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22/07/2010 - 03h24

Drogas oferecem esperança contra a hepatite C

The New York Times
Andrew Pollack
  • A paciente Betty Stevenson, que tem hepatite C, discursa durante o encontro semanal de portadores da doença em uma clínica nos Estados Unidos. Médicos acreditam que uma nova droga pode trazer melhores resultados a pacientes com a doença

    A paciente Betty Stevenson, que tem hepatite C, discursa durante o encontro semanal de portadores da doença em uma clínica nos Estados Unidos. Médicos acreditam que uma nova droga pode trazer melhores resultados a pacientes com a doença

A expectativa é de que novos medicamentos que estão sendo desenvolvidos transformem o atendimento aos pacientes com hepatite C, tornando o tratamento mais eficaz e menos sofrido.

As novas drogas, que podem começar a chegar ao mercado já no início do próximo ano, podem vir a derrotar um vírus que infecta quase quatro milhões de americanos, a maioria deles da geração “baby boomer” (pós-Segunda Guerra Mundial), e 170 milhões de pessoas em todo o mundo.

“Eu quase penso que isto será revolucionário, para ser honesto”, disse o dr. Fred Poordad, chefe de hepatologia do Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles. “Nós estamos ávidos para tentar tratar o máximo de pacientes que pudermos.”


Cerca de duas dúzias de laboratórios farmacêuticos estão atrás de drogas para hepatite C, que um executivo da Vertex Pharmaceuticals chamou recentemente de “uma das maiores oportunidades farmacêuticas desta década”.

Isso porque o número de vítimas da doença, que atualmente mata cerca de 12 mil americanos por ano, deverá aumentar na próxima década. Apesar da queda acentuada do número de novos casos, centenas de milhares de pessoas que foram infectadas décadas atrás deverão começar a experimentar os efeitos dos danos ao fígado.

Novos casos de câncer de fígado já estão crescendo ano a ano. E a hepatite C é a principal causa de transplantes de fígado, como o recebido recentemente pelo roqueiro Greg Allman.

As esperanças de novos tratamentos aumentaram em maio, após os primeiros resultados de um teste clínico em estágio final de uma das novas drogas, o Telaprevir da Vertex. Quando somado ao tratamento existente – uma combinação de interferon alfa e ribavirin– o Telaprevir curou 75% dos pacientes, em comparação a 44% dos tratados apenas com as drogas existentes. E para muitos pacientes, a duração do tratamento poderia ser reduzida pela metade, para 24 semanas.

Poordad, que é consultor de alguns laboratórios farmacêuticos, disse que um quinto de seus pacientes está abandonando o tratamento atual para esperar pelas novas drogas.

Mas mesmo se as drogas funcionarem, alguns especialistas e médicos alertam que este vírus pode ser particularmente difícil de derrotar. Três quartos das pessoas infectadas não sabem disso porque não fazem exames à procura do vírus, e porque a infecção pode ser assintomática por anos, enquanto ataca silenciosamente o fígado.

E por esta doença ser transmitida pelo sangue, os infectados são em grande parte antigos ou atuais usuários de drogas injetáveis – uma população que costuma não ter plano de saúde ou um que não oferece cobertura – que podem não ser capazes de manter um longo tratamento que pode apresentar efeitos colaterais brutais.

Os laboratórios farmacêuticos “ignoram completamente a verdadeira face da hepatite C”, disse a dra. Diana L. Sylvestre, que dirige uma clínica em Oakland, Califórnia, que trata viciados e ex-viciados em drogas com hepatite C. “Uma minoria dos pacientes com hepatite C se beneficiará desses medicamentos.”

Quando ela deu uma recente palestra na Vertex, o primeiro slide de Sylvestre mostrava um homem de terno, supostamente um executivo da Vertex, com sua cabeça na areia.

A dra. Camilla Graham, uma diretora sênior de assuntos médicos da Vertex, disse que os viciados representam menos de 10% das pessoas com hepatite C. Apesar de muitas pessoas terem sido infectadas ao experimentarem drogas nos anos 60 e 70, elas abandonaram o vício há muito tempo, ela disse.

A hepatite C também pode ser transmitida sexualmente, particularmente quando homens fazem sexo com outros homens. E muitas pessoas foram contaminadas pelo vírus por meio de transfusões de sangue antes de 1992, quando o sangue doado passou a ser testado para o vírus.

Todavia, os laboratórios farmacêuticos sabem que as dificuldades para que os pacientes sejam examinados e tratados poderiam limitar o uso de seus medicamentos. Então eles estão contribuindo para uma onda de ativismo para aumentar a conscientização a respeito da epidemia silenciosa. Quem também contribui para a nova defesa é a altamente organizada comunidade do HIV, já que 15% a 30% dos portadores do HIV também têm hepatite C.

