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23/07/2010 - 03h00

Obama enfrenta mais perguntas a respeito de políticas raciais

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg
Washington (EUA)
  • O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama

    O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama

Há exatamente um ano na quinta-feira (22), o presidente Barack Obama se viu envolvido na política racial ao declarar que um policial branco de Cambridge, Massachusetts, tinha agido estupidamente ao prender um professor negro da Universidade de Harvard em sua própria casa. De repente, o presidente cuja eleição sugeria a promessa de um futuro pós-racial, foi empurrado para as feridas do passado.

Não muito mudou desde então.

Obama buscou na quinta-feira conter outro alvoroço racial, desta vez em torno do erro de seu governo ao lidar com o caso de Shirley Sherrod, uma funcionária negra do Departamento de Agricultura, que foi demitida com base em um videoclipe de comentários –retirados de contexto– que pareciam sugerir que ela estava discriminando contra produtores rurais brancos. Um dia após o secretário da Agricultura, Tom Vilsack, ter pedido desculpas a Sherrod e oferecido um novo cargo para relações raciais na secretaria, Obama ofereceu seu próprio pedido de desculpas.

Durante um telefonema de sete minutos, disseram funcionários da Casa Branca, o presidente compartilhou algumas de suas próprias experiências pessoais e pediu a Sherrod para “continuar com seu trabalho árduo em prol das pessoas necessitadas”.

Posteriormente, em uma entrevista para o programa “Good Morning America” da “ABC”, Obama comentou o assunto pela primeira vez.

“Ele se precipitou”, disse o presidente, se referindo a Vilsack, “em parte porque vivemos atualmente nesta cultura de mídia, onde algo aparece no YouTube ou em um blog e todo mundo mistura as coisas”.

Este, entretanto, dificilmente será o fim do assunto para Obama, que tem tido dificuldades desde o início de sua presidência a respeito de se, quando e como lidar com os assuntos voláteis de raça. Independente de quanto esta Casa Branca se esforce para impedir que o assunto defina sua presidência, ele continua reaparecendo, alimentado em grande parte pelas expectativas elevadas da esquerda em relação ao primeiro presidente negro, e em parte pelas táticas de oposição na direita.

O deslize no caso Sherrod ressaltou como Obama é pego entre essas forças políticas adversárias, e novas críticas por parte daqueles que o apoiam, especialmente afro-americanos proeminentes, de que ele está excessivamente na defensiva ao lidar com questões raciais – e excessivamente rápido em reagir às críticas da direita.

Para muitos liberais, a demissão apressada de Sherrod lembrou a queda de Van Jones, um conselheiro ambiental do presidente. Ele foi forçado a renunciar após a “Fox News” ter concentrado atenção em alguns de seus trabalhos e declarações no passado, assim como sua decisão de assinar uma petição em 2004, que questionava se o governo Bush tinha permitido os ataques terroristas de setembro de 2001 para fornecer um pretexto para a guerra no Oriente Médio.

“Eu acho que o que se vê é uma Casa Branca hipersensível a respeito de questões raciais, o que faz com que se incline demais para evitar enfrentar essas questões, e ao fazê-lo cria a fundação para o próprio problema que deseja evitar”, disse Wade Henderson, presidente-executivo da Conferência de Liderança em Direitos Civis e Humanos, um grupo de defesa daqui.

Não é que Obama não tenha experiência no assunto. Enquanto concorria à presidência, ele fez o que até mesmo seus críticos reconheceram ser um esforço sério e bem pensado para tratar das relações raciais, durante um discurso na Filadélfia em março de 2008. Ele ocorreu após a controvérsia em torno das declarações racialmente inflamadas feitas por seu pastor.

E como nota Michael Eric Dyson, um professor de sociologia da Universidade de Georgetown, Obama escreveu um livro inteiro sobre raça: “A Origem dos Meus Sonhos”, no qual tratou de sua própria história birracial complicada e da luta para se enquadrar em um país que vê as coisas em preto e branco. Dyson, que está trabalhando em um livro sobre Obama e raça chamado “Presidential Race”, diz que o presidente às vezes parece incapaz ou não disposto a falar sobre o assunto.

“Nós temos um dos maiores intelectos sobre raça na presidência, mas ele está imobilizado, como se impedido de falar”, ele disse. “Parte desse impedimento é autoimposto, parte dele é em prol dos americanos brancos nervosos, que temem que Obama possa racializar a presidência, de forma que ele tem uma preocupação legítima de não se deixar ser estereotipado. Mas a tragédia é de que precisamos de sua liderança.”

A Casa Branca rejeitou a noção de que ele não tem fornecido liderança ou de que esteja evitando a conversa sobre raça.

“Eu não acho que ninguém tenha confrontado mais diretamente esta questão do que o presidente”, disse David Axelrod, o principal conselheiro de Obama.

Ainda assim, a controvérsia de Sherrod renovou os pedidos para que o presidente confronte as relações raciais mais diretamente. Após a prisão do professor de Harvard, Henry Louis Gates Jr., no ano passado, Obama convocou uma muito divulgada “cúpula da cerveja” na Casa Branca –um momento de reconciliação para Gates e o policial que o prendeu.

Em entrevistas, tanto Henderson quanto Charles J. Ogletree Jr., um professor de Direito de Harvard que representou Gates, sugeriram que o presidente deveria convocar uma conferência nacional sobre relações raciais. Ward Connerly, um conservador negro que lidera um instituto dedicado ao combate às preferências raciais, endossou a ideia.

“Este presidente nunca desejou se envolver em questões raciais, e posso entender o motivo – se você é um homem negro e está concorrendo à presidência, você sabe quão traiçoeiras essas águas podem ser”, disse Connerly. “Mas eu acho que o presidente pode, se for magistral –e ele certamente é – introduzir este assunto de uma forma como se estivesse fazendo isso como nosso líder, não como nosso líder negro.”

Axelrod, entretanto, joga água fria na noção, dizendo que Obama tem “assuntos mais urgentes que são de importância para todos os americanos”, como a economia.

Na quinta-feira, Sherrod manteve sua afirmação de que a Casa Branca teve um papel em sua demissão, apesar dos conselheiros de Obama terem dito que não. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibb, foi novamente crivado de perguntas sobre se a controvérsia de Sherrod foi um “momento educativo” e, se afirmativo, qual seria a lição e se Obama deveria ser o professor.

“Eu não acho que seja preciso um professor”, respondeu Gibbs, “para que este seja um momento educativo”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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