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19/07/2010 - 00h01

Uma noiva para múltiplos irmãos: um costume himalaico desaparece

The New York Times
Lydia Polgreen
Em Malang (Índia)

Buddhi Devi tinha 14 anos quando ficou noiva. Na Índia, isso não é incomum: muitas pessoas se casam jovens. Seu noivo era um garoto de sua aldeia que era dois anos mais novo –isso também não era estranho. Mas ela também se casaria com o irmão mais novo de seu futuro marido assim ele que tivesse idade suficiente.

Agora aos 70 anos e uma viúva que ainda é casada –um de seus maridos morreu– Devi é um fantasma de outro tempo, uma entre um punhado cada vez menor de pessoas que ainda vivem em famílias aqui que seguem a prática antiga da poliandria. Nas aldeias remotas deste vale do Himalaia, a poliandria, a prática de múltiplos homens se casarem com uma única esposa, foi por séculos uma solução prática para um conjunto de problemas geográficos, econômicos e meteorológicos.

As pessoas aqui sobreviviam de pequenas fazendas cortadas nas encostas das montanhas a uma altitude de 3.350 metros, dividindo a propriedade entre vários filhos, o que deixava cada um com muito pouca terra para sustentar uma família. O inverno hostil na montanha coloca um fim abrupto à breve estação de plantio. A margem entre fome e sobrevivência é pequena.

“Nós costumávamos trabalhar e comer”, disse Devi, com seu rosto marcado por décadas de invernos implacáveis e seus dedos grossos dos verões cultivando o solo. “Não havia tempo para mais nada. Quando três irmãos dividem uma mulher, todos eles voltam para uma mesma casa. Eles compartilham tudo.”

A poliandria foi praticada aqui por séculos, mas em uma única geração ela praticamente desapareceu. Esse é um desenvolvimento incrivelmente rápido em um país onde a mudança social, apesar do rápido crescimento econômico, avanços tecnológicos aos saltos e da marcha implacável da globalização, acontece com uma lentidão dolorosa, se é que acontece.

Após séculos de isolamento estático, tanta coisa mudou aqui no Vale de Lahaul no último meio século –primeiro estradas e carros, depois telefones, antenas parabólicas de televisão e agora celulares e Internet de banda larga– que uma revolução social completa ocorreu. Nenhum dos cinco filhos de Devi vive em uma família poliandra.

“Os tempos mudaram”, disse Devi. “Agora ninguém mais se casa assim.”

A poliandria nunca foi comum na Índia, mas bolsões persistiram, especialmente entre as comunidades hindus e budistas no Himalaia, onde a Índia faz fronteira com o Tibete.

Malang fica no Vale de Lahaul, um dos cantos mais remotos e isolados da Índia. Por seis meses a neve pesada bloqueia a única estrada da montanha que liga a região ao restante do país. No verão, suas encostas íngremes reluzem com flores silvestres e os rios glaciais irrigam os pequenos campos agrícolas e pomares do vale, que produzem safras generosas de ervilhas, batatas, maçãs e ameixas.

Sukh Dayal Bhagsen, 60 anos, é da aldeia vizinha de Tolang. Quando era jovem ele se juntou ao casamento de seu irmão mais velho com uma mulher chamada Prem Dasi. Nunca foi discutido, mas sempre foi presumido, que ele faria isso quando chegasse à idade de casamento, ele disse.

“Se você casa com uma mulher diferente, então há mais chances de disputas familiares”, disse Bhagsen. “A propriedade da família é dividida e surgem problemas.”

Três irmãos se casaram com Dasi, que teve cinco filhos.

A logística de compartilhar uma esposa entre vários homens é complicada. Todos os filhos, independente de quem seja seu pai biológico, chama o irmão mais velho de pitaji, ou pai, enquanto os irmãos mais novos são todos chamados de chacha, ou tio.

“Cada filho sabe quem é seu pai, mas você chama se tio mais velho de pai”, disse Neelchand Bhagsen, o filho de 40 anos de Sukh Dayal Bhagsen.

A esposa decide a questão delicada de quem é o pai de uma criança e a sua palavra é lei.

“A mãe sabe”, disse Devi, não disposta a discutir as particularidades sensíveis desse conhecimento.

A prática também serve como forma de controle da natalidade. Cinco irmãos com uma esposa para cada poderiam produzir facilmente dezenas de filhos. Mas as famílias poliandras raramente possuem mais do que seis ou sete filhos.

Apesar da sociedade no Vale de Lahaul ser patrilinear, a prática da poliandria dá às mulheres um poder considerável sobre vários assuntos. “A voz da esposa é a voz dominante na casa”, disse Neelchand Bhagsen.

Quando sua mãe exigiu uma nova casa para a prole crescente, em 1979, não havia dúvida de que ela seria construída.

“O que minha mãe dizia era a palavra final”, ele disse.

A vida no Vale de Lahaul mudou de formas que as pessoas nascidas na Índia da era do Raj nunca imaginariam. As estradas abertas nas encostas íngremes das montanhas trouxeram o mundo externo para mais perto. As crianças começaram a frequentar a escola. Homens passaram a se deslocar para mais longe para trabalhar, ganhando salários pela primeira vez. De repente, a necessidade dos irmãos compartilharem uma esposa desapareceu.

Um dos irmãos mais velhos de Bhagsen, Bhimi Ram, foi um primeiro indício dessa mudança. Ele conseguiu um emprego como pedreiro em Kulu, uma cidade no outro lado da passagem na montanha que liga o vale ao restante da Índia. Ele comprou um terreno lá e no final decidiu deixar o casamento.

Seus irmãos compraram sua parte na propriedade da família. Uma filha nascida do casamento poliandro ficou para trás na aldeia, e Bhimi Ran partiu para iniciar uma nova vida. Anos depois ele foi ao casamento da filha como um convidado comum, não como pai da noiva.

“Ele conseguiu algum dinheiro e quis partir”, disse Sukh Dayal Bhagsen.

As mudanças apenas aceleraram nas últimas duas décadas, à medida que as ondas de inovação tecnológica e reforma econômica provocaram grandes mudanças até mesmo nestes vales distantes. Carros baratos facilitaram a conexão física com o mundo externo. Telefones, e agora celulares e Internet de banda larga, tornam possíveis as conexões virtuais. A liberalização da economia trouxe novos empregos. Todo mundo se tornou um pouco mais rico. Todo mundo tem mais opções.

Entre a geração de Neelchand Bhagsen não há dúvida: todos terão seus próprios casamentos e vidas. Diferente da geração de seu pai, que não teve nenhum estudo, Bhagsen não apenas concluiu o colégio, mas também obteve diploma universitário e se tornou professor.

Ele economizou dinheiro suficiente para comprar uma propriedade no Rio Beas, no Vale de Kulu, perto da cidade de Manali. Ele construiu uma forte casa de tijolos para dividir com sua esposa e filho, e plantou rabanete, feijão e quiabo. Ele está prosperando. Neste ano ele acrescentará um segundo andar à casa, para receber os muitos parentes que se hospedam na casa dele durante os duros invernos do vale.

A sua família poderia ser uma suburbana típica em qualquer parte do mundo. Sua vida não poderia ser mais diferente da família incomum na qual cresceu. Ninguém, ao que parece, lamenta o fim da poliandria.

"Aquele sistema teve utilidade por algum tempo”, disse Bhagsen. “Mas no contexto atual, ele ultrapassou sua utilidade. O mundo mudou.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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