UOL Notícias Internacional
 
25/07/2010 - 00h01

Refugiados somalis redescobrem o medo em Uganda

The New York Times
Josh Kron
Em Campala (Uganda)
  • Pessoas caminham na capital de Uganda, Campala, que costumava ser um lugar tranquilo para somalis

    Pessoas caminham na capital de Uganda, Campala, que costumava ser um lugar tranquilo para somalis

“Às vezes eu tenho esses pesadelos”, diz Ahmed Uleh, com os olhos escondidos atrás de óculos de aviador. “Como se eles estivessem tentando cortar minha cabeça.” 

Uleh, 34, disse que foi sequestrado na Somália no ano passado pelo Shabab, o grupo militante insurgente islamista que assumiu a responsabilidade pelo atentado a bomba a dois grupos de torcedores de futebol em Uganda durante o jogo final da Copa do Mundo este mês, matando 76 pessoas e deixando o leste da África em alerta.

Os sequestradores de Uleh amarraram suas pernas e braços atrás de uma cadeira, disse ele, e bateram nele. Uleh disse que vestiu uma burqa feminina, fingiu ser uma mãe carregando um bebê nos braços e passou pelos postos de vigilância dos rebeldes até a capital da Somália, Mogadishu, antes de tomar um voo para fora do país.

Ele chegou na capital de Uganda, Campala, no ano passado, onde se juntou a dezenas de milhares de outros somalis que fugiram de décadas de violência em seu país natal, para viver num país que os diplomatas e funcionários da ONU chamam de paraíso para refugiados.

Agora este paraíso está ameaçado. Desde os ataques, a presença militar e da polícia aumentou, alguns viajantes do Chifre da Árica foram impedidos de cruzar as fronteiras para entrar no país e algumas mudanças no protocolo de asilo colocaram os somalis como Uleh numa situação tensa.

Aumentando a ansiedade entre os refugiados, uma agência que trabalha no país para ajudar a transferi-los para os Estados Unidos deixou o país repentinamente, aumentando os temores de que centenas de pessoas sejam impedidas de se mudar.

Os acontecimentos podem prejudicar a posição de Uganda como um precioso ponto de trânsito ou de destino final para as hordas de pessoas que fogem dos muitos perigos da Somália, incluindo da brutalidade de grupos insurgentes como o Shabab.

De acordo com a ONU, a Somália é terceiro país do mundo que produz mais refugiados, depois do Afeganistão e do Iraque, e Uganda é um refúgio natural para eles. Uganda tem uma das políticas de refugiados mais liberais da África, garantindo a aprovação para praticamente todos os que pedem asilo da região, exceto os refugiados de Ruanda, que quer que seus refugiados retornem ao país.

Aqui em Campala, os somalis construíram uma comunidade integrada e florescente, vendendo ovelhas, consertando carros, gerenciando restaurantes e jogando futebol num bairro que muitos chamam de Pequena Mogadishu. O próprio Uleh se veste muito mais na moda como um DJ de clube noturno do que como um refugiado pobre, e milhares de somalis daqui estão no meio de processos para se transferirem para os Estados Unidos.

A Copa do Mundo deveria ser uma celebração para os somalis, também, uma vez que uma das músicas oficiais do torneio foi executada por um popular rapper nascido no país, K'Naan, tornando-o um herói para muitos jovens somalis.

Mas então, na segunda metade da partida final, três explosões destruíram dos locais populares onde os torcedores assistiam os jogos. O Shabab assumiu a responsabilidade no dia seguinte, e para a comunidade somali de Uganda, uma nova realidade começou ali.

A polícia parou de registrar novos refugiados imediatamente depois dos ataques. O processo foi reaberto desde então, como novas regulamentações e houve um aumento nos registros, mas os líderes comunitários disseram que muitos estão tímidos demais para se apresentar.

Eles dizem que uma tensão se abateu sobre as ruas de Campala. Na semana passada, um homem da Eritreia foi agredido até a morte por um grupo que aparentemente achou que ele era somali. Líderes comunitários dizem que mais de 20 somalis já foram presos no bairro, incluindo um empresário conhecido, e muitos outros foram levados para ser interrogados.

“Nós aumentamos a vigilância em todos os cantos, mas nosso povo é muito hospitaleiro”, disse Musa Ecweru, ministro estadual de desastres de Uganda. “Não queremos xenofobia aqui. Há muita coisa acontecendo no momento.”

Refugiados da Pequena Mogadishu têm uma preocupação maior em suas mentes – o sonho de ir para os Estados Unidos.

Na semana passada, a Agência Voluntária Conjunta, que processa os pedidos de transferência de refugiados para o governo dos EUA, deixou o país dias antes de uma grande sessão de entrevistas. Os refugiados dizem que não sabem o porquê.

“Só espero que eles voltem”, diz Ahmed Adam, 21, que é mais um entre as centenas de refugiados que deveriam ser entrevistados na semana passada.

Autoridades norte-americanas confirmaram a retirada da agência do país, descrevendo-a como um movimento temporário por causa dos ataques. A segurança aumentou na cidade, e mais de 60 agentes do FBI estão no país investigando os bombardeios. O que eles descobrirem pode ter um impacto importante no quão liberal é o ambiente de Uganda para os somalis.

“A transferência de refugiados para os Estados Unidos é um processo demorado”, diz Joann Lockard, porta-voz do Departamento de Estado em Uganda. “Nesse momento, os ataques de 11 de julho não alteraram o processo para os refugiados somalis em Uganda da perspectiva dos EUA.”

Os Estados Unidos recebem milhares de somalis todos os anos. Mais de 50 mil foram transferidos desde o ano fiscal de 2004, de acordo com o Departamento de Estado.

Do ponto de vista de alguns somalis em Uganda, veteranos da vida de refugiados, os ataques são mais um atraso no processo longo e imprevisível de entrevistas, inspeções de segurança e anúncios oficiais.

Ali Mohammed Muse, 28, é um deles. Ele e sua mãe fugiram da Somália para Uganda em 2004, e ela logo foi transferida para os EUA. No campo de refugiados em Uganda, Muse trabalhava como líder juvenil e técnico de futebol.

Agora ele mora em Pequena Mogadishu, e espera encontrar-se com sua mãe em Seattle. Mas Muse teme que os ataques terroristas tenham acabado com suas chances, e balança a cabeça desesperançoso.

“Não sei por que, mas me sinto culpado”, diz ele. “Talvez eu me pareça com um deles; talvez eu tenha o mesmo nome.”

Tradução: Eloise De Vylder

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