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28/07/2010 - 03h53

Benfeitor de paciente com câncer levanta dúvidas nos EUA

The New York Times
Thomas Kaplan
  • Mandi Schwartz , a jogadora de hóquei de Yale que sofre de leucemia

    Mandi Schwartz , a jogadora de hóquei de Yale que sofre de leucemia

A história de Mandi Schwartz já foi bastante divulgada: uma jogadora de hóquei de Yale que sofre de leucemia, ela precisa de um transplante de célula-tronco para sobreviver e sua família e amigos estão procurando por toda parte para encontrá-lo para ela.

À frente do esforço está Tedd Collins 4º, que fundou duas caridades para ajudar pacientes com leucemia após a morte de sua filha de 26 anos no ano passado, enquanto lutava contra a doença. Segundo todos os relatos, Collins é um defensor incansável de Schwartz, cujo transplante está marcado para o próximo mês. Mas enquanto as companheiras de equipe de Schwartz e representantes de Yale pediam para que as pessoas dessem apoio diretamente por meio das caridades de Collins, o que eles não sabiam é que ele passou grande parte da década envolvido em processos e acusações de fraude, segundo entrevistas e documentos da Justiça.

Collins, 53 anos, está sendo investigado por fraude por promotores federais, segundo as autoridades em Kentucky, onde ele viveu nos últimos anos. E apesar de descrever a si mesmo como um imunologista clínico, ele não trabalha em um ambiente de laboratório há mais de uma década, e as organizações que ele criou para ajudar as pessoas que precisam de transplantes de células-tronco ainda não foram apropriadamente registradas.

Em uma breve entrevista por telefone na segunda-feira, Collins não contestou seu histórico legal conturbado.

“É um monte de coisas ruins –uma levando à outra”, ele disse.

Os problemas legais de Collins não eram conhecidos pela família de Schwartz ou pelos representantes de Yale, até que um de suas supostas vítimas de fraude viu os artigos sobre sua obra de caridade e contatou a universidade e o “New York Times”. Na terça-feira, os representantes de Yale disseram manter seu apoio ao trabalho voluntário de Collins, explicando que não possuem evidência de transgressão por parte dele. Mas não está claro o que aconteceu aos mais de US$ 10 mil que ele levantou neste ano em contribuições de caridade para Mandi Schwartz e outros pacientes com leucemia. A família Schwartz disse não ter recebido nenhum dinheiro de Collins.

Schwartz, 22 anos, luta contra a leucemia desde dezembro de 2008. Seus companheiros e amigos passaram meses solicitando doadores de medula óssea e sangue de cordão umbilical para tentar encontrar uma compatibilidade, e seu irmão Jaden, um escolhido pelo Saint Louis Blues na primeira rodada de recrutamento da NHL no mês passado, ajudou a gerar publicidade para a causa dela no mundo do hóquei.

Mas foi Collins quem montou as páginas de Internet e grupos do Facebook, além de dar entrevistas para os representantes da imprensa a respeito da procura de Schwartz por um doador.

Collins soube de Schwartz por meio de sua filha, Natasha, uma estudante de medicina de Yale que também tinha leucemia. Ela morreu em agosto.

“Ela apenas olhou para mim e disse: ‘Algum dia, pai, talvez você não possa me ajudar, mas talvez você possa ajudar outras pessoas”, Collins disse no mês passado para o “World News” da “ABC”. “E ela me falou de Mandi.”

Collins e sua esposa, Mary Anne, fundaram duas organizações semelhantes –Become My Hero (torne-se meu herói), que ajuda pacientes a encontrar doadores de sangue de cordão umbilical, e a Natasha’s Place, que também se chama National Mixed Heritage Cord Blood Bank (banco nacional de sangue de cordão umbilical multirracial). Mary Anne é irmã de Phil Simms, ex-zagueiro da NFL.

A família Schwartz não teve nenhum papel na criação ou administração das duas caridades.

