UOL Notícias Internacional
 
21/07/2010 - 03h17

Com venda de ativos, BP aposta em mais poços em águas profundas

The New York Times
Jad Mouawad
  • Trabalhadores contratados pela BP transportam sacos de areia para uma barca durante os esforços de limpeza

    Trabalhadores contratados pela BP transportam sacos de areia para uma barca durante os esforços de limpeza

Apesar do desastre com a plataforma Deepwater Horizon em 20 de abril, a British Petroleum (BP) não tem planos de deixar o Golfo do México ou parar de explorar petróleo em outras águas profundas.

É exatamente o oposto: com seu poço com problemas aparentemente sob controle, a gigante do petróleo em dificuldades agora está mais do que nunca apostando seu futuro em poços em águas profundas. Apesar desses poços serem mais arriscados do que os poços em terra e em águas rasas, os campos de petróleo localizados sob 1,5 quilômetro ou mais de água podem ser extremamente lucrativos e a BP continua achando que o risco vale a pena.

Refletindo essa estratégia, a BP anunciou na terça-feira que concordou em vender US$ 7 bilhões em campos de petróleo e gás para a Apache Corp. Os ativos que estão sendo vendidos – no Texas, Novo México, oeste do Canadá e Egito – são todos em terra.

A medida visa em parte levantar os US$ 20 bilhões que a BP prometeu depositar em uma conta de caução até o final de 2013 para pagamento das indenizações pelo vazamento de petróleo no golfo. A empresa já suspendeu o pagamento de dividendos aos acionistas para obter mais dinheiro e deverá anunciar pelo menos US$ 3 bilhões em vendas adicionais de ativos nos próximos meses.

Refletindo a necessidade urgente de dinheiro da BP, a Apache disse que adiantaria à BP US$ 5 bilhões do valor da compra em 30 de julho, apesar de ser improvável que a transação seja concluída antes de vários meses, devido à necessidade de ser analisada pelos reguladores de vários países.

Mas o acordo não se trata apenas de uma questão de dinheiro. Apesar de que a BP, com sede em Londres, poderia ter levantado os fundos vendendo ativos valiosos em águas profundas, a empresa decidiu se desfazer dos ativos em terra.

Analistas disseram que a opção mostra que a BP está comprometida com a exploração em águas profundas, apesar da perspectiva de uma maior regulamentação global desses poços e de um esforço pelo Congresso americano de proibir a empresa de receber novas licenças de prospecção no golfo.

“Golfo do México, Oeste da África, Brasil, Egito – essas áreas em alto-mar são onde há depósitos significativos e é onde a BP continuará explorando”, disse Bruce Lanni, um estrategista de portfólio de energia da Nollenberger Capital Partners. “A BP tem uma oportunidade de se tornar mais enxuta e agressiva ao vender alguns de seus ativos periféricos menos importantes e enfatizar a produção em águas profundas.”

Na segunda-feira, enquanto crescia o otimismo de que o sino de contenção temporário no poço Macondo estava resistindo à pressão do petróleo abaixo, a BP anunciou uma expansão de seu portfólio em alto-mar. A empresa assinou um acordo com o governo do Egito para desenvolvimento de novos depósitos de hidrocarbonetos no Mar Mediterrâneo. O presidente-executivo da BP, Tony Hayward, declarou: “Este acordo abre uma nova fase na concretização do imenso potencial da bacia do Delta do Nilo”.

A notícia do negócio com a Apache ocorreu logo depois de Thad W. Allen, o almirante reformado da Guarda Costeira encarregado pela resposta ao vazamento no golfo, ter dito na terça-feira que o governo daria mais 24 horas para a BP para testar o sino de contenção no poço Macondo. O sino, que está instalado desde quinta-feira, manterá o poço fechado enquanto a BP e o governo avaliam se o selarão permanentemente, injetando lama pesada dentro dele.

Em sua busca por novas fontes, as companhias petrolíferas têm procurado por reservas de petróleo e gás em águas cada vez mais profundas desde os anos 90. Mas nenhuma empresa investiu tanto em exploração de águas profundas na última década quanto a BP, que tem liderado o setor no avanço até os pontos mais profundos dos oceanos do mundo.

A produção em águas profundas, tradicionalmente definida como poços a mais de 300 metros de profundidade, atualmente é responsável por cerca de um terço dos 2,5 milhões de barris por dia de produção de petróleo da BP – ultrapassando a Royal Dutch Shell ou a Exxon Mobil.

A BP é a maior produtora no Golfo do México, com uma produção diária de 400 mil barris por dia em 2009. A empresa opera a maior plataforma de petróleo em alto-mar do mundo, a Thunder Horse, no golfo.

A BP também é uma das maiores investidoras em Angola, que se transformou na fonte de petróleo que mais cresce na África graças aos seus depósitos em alto-mar. No ano passado, a empresa fez três novas descobertas nas águas ultraprofundas do Bloco 31 de Angola. Além disso, a BP também está procurando petróleo além das costas da Líbia e do Egito, assim como é a maior investidora estrangeira no Azerbaijão, onde opera dois grandes campos no Mar Cáspio, Azeri-Chirag-Gunashli e Shah Deniz.

