proibissem o trabalho infantil.

“As companhias têm que contar com políticas para o reconhecimento e a retificação de problemas relativos a direitos humanos na sua cadeia de produção”, afirmou Buchanan.

O tabaco pode ser uma cultura prejudicial à saúde antes mesmo de chegar aos cigarros. A nicotina é absorvida pela pele do trabalhador por meio do manuseio contínuo das folhas de tabaco. A enfermidade resultante nos trabalhadores das fazendas de tabaco é chamada de doença do tabaco verde, e provoca náusea, vômitos e vertigem. Manchas vermelhas na pele também são comuns.

O relatório cita estudos que indicam que os trabalhadores dos campos de tabaco podem absorver, em um único dia, uma quantidade de nicotina equivalente àquela absorvida por um indivíduo que fumou 36 cigarros.

“As crianças são especialmente vulneráveis devido ao seu pequeno tamanho corporal em relação à dose de nicotina que absorvem”, diz o relatório.

Os fazendeiros estudados pela Human Rights Watch fornecem tabaco para a Philip Morris Kazakhstan, uma subsidiária da Philip Morris International, com sede em Nova York.

A companhia, que faz parte do Grupo Altria, vende cigarros em 160 países fora dos Estados Unidos, incluindo o Cazaquistão. A Philip Morris USA vende várias das mesmas marcas comercializadas no exterior nos Estados Unidos, sendo que a mais notável é a do cigarro Marlboro. Entretanto, a Philip Morris USA é uma companhia distinta.

Nixon disse que a companhia exigirá que os fazendeiros assinem contratos com trabalhadores adultos durante a temporada de cultivo de tabaco deste ano, e que ela contratará um monitor externo para averiguar se as fazendas estão cumprindo as leis referentes ao trabalho infantil.

Neste ano, a companhia criou uma colônia de férias para os filhos de trabalhadores migrantes da região produtora de tabaco do Cazaquistão. Ela também exigirá que os fornecedores paguem salários mensais, em vez de uma quantia baseada na produção, a fim de desencorajar os pais migrantes a trazerem os seus filhos para ajudá-los nos campos de tabaco.

Em 2009, a receita líquida da Philip Morris International foi de US$ 25 bilhões (R$ 44,1 bilhões) com a venda de cigarros, incluindo marcas comercializadas globalmente como Marlboro, L&M, Chesterfield e Bond Street.

A aquisição de tabaco pela companhia no Cazaquistão é pequena quando comparada às suas operações globais. A Philip Morris comprou 1.500 toneladas de tabaco no Cazaquistão em 2009, mas, naquele ano, o total da sua aquisição global de tabaco foi de 400 mil toneladas. A companhia diz que possui contratos com 300 fazendas no Cazaquistão, empregando cerca de 1.200 trabalhadores sazonais. De acordo com Nixon, esses trabalhadores são acompanhados por uma média de 200 crianças.

O tabaco cazaque é usado apenas para a fabricação de marcas locais desconhecidas fora dos mercados dos países que integravam a antiga União Soviética, incluindo os cigarros Polyot e o Apollo-Soyuz.

Tradução: UOL

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