Um relatório emitido pelo Instituto de Medicina, em janeiro, pediu por uma nova estratégia nacional para melhorar a prevenção, detecção e tratamento da hepatite C e da hepatite B, que também causa doenças de fígado. Uma força-tarefa para hepatite, criada pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos, está preparando um plano de ação até outubro. O Comitê da Câmara para Supervisão e Reforma do Governo realizou uma audiência a respeito da hepatite no mês passado.

Os laboratórios farmacêuticos contribuem para a Mesa Redonda Nacional para Hepatite Viral, que ajudou a pagar pelo relatório do Instituto de Medicina, e várias empresas se uniram na Aliança Corporativa para Hepatite, para fazer lobby por mais verbas do governo. Em janeiro, várias empresas iniciaram a Coalizão para Ação contra a Hepatite Viral, para ajudar a financiar a pesquisa nos Centros para Controle e Prevenção de Doenças.

A Vertex encomendou estudos que projetaram um aumento das vítimas pela hepatite C. Um desses estudos, realizado pela Milliman, uma consultoria de seguro-saúde, projetou que o número de pessoas com doenças de fígado avançadas, causadas pela hepatite C, quadruplicaria em 20 anos caso o tratamento não melhorasse.

Realizar exames nas pessoas por hepatite C deverá se tornar mais fácil. Em junho, a Food and Drug Administration (FDA, órgão regulador americano de alimentos e fármacos) aprovou um exame de sangue rápido desenvolvido pela OraSure Technologies, que dá uma resposta em 20 minutos, em vez das várias horas necessárias caso a amostra seja enviada a um laboratório. Versões futuras poderiam usar uma espécie de cotonete, permitindo que o teste seja realizado em igrejas, feiras de rua e outros encontros.

Há um risco de que o aumento dos testes possa resultar em tratamento para pessoas que nunca precisarão dele. Apenas 5% a 20% das pessoas com infecção crônica desenvolverão cirrose em cerca de 20 a 30 anos, e os médicos não conseguem prever quais desses pacientes serão.

“Eu acho que as empresas realizaram um trabalho soberbo de marketing em relação à doença”, disse o dr. Ronald L. Koretz, professor emérito de medicina clínica da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Koretz disse não haver boa evidência de que o tratamento fez diferença, já que muitos pacientes curados pelas drogas poderiam nunca desenvolver problemas sérios.

O atual tratamento para hepatite C consiste de injeções semanais de interferon alfa –as principais marcas são o Pegasys da Roche e o PegIntron da Merck– combinadas com ribavirin, uma droga oral genérica. Não está muito claro como essas drogas funcionam.

O tratamento geralmente dura de 24 a 48 semanas e custa mais de US$ 30 mil. Ele pode ser duro, causando sintomas como os de gripe, depressão, anemia e outros problemas. E o tratamento não consegue curar o paciente na metade das vezes, ou porque não consegue remover o vírus do corpo ou porque os pacientes não conseguem tolerar as drogas.

As novas drogas geralmente inibem as enzimas necessárias pelo vírus, uma estratégia que funcionou bem contra o HIV. As duas drogas que poderiam chegar ao mercado no ano que vem, o Telaprevir da Vertex e o Boceprevir da Merck, são ambas pílulas que inibem a enzima protease.

Por pelo menos alguns anos, as novas drogas teriam que ser usadas juntamente com o interferon. Mas os médicos estão esperançosos de que daqui a talvez cinco anos, combinações de novas pílulas acabarão com a necessidade do interferon.

As drogas poderiam oferecer nova esperança para cerca de 300 mil pessoas, para as quais o tratamento existente não funcionou. Alguns dados iniciais sugerem que o Telaprevir, quando combinado com os medicamentos existentes, poderia curar metade deles.

“Eu estou disposto a experimentar ontem”, disse Kenny C. Charles, 58 anos, de Woodbourne, que disse que contraiu a hepatite C de transfusões de sangue e que se submeteu a quatro tentativas fracassadas de tratamento com as drogas existentes. Agora, ele disse, seu fígado está começando a mostrar sinais de cirrose.

Algumas pessoas com hemofilia, que foram infectadas há mais de 25 anos por drogas coagulantes derivadas de plasma humano, estão pressionando a FDA para que permita que sejam tratadas com combinações de novas drogas, sem o interferon, antes mesmo das novas drogas serem aprovadas. A FDA realizou em abril uma audiência pública a pedidos e agora está formulando uma política.

Mark Antell, de Rosslyn, Virgínia, um dos organizadores da petição, disse que teve que parar de tomar o interferon por causa de sintomas parecidos com os de gripe, perda de cabelo e problemas nas juntas. “Era como se estivesse envelhecendo rapidamente”, ele disse.

Antell, 63 anos, um funcionário aposentado da Agência de Proteção Ambiental, disse que os hemofílicos geralmente não são autorizados a participar de testes clínicos de novas drogas, de forma que precisam de outra forma para obtê-las.

“Eu acho que há muita gente na minha situação e não temos muito tempo”, ele disse.

 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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