UOL Notícias Internacional
 
17/07/2010 - 00h01

Após suprimir os reformistas, governo do Irã agora mira os rivais conservadores

The New York Times
William Yong e Robert F. Worth
Em Teerã (Irã) e Washington (EUA)
  • Eu acho que estamos vendo uma espécie de macarthismo iraniano, com Ahmadinejad (<i>foto</i>) buscando se livrar de todos aqueles que não estão ao seu lado, os acusando de serem antirrevolucionários ou anti-islâmicos, disse um analista político iraniano

    "Eu acho que estamos vendo uma espécie de macarthismo iraniano, com Ahmadinejad (foto) buscando se livrar de todos aqueles que não estão ao seu lado, os acusando de serem antirrevolucionários ou anti-islâmicos", disse um analista político iraniano

Após suprimir com sucesso o levante da oposição que ocorreu após as eleições presidenciais contestadas de meados do ano passado, o presidente Mahmoud Ahmadinejad e aqueles que o apoiam agora estão renovando seus esforços para marginalizar outro grupo rival –os conservadores tradicionalistas do Irã.

Os rivais conservadores de Ahmadinejad estão contra-atacando, o acusando publicamente de colocar de lado clérigos e o Parlamento, de buscar uma ideologia “extremista” e planejar consolidar o controle sobre todos os setores do sistema político do Irã.

“Agora que eles acham que se livraram dos reformistas, talvez achem que seja hora de remover seus oponentes principialistas”, disse Morteza Nabavi, o editor do principal jornal conservador, em uma entrevista incomumente franca publicada na sexta-feira no semanário “Panjereh”.

Os conservadores iranianos, incluindo o grupo de Ahmadinejad, prefere o termo “principialismo” do que “fundamentalismo”.

As greves que tiveram início na semana passada no Bazar de Teerã, apesar de provocadas por uma proposta de aumento de imposto, refletem o crescente racha entre as facções conservadoras, com os comerciantes, ou bazareiros, ao lado dos tradicionalistas.

Ahmadinejad frequentemente alimenta os temores dos conservadores tradicionalistas; ele se refere à divisão entre os conservadores, alertando que “o regime tem apenas um partido” em um discurso publicado na segunda-feira em seu site oficial, o que provocou ultraje entre seus rivais conservadores.

“Eu acho que estamos vendo uma espécie de macarthismo iraniano, com Ahmadinejad buscando se livrar de todos aqueles que não estão ao seu lado, os acusando de serem antirrevolucionários ou anti-islâmicos”, disse um analista político iraniano, que se recusou a ser identificado por temer retaliação.

De certa forma, a disputa de poder entre os conservadores é um retorno ao status quo que existia antes da eleição presidencial do ano passado, que provocou a pior dissensão interna no Irã em décadas. Os protestos de rua foram amplamente vistos no Ocidente como um desafio fundamental à teocracia do Irã. Mas após um ano em que as manifestações públicas de revolta fracassaram em causar mudanças palpáveis, a poeira assentou para revelar novamente uma divisão mais básica dentro da elite política do Irã.

O racha é parcialmente um de gerações, com Ahmadinejad liderando um grupo combativo de conservadores apoiados pela Guarda Revolucionária do Irã. Do outro lado está uma geração mais velha de líderes cuja autoridade vem de seus laços com o aiatolá Ruhollah Khomeini, o líder da Revolução Islâmica do Irã em 1979. Os legisladores reformistas agora representam uma minoria em grande parte impotente no Parlamento.

“Ahmadinejad quer uma nova definição de conservadorismo”, disse o analista político. “Ele quer dizer que eles são os verdadeiros conservadores e os outros não são.”

Os conservadores mais velhos, incluindo clérigos, legisladores e os líderes do bazar, que é o centro do antigo sistema de comércio do Irã, há muito questionam a competência de Ahmadinejad e até mesmo acusaram seus ministros de corrupção. Mas recentemente eles foram ainda mais longe, acusando a facção de Ahmadinejad de distorcer os princípios da Revolução Islâmica e de seguir um culto messiânico, que rejeita o papel intermediário do clero.

Para alguns, essas críticas representam um apelo velado dos conservadores tradicionalistas ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, para conter o presidente ou mesmo removê-lo.