Da medicina para a Internet


Nas entrevistas para a imprensa relacionadas à Schwartz, Collins descreveu a si mesmo como um imunologista clínico de New Haven. Ele tem um doutorado em microbiologia pelo Roswell Park Cancer Institute, um diploma que foi confirmado pelo instituto, e trabalhou por uma década no laboratório Bristol-Myers Squibb, mas ele reconheceu que deixou essa carreira para trás há uma década para iniciar um serviço de provedor de Internet. Essa empresa fechou um ano depois. Ao longo da última década, várias queixas formais foram impetradas contra Collins, muitas delas centradas na Trust Management Associates, uma empresa de gestão de fundos com sede em Louisville, Kentucky, que ele abriu em 2005.

Naquele ano, Collins disse ter solicitado a um morador da Carolina do Sul que investisse US$ 25.500 em um negócio que daria um retorno de 35% em pouco mais de um ano. Mas o investidor nunca mais viu o dinheiro de novo, segundo uma ordem judicial de 2008 das autoridades da Carolina do Sul.

Martin J. Reinholz, um paramédico de 47 anos de Jacksonville, Flórida, disse que foi igualmente enganado por Collins. Ele disse que transferiu quase US$ 200 mil para Collins em 2007, destinados para um fundo para sua filha, mas que nunca mais viu o dinheiro de novo. Reinholz forneceu ao “New York Times” uma cópia de seu contrato com Collins.

Reinholz disse que não tinha notícias de Collins há quase um ano, quando no mês passado viu seu nome no noticiário –inclusive no “New York Times”– sobre Mandi Schwartz.

“Eu não conseguia falar com ele, vê-lo ou encontrá-lo”, disse Reinholz. “Então, de repente, tudo isso começou a aparecer na Internet.”

Promotores federais, juntamente com a Receita Federal e o Serviço Secreto, que investiga assuntos de fraude financeira, estão investigando Collins por fraude, segundo um porta-voz do Serviço Secreto. As autoridades envolvidas no caso não quiseram fazer comentários porque a investigação ainda está em andamento e Collins ainda não foi acusado de crime.

Muitas investigações


Collins também esteve envolvido em investigações e processos em vários outros Estados nos últimos anos.

Ele, sua esposa e um associado foram processados em um tribunal estadual da Carolina do Sul, no ano passado, por uma pastora que disse ter investido US$ 100 mil com ele e nunca mais viu seu dinheiro.

Segundo o processo, que ainda está pendente, a pastora conheceu Collins em um seminário de investimento que ele realizou em uma conferência de 2005 da Igreja Episcopal Metodista Africana. Uma brochura incluída no processo dizia que os serviços da Trust Management Associates “foram iniciados há mais de 20 anos para impedir que um grupo seleto de pacientes de câncer e Aids tivesse a hipoteca de suas casas executada”.

Mas segundo a documentação na Secretaria de Estado do Kentucky, a Trust Management Associates tinha sido aberta apenas 12 dias antes de Collins falar na conferência.

Ele foi ligado ao colapso de 2005 do fundo hedge Bayou Group, cujo fundador fingiu seu suicídio dois anos atrás, em uma tentativa fracassada de escapar de cumprir pena na prisão.

Collins foi descrito nos autos do processo como um intermediário que lidou com US$ 100 milhões apreendidos pelas autoridades no Arizona, que suspeitavam que o dinheiro estivesse ligado a um esquema de fraude, posteriormente atribuído ao Bayou assim que a fraude do fundo hedge se tornou aparente.

Na época, segundo um depoimento, Collins alegou a um supervisor de banco que administrava uma mina de ouro no Arizona no valor de US$ 152 bilhões, e que o dinheiro do Bayou era na verdade de um empréstimo garantido por aquela mina.

Collins disse na segunda-feira que apenas encaminhou um cliente ao Bayou e que nunca recebeu qualquer dinheiro da empresa. Ele não foi acusado.

Uma conta bancária controlada por Collins em Kentucky também foi descrita no depoimento juramentado como tendo sido usada em uma tentativa de depósito de US$ 22 milhões em cheques falsificados –que Collins disse que eram de um cliente– no que foi chamado de “grande” tentativa de fraude.

Na Califórnia, um casal octogenário processou Collins e um grupo de associados em 2007, após ter sido informado da existência de documentos falsificados de propriedade para transferência do imóvel residencial do casal e obtenção de empréstimos hipotecários. Um processo contra Collins foi aberto em 2008.