Com a maioria dos grandes campos em terra há muito descobertos ou controlados pelos governos nacionais, as grandes companhias de petróleo veem os oceanos do mundo como sua melhor oportunidade de encontrar vastas reservas não exploradas de petróleo e gás.

Mas para a BP, a maior dependência de prospecção em águas profundas apresenta seus próprios riscos.

Os projetos em águas profundas são desafiadores sob as melhores circunstâncias – grande parte do trabalho deve ser feito usando veículos-robóticos por controle remoto e as pressões intensas e temperaturas das profundezas do oceano tornam tudo muito mais difícil.

O acidente da Deepwater Horizon manchou seriamente a reputação da BP. Mesmo se a empresa conseguir conter os danos políticos, seu crescimento será atrapalhado por sua necessidade de poupar dinheiro para pagamento do vazamento. A BP já anunciou que não pagaria dividendos neste ano e que reduziria seu programa de gastos de capital.

“A BP provavelmente se transformará em uma empresa mais humilde”, disse Brian Youngberg, um analista de energia da Edward Jones, uma corretora com sede em Saint Louis. “O futuro crescimento dela será difícil. Outras empresas ou países vão querer a BP como operadora? Esta é uma pergunta válida.”

Nos Estados Unidos, onde a BP tem uma história de operações problemáticas no golfo, em suas operações no Alasca e refinarias, o governo tem demonstrado crescente frustração com a empresa.

O Comitê de Recursos Naturais da Câmara votou na semana passada por proibir a BP de obter novas licenças para exploração em alto-mar por causa de suas violações anteriores de segurança. Se a legislação proposta for aprovada, isso atrapalharia o futuro crescimento da BP. Mesmo com a empresa continuando a operar suas instalações existentes e a investir como sócia minoritária nos projetos de outras empresas, ela não poderia perfurar novos poços.

“Os efeitos sobre sua reputação são imensos”, disse John R. Kimberly, um professor da Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia. “Esta não é a primeira vez que a BP enfrenta problemas, agora cabe a ela mostrar que não é irresponsável.”

Apesar de alguns analistas e advogados estarem preocupados com o risco de falência, a BP provavelmente sobreviverá à crise. A empresa gerará US$ 30 bilhões de fluxo livre de caixa neste ano; suas operações nos Estados Unidos são avaliadas em cerca de US$ 100 bilhões. Suas reservas comprovadas de petróleo por si só valem US$ 150 bilhões, segundo analistas da Société Générale.

A curto prazo, a empresa precisa levantar dinheiro para o pagamento dos custos de limpeza do vazamento e depósitos no fundo de compensação. Ao mesmo tempo, ela está buscando evitar qualquer aparência de liquidação.

Os ativos vendidos para a Apache representam 2% das reservas da BP e 2,3% de sua produção. Mas o preço de venda representa 6,4% do atual valor de mercado da BP, de US$ 110 bilhões.

A BP discutiu originalmente a venda de metade de sua participação no campo de Baía de Prudhoe, Alasca, para a Apache, mas as negociações fracassaram no fim de semana devido a complicações na decisão sobre quem dirigiria o campo, que atualmente é operado pela BP.

A BP também confirmou na terça-feira que informou recentemente aos governos do Paquistão e Vietnã que pretende vender seus ativos de produção em ambos os países. As operações da empresa nestes países incluem campos em terra e mar, mas eles têm um impacto apenas marginal na produção geral da BP.

Na semana passada, a BP vendeu algumas operações de oleoduto para a Magellan Midstream Partners, incluindo suas instalações de depósito de petróleo em Cushing, Oklahoma. O negócio de US$ 289 milhões confundiu os analistas porque a propriedade pela BP de Cushing, o terminal receptor de óleo cru da West Texas Intermediate, há muito deu aos traders de petróleo da empresa informação preciosa de mercado que podiam usar em benefício próprio. Alguns analistas especularam que a venda poderia sinalizar que a BP estava considerando a venda de sua unidade de negociação de petróleo altamente lucrativa.

A BP deverá apresentar mais detalhes de sua estratégia em 27 de julho, quando informará os lucros do segundo trimestre.

As incertezas continuam a pesar no preço de suas ações, que despencaram à medida que o impacto do acidente de 20 de abril ficava aparente. Após atingir seu nível mais baixo desde 1996 no final de junho, as ações se recuperaram nas últimas três semanas, fechando na terça-feira a US$ 35,20 em Nova York.

No negócio de terça-feira, a Apache pagará US$ 3,1 bilhões por 10 campos de gás natural na Bacia de Permian, no Texas e no Novo México, US$ 3,25 bilhões por ativos de gás natural no oeste do Canadá e US$ 650 milhões pelos campos da BP e uma concessão de exploração no oeste do Egito. A Apache, uma empresa de exploração e produção de petróleo de médio porte com sede em Houston, é conhecida por comprar ativos em declínio ou com desempenho abaixo do esperado e então extrair uma maior produção deles.

Clifford Krauss e Michael J. de la Merced contribuíram com a reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host