As divisões estouraram no mês passado, quando membros conservadores do Parlamento bloquearam os esforços de Ahmadinejad para assumir o controle da maior instituição acadêmica do Irã, a Universidade Azad, que possui campi por todo o país e enormes ativos financeiros. A universidade foi fundada por Ali Akbar Rafsanjani, um ex-presidente e uma das figuras centrais entre os conservadores tradicionalistas. Após a votação, um porta-voz de Ahmadinejad declarou que os legisladores “ajudaram a conspiração”, uma frase frequentemente usada contra manifestantes de rua e grupos terroristas.

No dia seguinte, uma manifestação apoiada pelo governo se formou do lado de fora do prédio do Parlamento, com os manifestantes condenando Ali Larijani, o presidente do Parlamento e um rival conservador de Ahmadinejad.

“Nós revelaremos os parlamentares traiçoeiros”, dizia um cartaz exibido nas fotos publicadas pela “ILNA”, a agência de notícias semioficial do Irã.

Na cidade sagrada de Qom, estudantes pró-governo distribuíam panfletos dizendo “Larijani, devolva nosso voto, você não mais nos representa”.

Larijani contra-atacou, ridicularizando seus críticos como “fomentadores de controvérsia, abusados e sem lógica”.

O aiatolá Khamenei tentou parecer neutro na disputa da universidade, emitindo ordens para Ahmadinejad e Rafsanjani para que ambos os lados suspendessem os esforços para promover mudanças no estatuto da universidade.

Desde então, outra frente foi aberta contra o governo. Membros da classe comerciante do Irã, os bazareiros, passaram a desafiar os planos de Ahmadinejad de extrair deles mais receita tributária. O Grande Bazar central de Teerã, um vasto complexo labiríntico de túneis e pátios em arcos, está fechado em protesto há mais de uma semana e a greve se espalhou para outras grandes cidades.

Apesar da dimensão política dessa disputa ainda não ter adquirido forma plena, a classe comerciante do Irã tem fortes vínculos com o partido conservador tradicional, o Motalefeh, cujos membros também ocupam posições-chave na Universidade Azad. Rafsanjani já foi membro do Motalefeh e continua a manter fortes laços com ele.

Os conservadores tradicionalistas já entraram em choque com o governo de Ahmadinejad em torno de várias questões no ano passado, incluindo nomeações controversas para o Gabinete e um grande esforço para reforma do sistema de subsídios do Estado, que existe há décadas no Irã. Em abril, as tensões aumentaram quando os legisladores conservadores pediram a prisão do primeiro vice-presidente do Irã, Mohammad-Reza Rahimi, por acusações de corrupção.

Mas ultimamente, os termos se tornaram mais duros em ambos os lados.

Na segunda-feira, um proeminente legislador conservador, Omidvar Rezai, alertou que o governo de Ahmadinejad violou a Constituição iraniana e que o Parlamento “poderá fazer uso de seus poderes legais”, incluindo o impeachment e remoção do presidente, segundo o site de notícias “Khabar Online”.

No mês passado, muitos conservadores ficaram chocados quando Hassan Khomeini, o neto do aiatolá Khomeini, foi impedido de fazer um discurso por pessoas pró- Ahmadinejad em um evento que marcava a morte de seu avô.

“O comportamento dos extremistas que não são abertos ao debate ou à lógica abriu uma divisão dentro dos principialistas”, disse Mohammad Ashfrafi-Esfahani, um alto clérigo e membro do corpo que supervisiona os partidos políticos do Irã, em comentários publicados pela “ILNA”. “Esse grupo não poupa ninguém, nem mesmo a casa do imã.” O aiatolá Khomeini é tratado no Irã como imã.

Um editorial de 21 de junho no “Khabar Online”, que acredita-se ser ligado a Larijani, alertava sobre “um movimento extremista, vestindo as roupas do Islã e da revolução”.

Nabavi, o editor de jornal, também sugeriu que a facção de Ahmadinejad pertence a um culto –proibido décadas atrás pelo aiatolá Khomeini– que dá grande ênfase ao retorno profetizado do 12º imã do Islã xiita, que teria desaparecido no século nono. A acusação é familiar, mas os conservadores até agora evitavam fazê-la de forma tão clara e aberta.

“Essas pessoas dizem ter contato direto com o 12º imã, de forma que podem nos liderar”, disse Nabavi na entrevista. “Isso não é apenas uma questão de oposição do clero ao governo, mas algo muito mais profundo.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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