Collins não ofereceu desculpas quando perguntado sobre as pendências legais em uma entrevista por telefone na segunda-feira.

“É uma confusão”, ele disse. “É uma confusão que ainda estou tentando arrumar. Isso vai demorar muito tempo. É uma confusão que há muito tempo estou tentando arrumar.”

Em um e-mail posterior, Collins atribuiu vários dos incidentes às perdas financeiras causadas pelo estouro da bolha imobiliária.

“Certamente, a doença de Natasha e minha decisão de me concentrar em sua sobrevivência e não nos negócios também contribuiu para essas perdas”, ele escreveu.

Collins, que juntamente com sua esposa pediu falência em 2005, acrescentou que ainda pretende ressarcir os prejuízos de seus clientes assim que tiver dinheiro para isso.

Reinholz disse que contatou as autoridades de Yale e o “New York Times” após ver as notícias sobre o envolvimento de Collins com Mandi Schwartz.

Nas páginas de Internet para Schwartz e para suas caridades, Collins fornece um link PayPal para doação a uma organização local, a Greater New Haven Help Alliance, com a promessa de que o dinheiro irá para uma de suas caridades ligadas à leucemia.

Todd Foster, pastor da Church on the Rock em New Haven, que fundou a aliança de ajuda no ano passado, disse que Collins o contatou em janeiro para perguntar se ele poderia aceitar as contribuições destinadas às suas caridades. Foster disse que fez uma pesquisa no Google, leu a respeito de seus bons trabalhos e concordou em ajudar.

“Tudo o que entrou foi encaminhado de volta para ele”, disse Foster sobre o dinheiro. “Nós confiamos que ele faria o que se propôs a fazer.”

Foster disse que Collins recebeu cerca de 145 doações, em um total de cerca de US$ 11 mil neste ano. Recentemente, Collins ofereceu à aliança de ajuda 5% do dinheiro arrecadado para continuar processando as doações.

Collins se recusou a responder as perguntas sobre sua arrecadação de fundos. Mas ele reconheceu que as caridades não foram legalmente registradas.

“No momento, o foco é tentar ajudar uma pessoa”, disse Collins. “Nós esperamos que assim que provarmos nosso trabalho com Mandi, nós poderemos seguir em frente e ajudarmos outras pessoas.”

A resposta da família


O pai de Schwartz, Rick, disse em uma entrevista por telefone na terça-feira que a família Schwartz não tinha conhecimento prévio dos problemas legais de Collins. Mas ele disse que a família não fez qualquer acordo financeiro com Collins e nem pediu para que ele arrecadasse fundos.

“De nossa parte, ele trabalhou incansavelmente para encontrar sangue de cordão umbilical para Mandi, e essa era sua causa principal”, ele disse.

E era uma causa importante: como uma medula óssea compatível não foi encontrada, o transplante de Schwartz, marcado para meados de agosto, usará sangue de cordão umbilical, disse seu pai.

As autoridades em Yale também disseram desconhecer o passado de Collins. Na terça-feira, uma entrevista com Collins permanecia no canal YouTube da universidade, e o site do departamento de esportes continuava encaminhando os visitantes para uma de suas caridades.

“O sr. Collins nos procurou com o que acreditamos ser um esforço legítimo, baseado em sua própria experiência pessoal com sua filha”, disse uma porta-voz de Yale, Elizabeth Stauderman, em uma entrevista por telefone na terça-feira.

“Obviamente, se ficar comprovado que ele fez algo errado, nós encontraremos outro modo de promover isto”, ela acrescentou.

Collins recebeu elogios dos amigos de Schwartz e daqueles que a apoiam por fazer exatamente isso: promover a história dela, que recebeu extensa cobertura da mídia nos últimos meses.

“É isso o que me faz levantar da cama”, ele disse na entrevista para a “ABC”. “Honestamente, isso é muito, muito importante para mim. É a coisa mais importante que já fiz. Realmente é.”

Stephanie Saul e Barry Meier, em Nova York, e Rebecca Cathcart, em Los Angeles, contribuíram com reportagem. Alain Delaqueriere contribuiu com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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